POLI - Cadê o que?
RÊ
- O seu peru? Jesus!!! Onde está?
POLI - Ora, onde sempre esteve, porra!
RÊ
- Não está, não. Está tudo lisinho.
POLI - Lisinho?
RÊ
- É. Liso, liso...
POLI - Como liso?
RÊ
- Liso, ué? Não sabe como é que é liso?
Policarpo coloca a mão na altura do seu
sexo, dentro da banheira.
POLI - Não!!! Meu peru sumiu!!!
RÊ
- Seu, o cazzo! Meu peru! Meu! Somos casados em comunhão de
bens. O seu peru é meu peru! Onde esta o seu peru,
Policarpo? Deixou no escritório?
POLI - Meu peru sumiu...
RÊ
olha dentro do sapato. Olha debaixo da banheira.
POLI - Pô, que desagradável...
RÊ
- Não esqueceu no clube? Na mesinha do bar?
POLI - No taxi não deixei... No elevador?
Banco 24 Horas?
Rê começa a procurar em todo lugar.
RÊ
- Aqui não tá. Aqui também não. Que saco, Policarpo. Onde
você foi enfiar essa droga de peru? Quero o meu peru! Será
que ele não caiu dentro da privada? Creuza!
Entra a empregada (ATOR II).
RÊ
- Creuza, você viu o peru do seu Policarpo?
CRÊUZA - Como?
RÊ
- O peru do seu Policarpo. Isso mesmo que você ouviu! Onde
está o peru, Creuza?
CRÊUZA - (começa a chorar) Só porque eu sou
pobre (vai saindo).
Rê vai até a janela gritando para fora.
RÊ
- Seu Alencar, o Senhor, por acaso, não viu o peru do
Policarpo por aí?
ALENCAR - (off) Não senhora... (com malícia)
Qualquer coisa, tamos aí.
POLI - Muito bem madame, a brincadeira
acabou. Pode devolver o meu peru.
RÊ
- (ofendida) Para que eu ia querer um peru velho?
POLI - Podia ser velho, mas era o único
que eu tinha. O peru era meu.
RÊ
- Meu!!!
POLI - Não vamos brigar por causa de um
peruzinho que sumiu. Temos é que achar o peru.
Rê olha para a platéia, desconfiando que
esteja lá. Rê desce para a platéia. Fica todo mundo
esperando que ela diga alguma coisa. Mas ela não vai dizer.
Ameaça dizer três ou quatro vezes. Faz que vai falar, mas
não fala. Depois de certo tempo, o Autor entra pela platéia,
vai até ela, a encara. Ela entende e sobe para o palco. O
Autor senta-se para ver o espetáculo.
RÊ
- (para a platéia) Vocês querem saber
de uma coisa? Eu vou mandar a segurança fechar todas as
portas lá de trás e, enquanto o meu peru não aparecer,
ninguém sai daqui. No final do espetáculo vai ficar todo
mundo com o peru de fora e a gente vai conferir. Um por um.
Judeu tá liberado. Nenhum peru vai sair daqui hoje,
impunemente.
Policarpo está chorando. Rê pega o telefone
e disca.
RÊ
- Alô? Da 4ª Delegacia? Por favor, doutor, nós perdemos um
peru.
VOZ DO DELEGADO - Certo, certo. Por favor,
madame, faça a descrição do seu peru.
RÊ
- Baixo, magro, quarenta e dois anos, mas com um corpinho de
41. Tendência para a esquerda. A última vez que foi visto
estava trajando uma camisinha verde.
VOZ DO DELEGADO - Fica tranqüila, madame.
Daremos o alarme geral. (voz gravada) Atenção todos os
carros! Atenção todos os carros!!!
Atenção todos os carros! Desapareceu um
peru baixo, magro, comunista, trajando camisinha verde!
RÊ
- (para o público) Vocês ouviram, não ouviram? Antes de
terminar o espetáculo, a POLÍCIA vai chegar. E o peru vai
ter que aparecer.
POLI - (chorando) Vocês não se comovem?
RÊ
- Vem, Policarpo, vem...
Os dois desaparecem na banheira.