RÊ - A essa altura da madrugada a maioria das
mulheres está em casa cuidando dos filhos e eu aqui, bebendo feito uma
vaca. Basta! Vou para casa cumprir com as minhas obrigações. (Sai. o
Autor fica contente. Mas ela logo volta) Lembrei que não tenho filhos.
(senta-se novamente no balcão) Tô varando noite após noite, JUVENAL.
Tenho que parar de novo.
Ela vai falando este texto acima, ao mesmo tempo que o
Autor vai escrevendo. É como se ele estivesse escrevendo este texto na
hora, para ela.
JUVENAL - Você pode contar comigo nesse seu começar de
novo. Farei o que estiver ao meu alcance.
RÊ - Entao me alcança aquela garrafa de vodca.
(reação negativa do Autor) Tem gente que não agüenta a barra e pimba! Se
suicida. Eu não seria capaz. Dar fim a minha vida assim... de uma vez...
JUVENAL a serve e ela vira rápido.
RÊ - ... eu vou aos pouquinhos. Tenho que dar um
jeito na minha vida, JUVENAL.
JUVENAL - Eu também.
RÊ - (Autor chega perto dela, fica claro que o
texto é dele) Vou afastar de mim todas as drogas, bebidas, curtições,
tudo! Basta de suicídio ã prestação.
JUVENAL - Para tomar uma atitude dessas é preciso
coragem, Rê Bordosa.
RÊ - Pois ai é que está o problema. Eu só consigo
coragem depois da décima dose...(para o Autor) E você, quer me deixar em
paz? Tá pensando que é quem? Meu pai? Tá pensando o que, hein? O que?
Pensa que eu gosto dessas ceninhas curtas aqui no bar? Onde eu chego e
fico falando o que eu fiz ontem de noite? Você vai me desculpar muito a
sinceridade, mais eu acho isso um erro de dramaturgia. Tem que mostrar a
ação e não a reação.
Essas cenas do bar estão muito paradas.
AUTOR - Olha aqui, Rê Bordosa. Você é uma personagem,
não tem nada que dar palpites. Se você continuar assim eu te mato! Te
mato, está me ouvindo?
RÊ - Isso é uma ameaça? Liga pra Delegacia da
Mulher, JUVENAL.
AUTOR - Eu te mato antes do final da cena.
RÊ - Sua cara não me é estranha. Por acaso você já
dormiu comigo alguma noite?
AUTOR - (indignado) Isso não são modos. Te cuida,
menina! (para ele mesmo, coçando o saco) Não achei o meu pau no lixo.
RÊ - O que é que você quer, hein, cara? Quer que eu
tenha um filho e fique em casa feito uma babaca cuidando dele? Pois
muito bem. Vou engravidar.
AUTOR - Tente, para ver o que te acontece.
O Autor sai com seus rabiscos. Na folha que fica virada
para o público vemos Rê Bordosa grávida.
RÊ - Ou esse cara me mata, ou eu mato ele. Nós dois
não podemos conviver na mesma historinha.
JUVENAL - Grávida?
RÊ - Por que não?