E NÃO PASSOU













 


Ele já fez de tudo. Como escritor, se envolveu em todos os setores que a atividade pode abordar: teatro, cinema, literatura, televisão. Para Mario Alberto Campos de Morais Prata, escrever é uma profissão séria como outra qualquer, mas não deixa de ser um grande prazer.

Até integrar por nove vezes a lista dos "mais vendidos" e, muitas vezes, liderá-la, Mario Prata passou por algumas provações. O caminho começou em Uberaba (Minas Gerais), onde nasceu. Ele viveu a infância e juventude em Lins (interior de São Paulo), e lá descobriu os prazeres da literatura. "Eu sempre gostei de escrever mas, naquela época – anos 50, 60 – não imaginava que isso pudesse ser uma profissão. Não tive uma formação para ser escritor, acho que fui educado para ser gerente do Banco do Brasil".

Seguindo o destino, aos 20 anos, Mario Prata foi gerenciar uma agência em São Paulo e preparar-se para o "futuro garantido" que a função lhe ofereceria. Mas o amor pela escrita não foi abandonado. Desde os 14 anos, ele colaborou com a Gazeta de Lins, onde foi colunista social, redator e editor.

Enquanto estava no banco, cursava economia na Universidade de São Paulo (USP). A literatura já estava ficando de lado quando, em 1969, os estudantes ocuparam a faculdade. "Mas não sabíamos o que fazer lá dentro, aí fiquei numa máquina de escrever, criando meu primeiro livro – "O morto que morreu de rir" – que, aliás, é muito ruim, e o Centro Acadêmico publicou". Empolgado, saía vendendo sua obra em bares e, nas negociações, foi conhecendo pessoas ligadas ao teatro. No ano seguinte, mais maduro, escreveu sua primeira peça, "Cordão Umbilical", que fez sucesso imediato. "Se não tivesse dado certo, eu estaria hoje, provavelmente aposentado no Banco do Brasil ou seria Ministro da Fazenda do Fernando Henrique", brinca, viajando com as possibilidades do destino.

Polivalente

Daí pra frente, Prata não sabe mais dar a receita. "Depois você vai juntando um pouco de talento com muita sorte e vai indo. As coisas foram dando certo até chegarem onde chegou, cada um tem um tipo de trajetória", ensina.

A dele é gloriosa e plurilateral. Como jornalista, trabalhou em diversos jornais e revistas. Na literatura, não se restringiu a nenhuma faixa etária e lançou publicações para todas as idades. Escreveu também para cinema, teatro e televisão. Foi repórter, cronista, colaborador, resenhista de literatura, contista, articulista e pôde desfrutar do reconhecimento de seu trabalho ao receber vários prêmios.

Em seu currículo também está a função de assessor do Secretário da Cultura (Fernando Morais), no governo Orestes Quércia. "Apesar de ganhar pouco e trabalhar muito, foram dois anos em que pudemos fazer muita coisa pelo cinema, teatro e música", afirma. Para conseguir verba para os projetos que preparavam, Mario Prata tinha uma técnica de persuasão. "Eu sabia quanto custava o metro quadrado do metrô, então eu falava: ‘governador, são apenas 10 centímetros de metrô’, ele nunca negou nada para nós, e os 10 cm, financiavam seis meses de teatro paulista", justifica.

Já fora do governo, Prata foi para Portugal a convite de uma namorada. O relacionamento durou 16 dias, mas ele permaneceu no país por dois anos. "Logo me convidaram para fazer o projeto de um filme por oito meses. Quando acabou, pintou uma minissérie para a televisão. Três meses antes de completar dois anos, eu ainda tinha o contrato do apartamento e aproveitei esse tempo para escrever o livro "Schifaizfavoire, dicionário de português" (Editora Globo).

A partir de 92, Prata dedicou-se inteiramente aos romances e publicou um por ano. Em 93, lançou "James Lins, o playboy que não deu certo" (Placar Editorial); na seqüência, "Filho é bom, mas dura muito" (Maltese Editora); depois veio "Mas será o Benedito?" (Editora Globo); em 97, o sucesso de "O diário de um magro" (Editora Globo) e "100 crônicas" (Editora do Estadão); em 98, "Minhas vidas passadas (a limpo)" (Editora Globo); em 1999  estourou com "Minhas mulheres e meus homens" (editora Objetiva); em 2000 fez uma das mais importantes experiências em literatura e Intenet de que se tem notícia, escrevendo o romance policial "Os anjos de Badaró" (Editora Objetiva) inteiramente on-line; uma média de 4000 pessoas assistiam diariamente o autor escrevendo; em 2001 publica o livro de crônicas "Minhas tudo" (Editora Objetiva); em 2002 "Palmeiras, um caso de amor" (Editora Objetiva); e “Buscando o seu Mindinho” (Editora Objetiva); em 2004, “Diário de Magro II” (Editora Objetiva); 2006, “Paris, 98!” (Editora Objetiva). Em 2007 assinou contrato com a Editora Planeta, e lançou “Purgatório”. Em 2008, pela mesma Editora, “Cem Melhores Crônicas – que, na verdade são 129”. Ainda pela Planeta, “Sete de Paus”, em 2008.

Durante 11 anos (de 93 a 2004) foi cronista no Caderno2 do Estadão. Neste mesmo período escreveu crônicas para as semanais IstoÉ e Época.

Como roteirista de cinema ganhou 2 Kikitos no Festival de Gramado. Um com “Bésame Mucho”, em parceria com Francisco Ramalho Junior (1987) e outro com “O Testamento do Sr. Napumoceno”, filme luso-francês.

Entre literatura, teatro e cinema, já recebeu 18 prêmios nacionais e estrangeiros.


Incansável produtor tem ainda na gaveta (agora aqui no site também) uma quantidade nada desprezível de textos inéditos.

Como é ser escritor?

Para Mario Prata, a curiosidade da maioria das pessoas é injustificada. "É uma profissão como outra qualquer, também tenho minhas responsabilidades. Não existe esse negócio que muitos têm na cabeça, de que o escritor é um ser que tem umas musas para inspirar. Eu falo de escritor como profissão, porque não existe inspiração, existe um negócio chamado talento e isso você aperta e sai, claro que às vezes sai pior, às vezes sai melhor, como um médico que vai costurar um corte e às vezes faz bem, outras, não’", argumenta, dizendo que tem até um projeto ousado de criar uma faculdade de escritores no Brasil, a exemplo do que já acontece em alguns países.

De acordo com ele, com experiência é possível ensinar muitas técnicas, além de cultura geral. "Acham que escritor é só quem escreve romance. Nessa faculdade, formaríamos escritores para escrever também prospectos de geladeiras, manuais de eletroeletrônicos, bulas de remédio, essas coisas que nós não entendemos porque são elaboradas por técnicos, tinha que ser por um escritor", alfineta.

Apesar dos autores fazerem o gênero anônimo e evitarem o assédio, para Mario Prata, é difícil. Sempre aparecendo na mídia, escrevendo para o Estadão e a Isto É e lançando um livro por ano, ele acaba tendo um contato muito próximo com o público. "Recebo cerca de 40 e-mails por dia e respondo todos. Têm pessoas que confundem, querem estender o papo, acham que estão íntimas, aí eu tenho que cortar, mas não posso me desligar dos fãs", explica.