RÊ BORDOSA, A PEÇA

TEXTO COMPLETO

Cenas: 1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   11   12   13

 


A NOITE É UMA CRIANÇA

Autor entra carregando vários bonecos de tamanho natural e coloca nas cadeiras do bar. São eles, Bob Cuspe, Walter Ego e os dois Skrotinhos.Depois, senta-se numa mesa e começa a desenhar, tal e qual  Toulouse - Lautrec no filme do Huston, Moulin Rouge.

Entra Rê, caída como sempre, já no fim da madrugada. Rê entra e fica olhando para o  autor. Autor fica jogando bolinhas de papel nela. Ela olha para os bonecos. Autor e Rê já não se suportam mais. O Autor olha no relógio como observando que horas "sua filha" esta chegando em casa. Rê olha para a sua frase na parede. Entra no balcão, pega um giz e escreve (em baixo de  IR SOZINHA A UM BAR DA TANTO TRABALHO QUANTO CRIAR UM FILHO), MESMO PORQUE, A NOITE É UMA CRIANÇA.

pega uma garrafa de vodca na prateleira e senta-se num banquinho diante de JUVENAL. Aponta o autor com o queixo. JUVENAL dá de ombros.

      - Alguém ligou pra mim?

JUVENAL - Não.

     - Ninguém me liga, ninguém me tira pra dançar, ninguém me telegrafe... (canta) Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de Baudelaire. JUVENAL, JUVENAL, a minha cabeça tá mais pesada que uma baleia. Não sei se ontem eu falei alguma besteira ou se dormi com qualquer idiota.

JUVENAL - E aí, Rê Bordosa, se recuperou de ontem? Você estava ótima, sua malandrinha...

      - Dormi com qualquer idiota.

JUVENAL - Você precisa se casar, menina.

      - A essa altura da madrugada a maioria das mulheres está em casa cuidando dos filhos e eu aqui, bebendo feito uma vaca. Basta! Vou para casa cumprir com as minhas obrigações. (Sai. o Autor fica contente. Mas ela logo volta) Lembrei que não tenho filhos. (senta-se novamente no balcão) Tô varando noite após noite, JUVENAL. Tenho que parar de novo.

Ela vai falando este texto acima, ao mesmo tempo que o Autor vai escrevendo. É como se ele estivesse escrevendo este texto na hora, para ela.

JUVENAL - Você pode contar comigo nesse seu começar de novo. Farei o que estiver ao meu alcance.

      - Entao me alcança aquela garrafa de vodca. (reação negativa do Autor) Tem gente que não agüenta a barra e pimba! Se suicida. Eu não seria capaz. Dar fim a minha vida assim... de uma vez...

JUVENAL a serve e ela vira rápido.

      - ... eu vou aos pouquinhos. Tenho que dar um jeito na minha vida, JUVENAL.

JUVENAL - Eu também.

      - (Autor chega perto dela, fica claro que o texto é dele) Vou afastar de mim todas as drogas, bebidas, curtições, tudo! Basta de suicídio ã prestação.

JUVENAL - Para tomar uma atitude dessas é preciso coragem, Rê Bordosa.

      - Pois ai é que está o problema. Eu só consigo coragem depois da décima dose...(para o Autor) E você, quer me deixar em paz? Tá pensando que é quem? Meu pai? Tá pensando o que, hein? O que? Pensa que eu gosto dessas ceninhas curtas aqui no bar? Onde eu chego e fico falando o que eu fiz ontem de noite? Você vai me desculpar muito a sinceridade, mais eu acho isso um erro de dramaturgia. Tem que mostrar a ação e não a reação.

   Essas cenas do bar estão muito paradas.

AUTOR   - Olha aqui, Rê Bordosa. Você é uma personagem, não tem nada que dar palpites. Se você continuar assim eu te mato! Te mato, está me ouvindo?

      - Isso é uma ameaça? Liga pra Delegacia da Mulher, JUVENAL.

AUTOR   - Eu te mato antes do final da cena.

      - Sua cara não me é estranha. Por acaso você já dormiu comigo alguma noite?

AUTOR   - (indignado) Isso não são modos. Te cuida, menina! (para ele mesmo, coçando o saco) Não achei o meu pau no lixo.

      - O que é que você quer, hein, cara? Quer que eu tenha um filho e fique em casa feito uma babaca cuidando dele? Pois muito bem. Vou engravidar.

AUTOR   - Tente, para ver o que te acontece.

O Autor sai com seus rabiscos. Na folha que fica virada para o público vemos Rê Bordosa grávida.

      - Ou esse cara me mata, ou eu mato ele. Nós dois não podemos conviver na mesma historinha.

JUVENAL - Grávida?

      - Por que não?

B.O.