RÊ BORDOSA, A PEÇA

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MAIS UMA MADRUGADA NA PAULISTA COM CONSOLAÇÃO

Como sempre, o relógio marcando quatro e vinte. JUVENAL sozinho no balcão cantarolando. Num canto do bar o Autor desenhando sozinho. JUVENAL ouvindo uma música do seu gosto no seu FM. O Autor vai até JUVENAL.

AUTOR   - (meio de canto de boca, ameaçando) O que você precisa é de um patroa. Se tu descuidar eu te caso, JUVENAL!.

JUVENAL - Mas você já me casou uma vez, cara. E não deu certo! As mulheres são umas chatas de galocha. A gente leva pra passear, leva para dançar, leva ao zoológico, leva ao cinema, leva ao teatro. Mesmo assim, vivem reclamando que a gente nunca leva elas ao tal do orgasmo.

AUTOR   - (coçando, grosseiramente o saco) É... E quando leva uma vez, querem mais, né? Na idade da gente, né?..

Autor pega uma sopa e vai para o seu canto

AUTOR   - JUVENAL, tem uma barata na minha sopa!

JUVENAL - Você devia se dar por contente. Outro dia veio uma comida na minha barata.

Entra Rê Bordosa. Ela não está legal. JUVENAL leva uma sopa para ela.

     - O que é isso?

JUVENAL - Um caldo verde para colocar você em ordem.

      - Um caldo verde, não!

JUVENAL - Se não tomar, não te dou mais cinco anos de vida.

Rê pega uma moeda e joga para cima.

      - Cara: caldo verde. Coroa: menos cinco anos de vida.

Começa a tomar a sopa.

      - Pô, JUVENAL, ontem eu fiquei tão doida que eu acho que perdi as estribeiras.

JUVENAL - Só se for noutro bar, porque aqui, o que perdem eu devolvo.

JUVENAL volta para o bar. O Autor vem até ela.

AUTOR   - Você não pode perder as estribeiras, menina.

      - (curiosa e preocupada) Mas quem é você, cara?

AUTOR   - Eu crio monstrinhos que tropeçam, arrotam e peidam quando eu quero. Lembre-se: você pode perder as estribeiras! Mas só quando eu quiser.

AUTOR sai.

      - Mas pinta cada figurinha nesse bar. Quem que é esse cara, JUVENAL?

JUVENAL - (desenhando no ar) Cria monstrinhos. (olhando-se) Como nós, por exemplo.

Rê começa a tomar a sopa. De repente, pára.

      - Completa com vodca, JUVENAL.

Juvenal enche a sopa dela de vodca e sai.

Autor volta para buscar alguma coisa que esqueceu e vê Rê virando a sopa de vodca.

AUTOR   - Teu estômago deve estar mais fedido que o banheiro do Congresso Nacional!

Rê olha para o autor.

      - Meus Deus! (gritando para fora) JUVENAL, mais um duplo. Só falta entrar um monstro agora. É a hora do delirius tremens.

Passa um monstro (ATOR I) pelo palco.

      - Vocês estão vendo? Vocês estão vendo?

Ninguém esta vendo nada. Apenas Rê.

MONSTRO - Oi, gatinha!

      - Gente, olha o monstro, olha o monstro. Olha que bundinha que ele tem! Bundas tremens!

AUTOR   - Rê Bordosa, você esta passando dos limites. Já está confundindo cu com bunda.

      - Mas eu vi! Eu juro que eu vi! JUVENAL, mais um duplo. (cai em si) Mas, afinal, quem é você?

AUTOR   - Eu sou o dono de vocês todos. E você esta fugindo do meu controle. Você está parecendo relógio do Salvador Dali, escorrendo pela mesa.

JUVENAL ainda não voltou para cena. Rê está sozinha com o Autor.

      -  Você é o cara que me criou, que fica todas as noites fazendo estes desenhinhos idiotas? Entendi...

AUTOR   - Exatamente. Eu sou o seu criador. Você é feita de apenas lápis, papel e nanquim. Posso passar uma borracha em você e bau-bau. Adeus, Rê Bordosa!

      - Entao vamos sentar aqui que eu tenho uma série de reinvindicações a fazer. Eu não agüento mais os meus cenários. Bar, banheira, bar, banheira, bar, banheira. Quero árvores, cara, quero praia, quero estrada. Quero ar puro, um bando de surfistas dançando merengue.

AUTOR   - Você esta fugindo das minhas mãos, Rê Bordosa. Você está virando um personagem ultrapassado, uma cirrose ambulante, uma fileira de cocaína falante.

      - Vem cá, ó cara, te faço um felácio e não se fala mais nisso!

AUTOR   - Te cuida! Tou de olho em você. Lembra-se: você não tem vida própria! Te cuida!

O Autor sai. JUVENAL que tinha saído, volta e vem até ela.

Traz mais uma dose para ela. E outra para ele. Vira a dele.

JUVENAL - Esse cara tá querendo te apagar, Rê Bordosa.

      - (virando um gole) Estou com medo, JUVENAL.

Rê abraça JUVENAL, pedindo apoio.

      - Me leva para casa, JUVENAL. Tou vendo monstros e autores. Que, aliás, é a mesma coisa.  Eu não tou legal. Eu não tou legal... Sei lá... Mil coisas...

Os dois se levantam, abraçados. JUVENAL deposita Rê Bordosa na sua banheira. A luz vai caindo.

FIM DA PRIMEIRA PARTE