PAI - Qué isso, gorda? (apertando um "pneuzinho
dela)
Durante a última fala da mãe, vemos Rê, do
lado de fora da casa, fumando rapidinho um beise.
Rê entra.
RÊ - Oi, galera...
MÃE - Filhinha, veio pela sombra?
RÊ - Não, mãe, vim sombria, escura,
negra, black. And White.
PAI - Quanto é que a ingrata quer desse
vez?
RÊ - Meu Deus, acho que era da lata...
MÃE - Doce de leite em lata? Temos. Temos
sim. Senta, minha filha. (ela se senta, silêncio entre os
três) Fala, minha filha. Pode falar.
RÊ - (passa a mão na barriga, enrolando a
língua) Sabe, querrridos pais? E mães. A vida, sabe? A vida
continua. Pois então, a vidra. A vidra é a arte da
continuidade da própria vidra... Que merda mesmo que eu
estava falando?
PAI - Da porra da vida, porra!
RÊ - Taí, tem porra na história...
PAI - O que? Porra? No sentido meleca da
palavra?
MÃE - Calma, bem.
PAI - Desembucha, menina.
RÊ - Pois é. A vida. A vida vem e a vida
passa. A vida é vivida por aqueles que vivem a vida
PAI - Fala de uma vez, cazzo!
RÊ - Tou grávida!
O pai não se abala. A grinalda cai da mão da
mãe. Rê pega a grinalda e coloca na cabeça dela, (RÊ).
MÃE - (boquiaberta) Querido, você ouviu? A
nossa filha veio nos visitar para dizer que está grávida.
Pelo menos foi isso que eu pude depreender das palavras
dela.
Rê começa, de repente, a chorar.
Rê começa a chorar nos braços da mãe, que fica
ajeitando a grinalda na cabeça dela.
PAI - (saindo) Golpe, gorda! Golpe! Para
nos pedir dinheiro para o aborto e gastar com tóchicos!
Golpe! Isso são lágrimas de crocodilo!
RÊ - Crocodila!
O pai sai indignado.
Subitamente ela pára de chorar.
RÊ - Boca seca... Tenho que ir para o
bar!
Rê entra no bar, de grinalda e tudo, e vai
falar com JUVENAL.
RÊ - JUVENAL, cai numa cilada. Estou
esperando um filho.
JUVENAL - Meu, não é. Vem, não, Me lembro que
gozei fora.
Ela fica com JUVENAL, que vai recolhendo os
copos do balcão.
RÊ - O jeito é fazer um aborto, JUVENAL.
JUVENAL - Mas e sua consciência cristã, onde
fica?
RÊ - (dá um gole) Está indo embora dentro
desses copos sujos.
Rê começa a discar o número. JUVENAL fala
timidamente a frase seguinte para ela, mas não houve. Ou
pelo menos não quis ouvir.
JUVENAL - (terno) Eu assumo...
RÊ - Alô? É da clínica de Abortos da João
Moura?
VOZ DA MULHER - Sim
RÊ - Quero marcar um aborto. Tem hora
para hoje?
VOZ DA MULHER - A senhora é cliente nova?
RÊ - Não. Sou sócia fundadora. Quanto tá?
VOZ DA MULHER - Depende da senhora.
RÊ - Como assim?
VOZ DA MULHER - A senhora quer com culpa ou
sem culpa?
Entra o Autor, colocando nas cadeiras Rita Pop
e Stella Dáun. Desliga o aparelho.
AUTOR - Agora, se vira! Se vira! E não se
esqueça de pedir nota fiscal.
Autor sai. Rê começa a chorar e vai para a
mesa. E se abraça com Rita e Stella.
Juvenal vai até ela.
JUVENAL - Se cuida, Rê Bordosa. Daqui para
frente, use camisinha. Além de evitar outra fria dessas, tem
a AIDS. É melhor você se proteger.
RÊ - Sabe que você parece com o meu pai?
O lado bom dele, que ele não tem. (ele segura nas mãos dela)
Gravidez... Aids... acho que estou virando uma personagem
abandonada pelo Autor, JUVENAL.
JUVENAL - Eu cuido de você, menina.
RÊ - Então manda uma vodca dupla sem
gelo, com algumas pitadas de conhaque.
Baseada nos quadrinhos de Angeli
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CENA 8
GRÁVIDA? POR QUE NÃO?
Rê está na banheira, alisando a sua barriga.
RÊ - Dúvida nenhuma. Grávida! Se o pai
for o idiota que eu estou pensando, o jeito é fazer um
aborto.
VOZ DE CRIANÇA - Ah, é? Quando tava lá no
bem-bom, não pensou nisso, né?
RÊ - Essas crianças de hoje.. Não
respeitam mais nem os pais.
O médico surge dentro da banheira. ATOR II.
MÉDICO - Respire fundo e conte até dez.
RÊ - Impossível, doutor.
MÉDICO - Impossível, como?
RÊ - Depois da noite de ontem, se eu
chegar no cinco é lucro. E olhe lá.
MÉDICO - Seus exames mostram que no seu corpo
faltam vitaminas A, B, C, D, fósforo, ferro cálcio...
RÊ - Meu Deus. Não resta mais nada no meu
corpo?
MÉDICO - Resta sim. Três úlceras, hepatite
alcoólica, cirrose, varizes no esôfago...
RÊ - Ainda bem que não são nas pernas.
MÉDICO - ...gastrite, duodenite, cistite...
RÊ - Chega, doutor! Me fale da gravidez.
O senhor tem certeza que não é barriga de cerveja? Vamos
doutor, seja franco comigo. Estou acabada para o resto de
minha vida, não estou?
MÉDICO - (saindo) Que nada, menina. Você só
está grávida.
RÊ - Acertei em cheio!
Ação vai para a casa de Rê Bordosa. Estão o
pai e a mãe.
MÃE - (sempre fazendo grinaldas) Se ela
telefonou avisando que vinha aqui, é porque ela está
precisando de ajuda, de carinho, do olhar de sua mãe, de
proteção...
PAI - (entrando, com apostas do jogo do
bicho) Proteção o cacete! Vem é pedir dinheiro. Conheço a
nossa filha. Dinheiro! Para gastar com tóchicos! Tóchicos e
mais tóchicos!
MÃE - Não fale assim, coitada.
PAI - Mas é a verdade. Outro dia mandou um
telegrama: PAPAI! MANDE DINHEIRO!
MÃE - Não, amor não era assim. (diz
meigamente) Era: papai, mande dinheiro... É tudo uma questão
de interpretaçao. (olhando as grinaldas) Como eu gostaria
que a Rê usasse um dia. Um dia só... O altar, as flores,
aquele vestido branco, a grinalda, sem uma gotinha de
sangue, de vodca, de secreção vaginal!
PAI - Qué isso, gorda? (apertando um "pneuzinho
dela)
Durante a última fala da mãe, vemos Rê, do
lado de fora da casa, fumando rapidinho um beise.
Rê entra.
RÊ - Oi, galera...
MÃE - Filhinha, veio pela sombra?
RÊ - Não, mãe, vim sombria, escura,
negra, black. And White.
PAI - Quanto é que a ingrata quer desse
vez?
RÊ - Meu Deus, acho que era da lata...
MÃE - Doce de leite em lata? Temos. Temos
sim. Senta, minha filha. (ela se senta, silêncio entre os
três) Fala, minha filha. Pode falar.
RÊ - (passa a mão na barriga, enrolando a
língua) Sabe, querrridos pais? E mães. A vida, sabe? A vida
continua. Pois então, a vidra. A vidra é a arte da
continuidade da própria vidra... Que merda mesmo que eu
estava falando?
PAI - Da porra da vida, porra!
RÊ - Taí, tem porra na história...
PAI - O que? Porra? No sentido meleca da
palavra?
MÃE - Calma, bem.
PAI - Desembucha, menina.
RÊ - Pois é. A vida. A vida vem e a vida
passa. A vida é vivida por aqueles que vivem a vida
PAI - Fala de uma vez, cazzo!
RÊ - Tou grávida!
O pai não se abala. A grinalda cai da mão da
mãe. Rê pega a grinalda e coloca na cabeça dela, (RÊ).
MÃE - (boquiaberta) Querido, você ouviu? A
nossa filha veio nos visitar para dizer que está grávida.
Pelo menos foi isso que eu pude depreender das palavras
dela.
Rê começa, de repente, a chorar.
Rê começa a chorar nos braços da mãe, que fica
ajeitando a grinalda na cabeça dela.
PAI - (saindo) Golpe, gorda! Golpe! Para
nos pedir dinheiro para o aborto e gastar com tóchicos!
Golpe! Isso são lágrimas de crocodilo!
RÊ - Crocodila!
O pai sai indignado.
Subitamente ela pára de chorar.
RÊ - Boca seca... Tenho que ir para o
bar!
Rê entra no bar, de grinalda e tudo, e vai
falar com JUVENAL.
RÊ - JUVENAL, cai numa cilada. Estou
esperando um filho.
JUVENAL - Meu, não é. Vem, não, Me lembro que
gozei fora.
Ela fica com JUVENAL, que vai recolhendo os
copos do balcão.
RÊ - O jeito é fazer um aborto, JUVENAL.
JUVENAL - Mas e sua consciência cristã, onde
fica?
RÊ - (dá um gole) Está indo embora dentro
desses copos sujos.
Rê começa a discar o número. JUVENAL fala
timidamente a frase seguinte para ela, mas não houve. Ou
pelo menos não quis ouvir.
JUVENAL - (terno) Eu assumo...
RÊ - Alô? É da clínica de Abortos da João
Moura?
VOZ DA MULHER - Sim
RÊ - Quero marcar um aborto. Tem hora
para hoje?
VOZ DA MULHER - A senhora é cliente nova?
RÊ - Não. Sou sócia fundadora. Quanto tá?
VOZ DA MULHER - Depende da senhora.
RÊ - Como assim?
VOZ DA MULHER - A senhora quer com culpa ou
sem culpa?
Entra o Autor, colocando nas cadeiras Rita Pop
e Stella Dáun. Desliga o aparelho.
AUTOR - Agora, se vira! Se vira! E não se
esqueça de pedir nota fiscal.
Autor sai. Rê começa a chorar e vai para a
mesa. E se abraça com Rita e Stella.
Juvenal vai até ela.
JUVENAL - Se cuida, Rê Bordosa. Daqui para
frente, use camisinha. Além de evitar outra fria dessas, tem
a AIDS. É melhor você se proteger.
RÊ - Sabe que você parece com o meu pai?
O lado bom dele, que ele não tem. (ele segura nas mãos dela)
Gravidez... Aids... acho que estou virando uma personagem
abandonada pelo Autor, JUVENAL.
JUVENAL - Eu cuido de você, menina.
RÊ - Então manda uma vodca dupla sem
gelo, com algumas pitadas de conhaque.