RÊ BORDOSA, A PEÇA

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AIDS

Está no bar, JUVENAL.

O Autor está dormindo em cima da mesa que ele desenha.

Entra Rê Bordosa, completamente vestida com roupa de mergulho. Só uma parte do rosto a descoberto. Usa, inclusive, os tubos de oxigênio atrás do corpo e os pés-de-pato. Quando ela entra, cumprimenta todo mundo e todo mundo a cumprimenta como se ela estivesse vestida normal.

JUVENAL - Gente, gente, por favor, um momento da atenção de vocês. Tá certo que o mundo está de ponta-cabeça, a noite anda uma loucura, todo mundo bêbado, todo mundo drogado, tá todo mundo achando tudo muito normal, mas PORRA, A RÊ BORDOSA ESTÁ DE ESCAFANDRO, porra! Será que dá para reparar? O que é isso, companheira? Ácido? Cogumelo? Só pode ser.

      - Aids, meus amigos. Aids. A coisa tá braba. Tá brabíssima. (no balcão) Um copo de conhaque, JUVENAL que hoje tá frio. Copo de plástico... Desinfetado.

JUVENAL - (servindo) Você precisa casar, Rê Bordosa, Pelo menos sai dessa paranóia. Fica aí dando pra todo mundo.

      - Casar com quem, JUVENAL? Tem alguém decente para se casar? Uma pessoa decente, honesta, fiel, justa, humana, engraçada, divertida, bonita, simpática e jovem? Sem a afetividade reprimida?

JUVENAL - (arrumando o pau dentro da calça) Tá falando com o próprio.

O Autor finalmente acorda.

AUTOR   - Mas o que é isso? Será que é uma viagem ao fundo do mar? É a Princesa Submarina ou a Mulher do Príncipe Submarino? Estou sonhando, JUVENAL?

      - Camisinha completa contra a Aids.

AUTOR   - Você não sabe que personagem não pode mudar de roupa, tem que ter a mesma roupa?

      - É que já estou de saco cheio daquela roupa, porra! A Luluzinha, que é a Luluzinha, quando ela sai na neve ela não coloca aquelas coisinhas aqui na orelha?

AUTOR   - Você não é a Luluzinha, porra!

      - Não vou tirar essa roupa e não se fala mais nisso!

AUTOR   - Você não passa de hoje. (para JUVENAL) E você se cuida também. Vai sobrar merda pra todo mundo.

Autor sai.

JUVENAL - Não liga pra esse cara, não. Soube que ele está para dançar lá na Folha Ilustrada.

      - E nós, para onde vamos?

JUVENAL - Te tiro dessa vida, Rê Bordosa, Rêsolvemos um problema seu e um meu.

      - Besteira, JUVENAL. O importante agora é fazer um rápido levantamento das minhas relações sexuais nos últimos cinco anos.

JUVENAL, chateado, coloca as duas listas telefônicas em cima do balcão.

JUVENAL - Vai fazer por ordem alfabética?

      - (olha feio para ele e começa) Uma lista de todos os meus parceiros e parceiras. Tem o Sergio e a Vera, o Reinaldo, a Martinha, o Dênio, a Marjorrie, a Maria Emilia e aquele italiano que eu não lembro o nome, o Nelsinho e a Isa, o Ricardão, o Arnaldinho e a Marcinha, (mais baixo) o Meiaoito, o Nanico, o Bob Cuspe, o Walter Ego, a Ritapop, a Stella Dáun, Gorbachov, Bernardo Cabral, Elke Maravilha. Ah, bota aí a Norma Benguell também. ( partir daqui ela começa a falar nomes de pessoas que estão na platéia. Para tanto, a atriz precisa receber em todas as sessões os nomes das pessoas que fizeram reservas. Depois) Quer saber? Foda-se! Tem muita gente que eu não lembro  a cara. De hoje em diante, JUVENAL, só de camisinha.

JUVENAL - Isso é coisa de viado. Camisinha...

      - (discando num aparelho de telefone) Por que?

JUVENAL - Primeiro, põe uma camisinha, depois veste uma sainha, logo-logo tá rebolando por aí. Além do mais, tou numa idade que não dá para parar para colocar a camisinha. Ou vou embalado, ou não vou mais.

      - Então dançou... Alô, é do Convento das Irmãs Maristas? Por favor, vocês estão aceitando novas inscrições?