RÊ BORDOSA, A PEÇA

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O PASSADO DA PERSONAGEM

Luz na banheira. Pouco a pouco, Rê vai surgindo na sua banheira.

Tira uma vitrola das mais velhas e coloca Meu Mundo Caiu que fica tocando repetindo sempre o refrão Meu Mundo Caiu... Abre uma lata, coloca fumo no cachimbo e começa a fumar.

RÊ   - Análise! Não me faltava mais nada. Analista!

Surge, de dentro da banheira a Analista de Rê Bordosa. (feita pelo ATOR II)

RÊ   - Boa tarde, doutora.

ANALISTA  - Tem certeza?

RÊ    - Ih... Já vi tudo. Vai ser uma luta! Como assim?

ANALISTA - Tem certeza que a tarde está boa?

RÊ   - Não entendi.

ANALISTA  - Pode começar a falar.

RÊ  - Falar? Não pode ser outra coisa?

ANALISTA  - (dando um tapinha no cachimbo) Que outra coisa, por exemplo?

RÊ  - Sei lá. Nunca fiz análise.. Por exemplo: arrastar a voz assim, ó  (arrasta a voz) Tropeçar nas palavras (tropeça nas palavras). Enrolar a língua (enrola a língua). Pois é, doutora, é como eu já expliquei para a senhora. Pra resumir,  a minha vida é orgias e mais orgias. Alcoólica, sexual, mental, banheiral, sacal...

ANALISTA  - E você acha isso bonito?

RÊ   - Bonito, não. Mas que é excitante é.

ANALISTA - Me fala da sua infância.

B.O. rápido e a luz acende noutro local, onde há uma tela, dessas onde as pessoas colocam a cabeça para uma pose fotográfica.

ATOR I coloca a cabeça onde está PAI.

ATOR II onde está escrito IRMÃO.

ATOR II também, na hora da fala, colocará a cabeça onde está escrito MÃE.

ATOR I, também, na hora da fala, colocará a cabeça onde está escrito IRMÃ MAIS VELHA

E Rê Bordosa, onde está RÊGINA.

Estão posando.

POSE I:

PAI   - Confesso que tenho apartamento montado com a minha amante. Mas, aparelho de TV com controle remoto, só para a  família.

MÃE  - Faço grinaldas. Vendo para fora.

IRMà       - Fiquei meio traumatizada depois que fiz o meu primeiro aborto.

IRMÃO  - Meu primo me deu um dinheiro para deixar ele colocar o pintinho dele na minha bundi/...(o pai o cala  com um safanão na cabeça)

RÊ  - Eu acredito em história de fadas.

POSE II:

PAI    - Confesso que gosto de dar porradas em mulheres. Todo bicheiro gosta de bater em mulheres. (dá um safanão na cabeça de Rê que está abaixo dele).

MÃE  - Na cabeça não, que prejudica, amor. (noutro  tom) Faço grinaldas.

O pai dá um tapa na cara dela da Rê.

MÃE   - Na cara não, amor, que desmoraliza. (noutro tom ) Faço grinaldas.

IRMà       - Não fiquei tão traumatizada depois que fiz o meu segundo aborto.

IRMÃO  - Eu queria casar com o meu primo, mas o meu pai...(outro safanão)

RÊ  - Eu acredito em histórias de amor

POSE III:

PAI   - Eu mantenho relações sexuais com a minha esposa até hoje. Toda noite de natal.

MÃE     - Faço grinaldas.

IRMà       - Meu quinto aborto eu fiz sozinha.

IRMÃO   - Foi aniversário do meu primo na semana passada. (outro safanão) Fez 48 anos.

RÊ   - Eu acredito em histórias em quadrinhos.

A luz vai se apagando para voltar na sala da juventude de Rê Bordosa. Estão ela, o pai (ATOR I) e a mãe (ATOR II). Estão acabando de comer, em silêncio. A mãe limpa a boca e pega uma grinalda para trabalhar. O pai pega o Estadão e começa a ler. Rê pega um fuminho e começa a enrolar na frente deles. Eles não percebem o que ela está fazendo.

RÊ    - A comida estava ótima.

OS DOIS   - Hum-hum.

RÊ         - O bife tava do jeito que eu gosto.

OS DOIS   - Hum- hum.

RÊ  - Uma delícia.

OS DOIS   - Hum-hum.

MÃE  - Queria tanto que você um dia usasse uma dessas, minha filha. Porque você sabe, né?, sua irmã deu no que deu.

PAI  - Talvez o seu filho use.

MÃE  - Bordoso!

RÊ - Uma delícia. Agora, pra relaxar, um baseadinho que é pra facilitar a digestão.

O pai para de ler o jornal e a mãe de fazer a grinalda. Se olham.

OS DOIS   - Baseadinho? É uma sobremesa, minha filha?

RÊ  - Maconha, daddy. Maconha, mammy.

Os dois se entreolham novamente, estupefatos.

O pai dá um safanão nela.

PAI  - Repete o que disse, sua fedelha!

RÊ   - Mas pai, um fuminho depois do almoço, que mal que pode fazer?

PAI   - Está ouvindo, gorda?

MÃE  - Estou estupefada.

RÊ - Tá!

PAI  - Tá o que?

RÊ   - Não é da. É tá!

PAI  - Dá e tá o que, menina?

RÊ  - Não estupefada. É estupefata.

MÃE  - Há sim.

PAI - Não mude de assunto, não! Esta ouvindo, gorda?

MÃE - Nossa filha é uma maconheira! Maconheira! Deve andar por ai, sabe-se lá com quem, fumando LSP e tomando copos e copos de maconha!

RÊ   - Mas pai, é só um tapinha...

PAI  - Quer mais um tapinha, não quer? Pois tome! (dá um tapa nela)

Rê, triste, magoada, vai para um armário. Fica diante dele.

PAI  - É a destruição da família!!!

MÃE  - Os vizinhos!...

Rê abre o armário. Tira cinco vestidos iguais aos que está sempre usando, olha para os pais.

RÊ  - (antes de sair) Insisto. O jantar estava ótimo!

Sai, triste, acendendo o seu baseado.

PAI   - Sou um homem arrasado!

MÃE  - (faz o sinal da cruz) Eu também.

PAI  - Só enchendo a cara mesmo.

Pega um galão de pinga.

MÃE  - Opa, tô nessa!

PAI       - Não sei quem essa menina puxou...

Começam a encher a cara, enquanto a luz vai caindo lentamente.

Voltamos então para a banheira onde está Rê e a Analista (ATOR II).

RÊ  - Entendeu a barra, doutora? Me diga: pode dizer: tem base? Tem base?

ANALISTA  - E as suas neuroses atuais? Faz o que com elas?

RÊ  - Largo tudo no fundo da banheira.

Analista começa a pegar coisa dentro da banheira e colocar para fora: um Snoopy, uma lata de cerveja, uma caneta sem carga, um desenho grande dela com Juvenal. Aquele. Este ela tira da mão da analista. Tem mais coisas: uma grinalda.

ANALISTA  - O que você faz durante a noite?

RÊ  - Bebo. Bebo. Bebo. Bebo. Bebo. Bebo. Depois faço séquiçu.

ANALISTA  - Com quem, minha filha?

RÊ  - A senhora ainda não percebeu que o meu problema é justamente esse? Como é que, depois de beber tanto, eu vou me lembrar? Sabe doutora, quando eu bebo, fumo e cheiro, eu faço tudo até as últimas conseqüências. Faço sequiçu feito uma louca, uma doida. Espere um pouco. Quem foi que mandou a senhora entrar na minha banheira?

ANALISTA  - Você é minha cliente. Estou me aprofundando em você.

RÊ  - (Recua) Mas com o dedão do pé?

ANALISTA  - Perdão, Rê, foi um escorregãozinho da minha parte.

RÊ  - Sei...

ANALISTA  - E tortura? Já foi torturada?

RÊ  - Quem é que não foi torturada nos anos 70 ? Me lembro como se fosse hoje.

Luz se apaga. Fica escuro e começamos a ouvir "olha que coisa mais linda, mais cheia de graça"... Vai acendendo a luz e vemos Rê caminhando bêbada pela av. da Consolação.

Rê esta passando diante de uma joalheria. Dois assaltantes (ATOR I e II) saem da joalheria, levando sacos de jóia, esbarrando em Rê, que cai, tenta se levantar, desiste e dorme ali mesmo. Som de sirene. Chegam dois POLICIAIS (ATOR I e II). Constatam o furto. Percebem Rê, dormindo, encostada na joalheria.

POLÍCIA I - Uma testemunha!

POLÍCIA II- Vamos, garota, em pé.

Rê faz um esforço sobre-humano para falar a frase seguinte e desmaiar novamente.

RÊ  - Obrigada pelo "garota".

Os dois a carregam para fora.

Levem para a Delegacia. Um deles começa a bater no rosto de Rê, que mal se mantém em pé.

POLÍCIA I - Cadê as jóias, menina?

Rê não consegue falar nada. Tá maus mesmo.

O POLÍCIA II enfia a cara de RÊ numa tina de água. Depois tira.

POLÍCIA I - (da mais um tapa) Onde estão as jóias?

Rê não consegue dizer nada. Até tenta, mas não consegue.

O outro enfia a cabeça dela outra vez na tina.

POLÍCIA I - Vamos menina, onde estão as jóias?

Nada, chutes na bunda dela que quase cai. Enfiam a cara dela outra vez na água. Quando Rê volta, volta já em condições de dizer alguma coisa.

RÊ  - Seu guarda, vamos entrar num acordo. Acho melhor o senhor contratar uma mergulhadora profissional, porque eu não estou vendo nenhuma jóia!

Melancólica luz vai abaixando.