RÊ BORDOSA, A PEÇA

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NO BAR

A luz começa a acender num quadro que tem no bar, onde se lê nitidamente:

IR SOZINHA A UM BAR, DÁ TANTO TRABALHO QUANTO CRIAR UM FILHO

(Rê Bordosa)

Juvenal (feito pelo ATOR I) enxuga copos atrás do balcão, cantando Besame Mucho que toca no radio FM do bar. Entra Rê Bordosa, dá um cumprimento geral. Já está bêbada. Vem de outros bares. Juvenal de ilumina, passa o pano no balcão.

  - Juvenal, eu não esqueci o meu casaco aqui ontem?

JUVENAL - Deixa eu ver. (procura atrás do balcão) O casaco não, mas tem uma meia de domingo, um batom de segunda, uma calcinha de quarta, uma escova de...

   - Chega, chega, Juvenal! Olha bem para a minha cara e diga o que você está vendo. Vamos, Juvenal, diga, porra!

JUVENAL   - Um imenso barril de vodca.

  - Pô, cara, você podia ser mais delicado. Dizer...uma meia cerveja, um Martini seco...

JUVENAL  - Vai enxugar o que?

       - Quem enxuga é pano de chão.

JUVENAL   - Então, vai enxugar o que?

  - (olha no relógio) Tá na hora da vodca dupla.

JUVENAL   - (servindo, com carinho, preocupado) Vai devagar, menina.

Rê dá um sorriso gostoso para ele. Ele retribui. Mas ela está de pilequinho. Rê vai para a mesa. Rê fica sozinha sentada na cadeira. Juvenal olhando terno para ela.

O ATOR II entra de Vendedora de Flores. A Vendedora vai até Rê, que é a única freguesa.

VENDEDORA -  Quer uma flor, amor?

  - (um pouco agressiva e triste) Eu não sou o amor de ninguém. E se falar de novo te dou um beijo na boca. De língua!

Vendedora vai até Juvenal que dá um dinheiro para ela e pega uma flor. Antes da Vendedora sair,  ela vai até Rê e coloca uma flor no cabelo dela. Vendedora sai. Juvenal vai com a flor até ela. Pega na mão dela e coloca a flor entre os dedos dela.

   - Quando eu era garota, sonhava com um Príncipe Encantado. Ele era um vulto. Mas aí fui crescendo, crescendo...a imagem foi focando, focando... até que quando eu percebi, as coisas não eram como eu imaginava. (ela diz isto "focando" o Juvenal)

JUVENAL  - Fim de expediente. Bar fechando. Como é, Rê Bordosa? Vamos ao mesmo motel de ontem?

Rê olha para ele. Não sabe se vai. Entra o Autor (ATOR II), com uma pasta de desenhos. Senta-se e começa a roer unhas. Ele está sempre roendo unhas.

JUVENAL   - Ele está nos desenhando juntos.

   - (Olhando com ternura para Juvenal) Como é mesmo o nome do motel?

Autor tem uma reação de quem descobriu alguma coisa. Uma espécie de Eureca! A luz vai caindo enquanto o Autor dá um sorriso nervoso e começa a fazer os seus rabiscos.