RÊ BORDOSA, A PEÇA

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PARTE II - RÊ VAI PERDENDO AS ESTRIBEIRAS

CENA 5 - UM FLASH BACK DO PERU

Rê acordando na banheira.

      - Meus Deus, estou me sentindo mal. A cabeça em chamas, a respiração curta, a pele seca... (tira um telefone vermelho de dentro da banheira) Bill? Please, Hillary. Por acaso detonaram uma bomba atômica? Não? Então foi porre mesmo! (desliga) Monstros, o Autor...

Rê liga o radinho.

LOCUTOR - E atenção. Ontem na missa das seis da manhã, em plena Catedral da Sé, uma mulher tirou toda a roupa. Foi preciso chamar a POLÍCIA para/

      - (desligado) Bem que a minha mãe me disse que um dia eu iria virar notícia. Meu Deus, será que isso foi coisa minha ou do Autor? Estou ficando confusa. Não tou legal.

Rê pega o vidrão de aspirina e vira na boca, várias vezes. Rê repete a frase:

   AGORA EU TÔ LEGAL, 39 vezes.

Quando ela diz a última fala, surge, na banheira, A analista. É para ela que ela fala a última vez.

      - Agora eu tou legal, doutora.

ANALISTA- Tem certeza? Muito bem, Rê Bordosa. Entao vamos em frente. E casamento? Já tentou algum?

      - Foi um desastre. Houve um problema com o... pênis - mas que palavra, pênis! - do meu marido.

ANALISTA- Quer falar sobre o assunto?

coloca a mão na cabeça da Analista dando um caldo nela. Surge o Marido de Rê (ATOR I), também no banheiro, lendo o Estadão.

POLICARPO- Quer parar com essa mão boba, Rê?

      - Que regulagem é essa? Somos casados, não somos?

POLI    - Estou ficando irritado.

      - Fica regulando...

POLI    - Regulando, nada. Só não estou a fim.

      - Não era isso que eu esperava do casamento.

POLI    - Esta bem, Rê Bordosa. Esta bem. Uma pegadinha só, tá bem? E mais nada, ouviu?

      - Falô. (procura dentro da banheira) Ué, Policarpo, cadê?

POLI    - Cadê o que?

      - O seu peru? Jesus!!! Onde está?

POLI    - Ora, onde sempre esteve, porra!

      - Não está, não. Está tudo lisinho.

POLI    - Lisinho?

      - É. Liso, liso...

POLI    - Como liso?

      - Liso, ué? Não sabe como é que é liso?

Policarpo coloca a mão na altura do seu sexo, dentro da banheira.

POLI    - Não!!! Meu peru sumiu!!!

      - Seu, o cazzo! Meu peru! Meu! Somos casados em comunhão de bens. O seu peru é meu peru! Onde esta o seu peru, Policarpo? Deixou no escritório?

POLI    - Meu peru sumiu...

olha dentro do sapato. Olha debaixo da banheira.

POLI    - Pô, que desagradável...

      - Não esqueceu no clube? Na mesinha do bar?

POLI    - No taxi não deixei... No elevador? Banco 24 Horas?

Rê começa a procurar em todo lugar.

      - Aqui não tá. Aqui também não. Que saco, Policarpo. Onde você foi enfiar essa droga de peru? Quero o meu peru! Será que ele não caiu dentro da privada? Creuza!

Entra a empregada (ATOR II).

      - Creuza, você viu o peru do seu Policarpo?

CRÊUZA  - Como?

      - O peru do seu Policarpo. Isso mesmo que você ouviu! Onde está o peru, Creuza?

CRÊUZA  - (começa a chorar) Só porque eu sou pobre (vai saindo).

Rê vai até a janela gritando para fora.

      - Seu Alencar, o Senhor, por acaso, não viu o peru do Policarpo por aí?

ALENCAR - (off) Não senhora... (com malícia) Qualquer coisa, tamos aí.

POLI    - Muito bem madame, a brincadeira acabou. Pode devolver o meu    peru.

      - (ofendida) Para que eu ia querer um peru velho?

POLI    - Podia ser velho, mas era o único que eu tinha. O peru era            meu.

      - Meu!!!

POLI    - Não vamos brigar por causa de um peruzinho que sumiu. Temos é que achar o peru.

Rê olha para a platéia, desconfiando que esteja lá. Rê desce para a platéia. Fica todo mundo esperando que ela diga alguma coisa. Mas ela não vai dizer. Ameaça dizer três ou quatro vezes. Faz que vai falar, mas não fala. Depois de certo tempo, o Autor entra pela platéia, vai até ela, a  encara. Ela entende e sobe para o palco. O Autor senta-se para ver o espetáculo.

     - (para a platéia) Vocês querem saber de uma coisa? Eu vou mandar a segurança fechar todas as portas lá de trás e, enquanto o meu peru não aparecer, ninguém sai daqui. No final do espetáculo vai ficar todo mundo com o peru de fora e a gente vai conferir. Um por um. Judeu tá liberado. Nenhum peru vai sair daqui hoje, impunemente.

Policarpo está chorando. Rê pega o telefone e disca.

      - Alô? Da 4ª Delegacia? Por favor, doutor, nós perdemos um peru.

VOZ DO DELEGADO - Certo, certo. Por favor, madame, faça a descrição do seu peru.

      - Baixo, magro, quarenta e dois anos, mas com um corpinho de 41. Tendência para a esquerda. A última vez que foi visto estava trajando uma camisinha verde.

VOZ DO DELEGADO - Fica tranqüila, madame. Daremos o alarme geral. (voz gravada) Atenção todos os carros! Atenção todos os carros!!!

   Atenção todos os carros! Desapareceu um peru baixo, magro, comunista, trajando camisinha verde!

      - (para o público) Vocês ouviram, não ouviram? Antes de terminar o espetáculo, a POLÍCIA vai chegar. E o peru vai ter que aparecer.

POLI    - (chorando) Vocês não se comovem?

      - Vem, Policarpo, vem...

Os dois desaparecem na banheira.