AUTOR - (tira o cheque para pagar) Sempre
que me falam em contra-cultura saco o meu contra-cheque.
Fica pagando a conta. Rê vai para a mesa com
a nota na mão, sempre tentanto dizer alguma coisa.
RÊ
- Anos 60! Início de 70. Quanta loucura. Um baseadão na
cabeça, uma mochila nas mãos. Naquela época baseado dava
barato. Dava fome e vontade de rir. Nossa, como a gente ria
naquele tempo. Pé na estrada. Easy Rider. E aqueles ácidos
que a gente tomava em Itaparica? Lembra, JUVENAL, do irmão
da Soninha, que entrou numa que era macaco e ficou dezessete
horas pendurado num galho de arvore, por um braço só?
JUVENAL - Teve que amputar, coitado.
RÊ
- Eu via bicho em tudo que era lugar. Chamava isso de bad
trip. Quando o Himmy Hendrix tocava Purple Haze... eu
pirava. Tinha o Savoy Brow... o Gretful Dead. Só sonzão. Uma
vez descolei um blusão dos Hell´s Angels. Invocadão. Eu
tinha uns oclinhos John Lenoon.
AUTOR - (que estava na porta do bar a
observando) Você nunca usou oclinhos John Lennom!
RÊ
- Cala a a boca, pentelho! A barriga do Jim Morrison
cresceu...O negócio entao era fazer a cabeça com o Jerry
Rubin, Gunsberg... Toda a contracultura. No cinema tinha
Godard, Antonioni com Blow-up. Je
T´aime. Me lembro da tradução de Blow
Up: Depois Daquele Beijo. Blow: depois da. UP: aquele beijo.
Lembra da loirinha, o Terence Stamp comendo ela enrolada nos
panos? Era um novo enquadramento do mundo. Éramos marginais.
Passeatas. Cheguei a tirar a roupa em frente da embaixada
americana. (cai em si) Por favor, gente, quanto tá o dólar
hoje?
JUVENAL - X no oficial.
AUTOR - Y no paralelo.
JUVENAL - Acho melhor aplicar em ouro.
AUTOR - Em Nova Iorque a onça-troy esta a
Z.
RÊ
- E as comodites, como estão? Porra, gente, viver
antigamente era bem mais fácil.
JUVENAL - Tenho preferido o over-night.
AUTOR - Renda fixa.
JUVENAL - Overnigth com conta numerada na
Suíça.
Rê vai até o balcão com a nota de um dólar.
RÊ
- JUVENAL, me vê um dólar de uma porra qualquer, misturada
com uma pitadinha de nostalgia.
JUVENAL - (servindo) Você devia se casar de
novo, Rê.
RÊ
- A essa hora, JUVENAL? Tem base?
JUVENAL - Vou falar com o Autor.
RÊ
- Nem pensar numa possibilidade dessas, JUVENAL. Nem pensar.
Você nunca ouviu falar no Tedius Matrimonius. Um vírus
voraz!