RÊ BORDOSA, A PEÇA

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GRÁVIDA? POR QUE NÃO?

Rê está na banheira, alisando a sua barriga.

RÊ      - Dúvida nenhuma. Grávida! Se o pai for o idiota que eu estou pensando, o jeito é fazer um aborto.

VOZ DE CRIANÇA - Ah, é? Quando tava lá no bem-bom, não pensou nisso, né?

RÊ      - Essas crianças de hoje.. Não respeitam mais nem os pais.

O médico surge dentro da banheira. ATOR II.

MÉDICO  - Respire fundo e conte até dez.

RÊ      - Impossível, doutor.

MÉDICO  - Impossível, como?

RÊ      - Depois da noite de ontem, se eu chegar no cinco é lucro. E olhe lá.

MÉDICO  - Seus exames mostram que no seu corpo faltam vitaminas A, B, C, D, fósforo, ferro  cálcio...

RÊ      - Meu Deus. Não resta mais nada no meu corpo?

MÉDICO  - Resta sim. Três úlceras, hepatite alcoólica, cirrose, varizes no esôfago...

RÊ      - Ainda bem que não são nas pernas.

MÉDICO  - ...gastrite, duodenite, cistite...

RÊ      - Chega, doutor! Me fale da gravidez. O senhor tem certeza que não é barriga de cerveja? Vamos doutor, seja franco comigo. Estou acabada para o resto de minha vida, não estou?

MÉDICO  - (saindo) Que nada, menina. Você só está grávida.

RÊ      - Acertei em cheio!

Ação vai para a casa de Rê Bordosa. Estão o pai e a mãe.

MÃE     - (sempre fazendo grinaldas) Se ela telefonou avisando que vinha aqui, é porque ela está precisando de ajuda, de carinho, do olhar de sua mãe, de proteção...

PAI     - (entrando, com apostas do jogo do bicho) Proteção o cacete! Vem é pedir dinheiro. Conheço a nossa filha. Dinheiro! Para gastar com tóchicos! Tóchicos e mais tóchicos!

MÃE     - Não fale assim, coitada.

PAI     - Mas é a verdade. Outro dia mandou um telegrama: PAPAI! MANDE DINHEIRO!

MÃE     - Não, amor não era assim. (diz meigamente) Era: papai, mande dinheiro... É tudo uma questão de interpretaçao. (olhando as grinaldas) Como eu gostaria que a Rê usasse um dia. Um dia só... O altar, as flores, aquele vestido branco, a grinalda, sem uma gotinha de sangue, de vodca, de secreção vaginal!

PAI     - Qué isso, gorda? (apertando um "pneuzinho dela)

Durante a última fala da mãe, vemos Rê, do lado de fora da casa, fumando rapidinho um beise.

Rê entra.

RÊ      - Oi, galera...

MÃE     - Filhinha, veio pela sombra?

RÊ      - Não, mãe, vim sombria, escura, negra, black. And White.

PAI     - Quanto é que a ingrata quer desse vez?

RÊ      - Meu Deus, acho que era da lata...

MÃE     - Doce de leite em lata? Temos. Temos sim. Senta, minha filha. (ela se senta, silêncio entre os três) Fala, minha filha. Pode falar.

RÊ      - (passa a mão na barriga, enrolando a língua) Sabe, querrridos pais? E mães. A vida, sabe? A vida continua. Pois então, a vidra. A vidra é a arte da continuidade da própria vidra... Que merda mesmo que eu estava falando?

PAI     - Da porra da vida, porra!

RÊ      - Taí, tem porra na história...

PAI     - O que? Porra? No sentido meleca da palavra?

MÃE     - Calma, bem.

PAI     - Desembucha, menina.

RÊ      - Pois é. A vida. A vida vem e a vida passa. A vida é vivida por aqueles que vivem a vida

PAI     - Fala de uma vez, cazzo!

RÊ      - Tou grávida!

O pai não se abala. A grinalda cai da mão da mãe. Rê pega a grinalda e coloca na cabeça dela, (RÊ).

MÃE     - (boquiaberta) Querido, você ouviu? A nossa filha veio nos visitar para dizer que está grávida. Pelo menos foi isso que eu pude depreender das palavras dela.

Rê começa, de repente, a chorar.

Rê começa a chorar nos braços da mãe, que fica ajeitando a grinalda na cabeça dela.

PAI     - (saindo) Golpe, gorda! Golpe! Para nos pedir dinheiro para o aborto e gastar com tóchicos! Golpe! Isso são lágrimas de crocodilo!

RÊ      - Crocodila!

O pai sai indignado.

Subitamente ela pára de chorar.

RÊ      - Boca seca... Tenho que ir para o bar!

Rê entra no bar, de grinalda e tudo, e vai falar com JUVENAL.

RÊ      - JUVENAL, cai numa cilada. Estou esperando um filho.

JUVENAL -  Meu, não é. Vem, não, Me lembro que gozei fora.

Ela fica com JUVENAL, que vai recolhendo os copos do balcão.

RÊ      - O jeito é fazer um aborto, JUVENAL.

JUVENAL - Mas e sua consciência cristã, onde fica?

RÊ      - (dá um gole) Está indo embora dentro desses copos sujos.

Rê começa a discar o número. JUVENAL fala timidamente a frase seguinte para ela, mas não houve. Ou pelo menos não quis ouvir.

JUVENAL - (terno) Eu assumo...

RÊ      - Alô? É da clínica de Abortos da João Moura?

VOZ DA MULHER - Sim

RÊ      - Quero marcar um aborto. Tem hora para hoje?

VOZ DA MULHER - A senhora é cliente nova?

RÊ      - Não. Sou sócia fundadora. Quanto tá?

VOZ DA MULHER - Depende da senhora.

RÊ      - Como assim?

VOZ DA MULHER - A senhora quer com culpa ou sem culpa?

Entra o Autor, colocando nas cadeiras Rita Pop e Stella Dáun. Desliga o aparelho.

AUTOR   - Agora, se vira! Se vira! E não se esqueça de pedir nota fiscal.

Autor sai. Rê começa a chorar e vai para a mesa. E se abraça com Rita e Stella.

Juvenal vai até ela.

JUVENAL - Se cuida, Rê Bordosa. Daqui para frente, use camisinha. Além de evitar outra fria dessas, tem a AIDS. É melhor você se proteger.

RÊ      - Sabe que você parece com o meu pai? O lado bom dele, que ele não tem. (ele segura nas mãos dela) Gravidez... Aids... acho que estou virando uma personagem abandonada pelo Autor, JUVENAL.

JUVENAL - Eu cuido de você, menina.

RÊ      - Então manda uma vodca dupla sem gelo, com algumas pitadas de conhaque.

 

Baseada nos quadrinhos de Angeli

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CENA 8

 

GRÁVIDA? POR QUE NÃO?

Rê está na banheira, alisando a sua barriga.

RÊ      - Dúvida nenhuma. Grávida! Se o pai for o idiota que eu estou pensando, o jeito é fazer um aborto.

VOZ DE CRIANÇA - Ah, é? Quando tava lá no bem-bom, não pensou nisso, né?

RÊ      - Essas crianças de hoje.. Não respeitam mais nem os pais.

O médico surge dentro da banheira. ATOR II.

MÉDICO  - Respire fundo e conte até dez.

RÊ      - Impossível, doutor.

MÉDICO  - Impossível, como?

RÊ      - Depois da noite de ontem, se eu chegar no cinco é lucro. E olhe lá.

MÉDICO  - Seus exames mostram que no seu corpo faltam vitaminas A, B, C, D, fósforo, ferro  cálcio...

RÊ      - Meu Deus. Não resta mais nada no meu corpo?

MÉDICO  - Resta sim. Três úlceras, hepatite alcoólica, cirrose, varizes no esôfago...

RÊ      - Ainda bem que não são nas pernas.

MÉDICO  - ...gastrite, duodenite, cistite...

RÊ      - Chega, doutor! Me fale da gravidez. O senhor tem certeza que não é barriga de cerveja? Vamos doutor, seja franco comigo. Estou acabada para o resto de minha vida, não estou?

MÉDICO  - (saindo) Que nada, menina. Você só está grávida.

RÊ      - Acertei em cheio!

Ação vai para a casa de Rê Bordosa. Estão o pai e a mãe.

MÃE     - (sempre fazendo grinaldas) Se ela telefonou avisando que vinha aqui, é porque ela está precisando de ajuda, de carinho, do olhar de sua mãe, de proteção...

PAI     - (entrando, com apostas do jogo do bicho) Proteção o cacete! Vem é pedir dinheiro. Conheço a nossa filha. Dinheiro! Para gastar com tóchicos! Tóchicos e mais tóchicos!

MÃE     - Não fale assim, coitada.

PAI     - Mas é a verdade. Outro dia mandou um telegrama: PAPAI! MANDE DINHEIRO!

MÃE     - Não, amor não era assim. (diz meigamente) Era: papai, mande dinheiro... É tudo uma questão de interpretaçao. (olhando as grinaldas) Como eu gostaria que a Rê usasse um dia. Um dia só... O altar, as flores, aquele vestido branco, a grinalda, sem uma gotinha de sangue, de vodca, de secreção vaginal!

PAI     - Qué isso, gorda? (apertando um "pneuzinho dela)

Durante a última fala da mãe, vemos Rê, do lado de fora da casa, fumando rapidinho um beise.

Rê entra.

RÊ      - Oi, galera...

MÃE     - Filhinha, veio pela sombra?

RÊ      - Não, mãe, vim sombria, escura, negra, black. And White.

PAI     - Quanto é que a ingrata quer desse vez?

RÊ      - Meu Deus, acho que era da lata...

MÃE     - Doce de leite em lata? Temos. Temos sim. Senta, minha filha. (ela se senta, silêncio entre os três) Fala, minha filha. Pode falar.

RÊ      - (passa a mão na barriga, enrolando a língua) Sabe, querrridos pais? E mães. A vida, sabe? A vida continua. Pois então, a vidra. A vidra é a arte da continuidade da própria vidra... Que merda mesmo que eu estava falando?

PAI     - Da porra da vida, porra!

RÊ      - Taí, tem porra na história...

PAI     - O que? Porra? No sentido meleca da palavra?

MÃE     - Calma, bem.

PAI     - Desembucha, menina.

RÊ      - Pois é. A vida. A vida vem e a vida passa. A vida é vivida por aqueles que vivem a vida

PAI     - Fala de uma vez, cazzo!

RÊ      - Tou grávida!

O pai não se abala. A grinalda cai da mão da mãe. Rê pega a grinalda e coloca na cabeça dela, (RÊ).

MÃE     - (boquiaberta) Querido, você ouviu? A nossa filha veio nos visitar para dizer que está grávida. Pelo menos foi isso que eu pude depreender das palavras dela.

Rê começa, de repente, a chorar.

Rê começa a chorar nos braços da mãe, que fica ajeitando a grinalda na cabeça dela.

PAI     - (saindo) Golpe, gorda! Golpe! Para nos pedir dinheiro para o aborto e gastar com tóchicos! Golpe! Isso são lágrimas de crocodilo!

RÊ      - Crocodila!

O pai sai indignado.

Subitamente ela pára de chorar.

RÊ      - Boca seca... Tenho que ir para o bar!

Rê entra no bar, de grinalda e tudo, e vai falar com JUVENAL.

RÊ      - JUVENAL, cai numa cilada. Estou esperando um filho.

JUVENAL -  Meu, não é. Vem, não, Me lembro que gozei fora.

Ela fica com JUVENAL, que vai recolhendo os copos do balcão.

RÊ      - O jeito é fazer um aborto, JUVENAL.

JUVENAL - Mas e sua consciência cristã, onde fica?

RÊ      - (dá um gole) Está indo embora dentro desses copos sujos.

Rê começa a discar o número. JUVENAL fala timidamente a frase seguinte para ela, mas não houve. Ou pelo menos não quis ouvir.

JUVENAL - (terno) Eu assumo...

RÊ      - Alô? É da clínica de Abortos da João Moura?

VOZ DA MULHER - Sim

RÊ      - Quero marcar um aborto. Tem hora para hoje?

VOZ DA MULHER - A senhora é cliente nova?

RÊ      - Não. Sou sócia fundadora. Quanto tá?

VOZ DA MULHER - Depende da senhora.

RÊ      - Como assim?

VOZ DA MULHER - A senhora quer com culpa ou sem culpa?

Entra o Autor, colocando nas cadeiras Rita Pop e Stella Dáun. Desliga o aparelho.

AUTOR   - Agora, se vira! Se vira! E não se esqueça de pedir nota fiscal.

Autor sai. Rê começa a chorar e vai para a mesa. E se abraça com Rita e Stella.

Juvenal vai até ela.

JUVENAL - Se cuida, Rê Bordosa. Daqui para frente, use camisinha. Além de evitar outra fria dessas, tem a AIDS. É melhor você se proteger.

RÊ      - Sabe que você parece com o meu pai? O lado bom dele, que ele não tem. (ele segura nas mãos dela) Gravidez... Aids... acho que estou virando uma personagem abandonada pelo Autor, JUVENAL.

JUVENAL - Eu cuido de você, menina.

RÊ      - Então manda uma vodca dupla sem gelo, com algumas pitadas de conhaque.