RÊ
- Pô, JUVENAL, ontem eu fiquei tão doida que eu acho que
perdi as estribeiras.
JUVENAL - Só se for noutro bar, porque aqui,
o que perdem eu devolvo.
JUVENAL volta para o bar. O Autor vem até
ela.
AUTOR - Você não pode perder as
estribeiras, menina.
RÊ
- (curiosa e preocupada) Mas quem é você, cara?
AUTOR - Eu crio monstrinhos que tropeçam,
arrotam e peidam quando eu quero. Lembre-se: você pode
perder as estribeiras! Mas só quando eu quiser.
AUTOR sai.
RÊ
- Mas pinta cada figurinha nesse bar. Quem que é esse cara,
JUVENAL?
JUVENAL - (desenhando no ar) Cria
monstrinhos. (olhando-se) Como nós, por exemplo.
Rê começa a tomar a sopa. De repente, pára.
RÊ
- Completa com vodca, JUVENAL.
Juvenal enche a sopa dela de vodca e sai.
Autor volta para buscar alguma coisa que
esqueceu e vê Rê virando a sopa de vodca.
AUTOR - Teu estômago deve estar mais
fedido que o banheiro do Congresso Nacional!
Rê olha para o autor.
RÊ
- Meus Deus! (gritando para fora) JUVENAL, mais um duplo. Só
falta entrar um monstro agora. É a hora do delirius tremens.
Passa um monstro (ATOR I) pelo palco.
RÊ
- Vocês estão vendo? Vocês estão vendo?
Ninguém esta vendo nada. Apenas Rê.
MONSTRO - Oi, gatinha!
RÊ
- Gente, olha o monstro, olha o monstro. Olha que bundinha
que ele tem! Bundas tremens!
AUTOR - Rê Bordosa, você esta passando dos
limites. Já está confundindo cu com bunda.
RÊ
- Mas eu vi! Eu juro que eu vi! JUVENAL, mais um duplo. (cai
em si) Mas, afinal, quem é você?
AUTOR - Eu sou o dono de vocês todos. E
você esta fugindo do meu controle. Você está parecendo
relógio do Salvador Dali, escorrendo pela mesa.
JUVENAL ainda não voltou para cena. Rê está
sozinha com o Autor.
RÊ
- Você é o cara que me criou, que fica todas as noites
fazendo estes desenhinhos idiotas? Entendi...
AUTOR - Exatamente. Eu sou o seu criador.
Você é feita de apenas lápis, papel e nanquim. Posso passar
uma borracha em você e bau-bau. Adeus, Rê Bordosa!
RÊ
- Entao vamos sentar aqui que eu tenho uma série de
reinvindicações a fazer. Eu não agüento mais os meus
cenários. Bar, banheira, bar, banheira, bar, banheira. Quero
árvores, cara, quero praia, quero estrada. Quero ar puro, um
bando de surfistas dançando merengue.
AUTOR - Você esta fugindo das minhas mãos,
Rê Bordosa. Você está virando um personagem ultrapassado,
uma cirrose ambulante, uma fileira de cocaína falante.
RÊ
- Vem cá, ó cara, te faço um felácio e não se fala mais
nisso!
AUTOR - Te cuida! Tou de olho em você.
Lembra-se: você não tem vida própria! Te cuida!
O Autor sai. JUVENAL que tinha saído, volta
e vem até ela.
Traz mais uma dose para ela. E outra para
ele. Vira a dele.
JUVENAL - Esse cara tá querendo te apagar,
Rê Bordosa.
RÊ
- (virando um gole) Estou com medo, JUVENAL.
Rê abraça JUVENAL, pedindo apoio.
RÊ
- Me leva para casa, JUVENAL. Tou vendo monstros e autores.
Que, aliás, é a mesma coisa. Eu não tou legal. Eu não tou
legal... Sei lá... Mil coisas...
Os dois se levantam, abraçados. JUVENAL
deposita Rê Bordosa na sua banheira. A luz vai caindo.
FIM DA PRIMEIRA PARTE