RÊ BORDOSA, A PEÇA

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DA CONTRA-CULTURA AO CONTRA-CHEQUE

JUVENAL esta sozinho no bar. A faxineira (ATRIZ) de costas, limpando o bar.

JUVENAL cantando uma de suas músicas. Entra o Autor.

AUTOR   - Onde esta a Rê Bordosa?

JUVENAL olha para o relógio.

JUVENAL - Para chegar. Se você que é o Autor, não sabe onde ela está, eu é que vou saber?

FAXINEIRA - Boa, JUVENAL. Gostei.

AUTOR   - E você cala a boca. Coadjuvante não fala.

FAXINEIRA - O senhor podia dar umas falas pra mim. Sei declamar poemas. Uma vez na escola...

JUVENAL - Melhor não provocar, Ernesta...

FAXINEIRA - Merda de personagem de bosta. (sai)

Autor pega os seus papeis e vai desenhar numa prancheta. Vemos Rê se aproximar do bar.

      - (firme) Hoje será uma noite daquelas. Estou toda animadona. Com a corda toda. Vou encontrar o pessoal... os mesmos de ontem e de antes de ontem...(já meio curvada) Ficarei bebendo... Me drogando... (mais curvada) Lá pelas tantas, vai pintar carência. Tentarei um romance... (mais caída ainda) Diante das recusas partirei para a ignorância. Darei vexames.

Entra no bar quase se arrastando. Ela entra no bar com uma nota de um dólar na mão. Pega um drinque com JUVENAL que fica pesaroso em vê-la naquele estado. Passa pelo Autor.

AUTOR   - (saindo) Tou de olho em você, menina.

      - Seja mais criativo. Você já disse essa frase. Que cena estamos mesmo, querido? É a cena da contra-cultura?

AUTOR   - (tira o cheque  para pagar) Sempre que me falam em contra-cultura saco o meu contra-cheque.

Fica pagando a conta. Rê vai para a mesa com a nota na mão, sempre tentanto dizer alguma coisa.

   - Anos 60! Início de 70. Quanta loucura. Um baseadão na cabeça, uma mochila nas mãos. Naquela época baseado dava barato. Dava fome e vontade de rir. Nossa, como a gente ria naquele tempo. Pé na estrada. Easy Rider. E aqueles ácidos que a gente tomava em Itaparica? Lembra, JUVENAL, do irmão da Soninha, que entrou numa que era macaco e ficou dezessete horas pendurado num galho de arvore, por um braço só?

JUVENAL - Teve que amputar, coitado.

      - Eu via bicho em tudo que era lugar. Chamava isso de bad trip. Quando o Himmy Hendrix tocava Purple Haze... eu pirava. Tinha o Savoy Brow... o Gretful Dead. Só sonzão. Uma vez descolei um blusão dos Hell´s Angels. Invocadão. Eu tinha uns oclinhos John Lenoon.

AUTOR   - (que estava na porta do bar a observando) Você nunca usou   oclinhos John Lennom!

      - Cala a a boca, pentelho! A barriga do Jim Morrison cresceu...O negócio entao era fazer a cabeça com o Jerry Rubin, Gunsberg... Toda a contracultura. No cinema tinha Godard, Antonioni com Blow-up. Je T´aime. Me lembro da tradução de Blow Up: Depois Daquele Beijo. Blow: depois da. UP: aquele beijo. Lembra da loirinha, o Terence Stamp comendo ela enrolada nos panos? Era um novo enquadramento do mundo. Éramos marginais. Passeatas. Cheguei a tirar a roupa em frente da embaixada americana. (cai em si) Por favor, gente, quanto tá o dólar hoje?

JUVENAL - X no oficial.

AUTOR   - Y no paralelo.

JUVENAL - Acho melhor aplicar em ouro.

AUTOR   - Em Nova Iorque a onça-troy esta a Z.

      - E as comodites, como estão? Porra, gente, viver antigamente era bem mais fácil.

JUVENAL - Tenho preferido o over-night.

AUTOR   - Renda fixa.

JUVENAL - Overnigth com conta numerada na Suíça.

Rê vai até o balcão com a nota de um dólar.

      - JUVENAL, me vê um dólar de uma porra qualquer, misturada com uma pitadinha de nostalgia.

JUVENAL - (servindo) Você devia se casar de novo, Rê.

      - A essa hora, JUVENAL? Tem base?

JUVENAL - Vou falar com o Autor.

      - Nem pensar numa possibilidade dessas, JUVENAL. Nem pensar. Você nunca ouviu falar no Tedius Matrimonius. Um vírus voraz!