MÃE - Na cara não, amor, que desmoraliza.
(noutro tom ) Faço grinaldas.
IRMÃ - Não fiquei tão traumatizada
depois que fiz o meu segundo aborto.
IRMÃO - Eu queria casar com o meu primo, mas
o meu pai...(outro safanão)
RÊ - Eu acredito em histórias de amor
POSE III:
PAI - Eu mantenho relações sexuais com a
minha esposa até hoje. Toda noite de natal.
MÃE - Faço grinaldas.
IRMÃ - Meu quinto aborto eu fiz
sozinha.
IRMÃO - Foi aniversário do meu primo na
semana passada. (outro safanão) Fez 48 anos.
RÊ - Eu acredito em histórias em quadrinhos.
A luz vai se apagando para voltar na sala da
juventude de Rê Bordosa. Estão ela, o pai (ATOR I) e a mãe
(ATOR II). Estão acabando de comer, em silêncio. A mãe limpa
a boca e pega uma grinalda para trabalhar. O pai pega o
Estadão e começa a ler. Rê pega um fuminho e começa a
enrolar na frente deles. Eles não percebem o que ela está
fazendo.
RÊ - A comida estava ótima.
OS DOIS - Hum-hum.
RÊ - O bife tava do jeito que eu
gosto.
OS DOIS - Hum- hum.
RÊ - Uma delícia.
OS DOIS - Hum-hum.
MÃE - Queria tanto que você um dia usasse uma
dessas, minha filha. Porque você sabe, né?, sua irmã deu no
que deu.
PAI - Talvez o seu filho use.
MÃE - Bordoso!
RÊ - Uma delícia. Agora, pra relaxar, um
baseadinho que é pra facilitar a digestão.
O pai para de ler o jornal e a mãe de fazer a
grinalda. Se olham.
OS DOIS - Baseadinho? É uma sobremesa, minha
filha?
RÊ - Maconha, daddy. Maconha, mammy.
Os dois se entreolham novamente, estupefatos.
O pai dá um safanão nela.
PAI - Repete o que disse, sua fedelha!
RÊ - Mas pai, um fuminho depois do almoço,
que mal que pode fazer?
PAI - Está ouvindo, gorda?
MÃE - Estou estupefada.
RÊ - Tá!
PAI - Tá o que?
RÊ - Não é da. É tá!
PAI - Dá e tá o que, menina?
RÊ - Não estupefada. É estupefata.
MÃE - Há sim.
PAI - Não mude de assunto, não! Esta ouvindo,
gorda?
MÃE - Nossa filha é uma maconheira!
Maconheira! Deve andar por ai, sabe-se lá com quem, fumando
LSP e tomando copos e copos de maconha!
RÊ - Mas pai, é só um tapinha...
PAI - Quer mais um tapinha, não quer? Pois
tome! (dá um tapa nela)
Rê, triste, magoada, vai para um armário. Fica
diante dele.
PAI - É a destruição da família!!!
MÃE - Os vizinhos!...
Rê abre o armário. Tira cinco vestidos iguais
aos que está sempre usando, olha para os pais.
RÊ - (antes de sair) Insisto. O jantar estava
ótimo!
Sai, triste, acendendo o seu baseado.
PAI - Sou um homem arrasado!
MÃE - (faz o sinal da cruz) Eu também.
PAI - Só enchendo a cara mesmo.
Pega um galão de pinga.
MÃE - Opa, tô nessa!
PAI - Não sei quem essa menina puxou...
Começam a encher a cara, enquanto a luz vai
caindo lentamente.
Voltamos então para a banheira onde está Rê e
a Analista (ATOR II).
RÊ - Entendeu a barra, doutora? Me diga: pode
dizer: tem base? Tem base?
ANALISTA - E as suas neuroses atuais? Faz o
que com elas?
RÊ - Largo tudo no fundo da banheira.
Analista começa a pegar coisa dentro da
banheira e colocar para fora: um Snoopy, uma lata de
cerveja, uma caneta sem carga, um desenho grande dela com
Juvenal. Aquele. Este ela tira da mão da analista. Tem mais
coisas: uma grinalda.
ANALISTA - O que você faz durante a noite?
RÊ - Bebo. Bebo. Bebo. Bebo. Bebo. Bebo.
Depois faço séquiçu.
ANALISTA - Com quem, minha filha?
RÊ - A senhora ainda não percebeu que o meu
problema é justamente esse? Como é que, depois de beber
tanto, eu vou me lembrar? Sabe doutora, quando eu bebo, fumo
e cheiro, eu faço tudo até as últimas conseqüências. Faço
sequiçu feito uma louca, uma doida. Espere um pouco. Quem
foi que mandou a senhora entrar na minha banheira?
ANALISTA - Você é minha cliente. Estou me
aprofundando em você.
RÊ - (Recua) Mas com o dedão do pé?
ANALISTA - Perdão, Rê, foi um escorregãozinho
da minha parte.
RÊ - Sei...
ANALISTA - E tortura? Já foi torturada?
RÊ - Quem é que não foi torturada nos anos 70
? Me lembro como se fosse hoje.
Luz se apaga. Fica escuro e começamos a ouvir
"olha que coisa mais linda, mais cheia de graça"... Vai
acendendo a luz e vemos Rê caminhando bêbada pela av. da
Consolação.
Rê esta passando diante de uma joalheria. Dois
assaltantes (ATOR I e II) saem da joalheria, levando sacos
de jóia, esbarrando em Rê, que cai, tenta se levantar,
desiste e dorme ali mesmo. Som de sirene. Chegam dois
POLICIAIS (ATOR I e II). Constatam o furto. Percebem Rê,
dormindo, encostada na joalheria.
POLÍCIA I - Uma testemunha!
POLÍCIA II- Vamos, garota, em pé.
Rê faz um esforço sobre-humano para falar a
frase seguinte e desmaiar novamente.
RÊ - Obrigada pelo "garota".
Os dois a carregam para fora.
Levem para a Delegacia. Um deles começa a
bater no rosto de Rê, que mal se mantém em pé.
POLÍCIA I - Cadê as jóias, menina?
Rê não consegue falar nada. Tá maus mesmo.
O POLÍCIA II enfia a cara de RÊ numa tina de
água. Depois tira.
POLÍCIA I - (da mais um tapa) Onde estão as
jóias?
Rê não consegue dizer nada. Até tenta, mas não
consegue.
O outro enfia a cabeça dela outra vez na tina.
POLÍCIA I - Vamos menina, onde estão as jóias?
Nada, chutes na bunda dela que quase cai.
Enfiam a cara dela outra vez na água. Quando Rê volta, volta
já em condições de dizer alguma coisa.
RÊ - Seu guarda, vamos entrar num acordo.
Acho melhor o senhor contratar uma mergulhadora
profissional, porque eu não estou vendo nenhuma jóia!
Melancólica luz vai abaixando.