LOCUTOR - O dia conjugal se tornava um
verdadeiro martírio.
RÊ
- Já vai para o bar, JUVENAL?
JUVENAL - Trabalhar, minha filha.
RÊ
- JUVENAL, eu lhe imploro. Me leve com você. Só preciso de
umas sete ou oito doses de vodca.
JUVENAL - Não quero nem ouvir.
RÊ
- (JUVENAL sai) Droga, mais um dia regado a leite e nescau.(pausa)
Saudades do meu velho autor...
LOCUTOR - Sendo assim, ela voltou a se
empanturrar.
Na televisão, comendo besteiras.
RÊ
- Não adianta, a monogamia é irma da monotonia!
TELEVISÃO - Alô, colegas! Novamente estamos
aqui no nosso programa "O Amor a Dois". Hoje lançaremos com
o total apoio da Igreja Católica Apostólica Romana, a
Campanha FAÇA SEXO SEM AS MÃOS.
Rê fica olhando para a tela sem entender o
que está vendo. Mas para o espectador, ele deve estar vendo
uma coisa sensual, porque ela vai se excitando com o que vê
e público não. Entra JUVENAL, ela se recompõe, ele desliga a
televisão, tira o paletó, os sapatos, as meias e começa a
coçar entre os dedos do pé.
JUVENAL - Me diga francamente, Rê Bordosa, o
que você está achando da vida de casada?
RÊ
- Ah, JUVENAL, melhor deixar isso pra lá.
JUVENAL - Vai, amor. Pode dizer. Do que você
está sentindo falta?
RÊ
- Sabe aquele morenão que ia sempre no bar, de calça justa?
JUVENAL - Não fala assim, amor. Dói. Dói,
sabia? Rê Bordosa, você está engordando? Ando preocupado.
Preciso tomar uma providencia.
RÊ
- Vai me deixar matar uma garrafa de vodca?
JUVENAL - Não. Vou comprar um sofá maior.
LOCUTOR - Rê Bordosa estava irreconhecível.
90 quilos pra mais.
JUVENAL - Quero pedir uma coisa, Rê Bordosa.
RÊ
- Ah, pede que eu faço. De frente, de costas, de pé, de
joelhos, deitada. Qualquer jogo.
JUVENAL - (passa uma cueca para ela) Cê lava
a minha cueca?
RÊ
- Não! Não! Eu não agüento mais! Eu vou ter um troço! Eu vou
explodir. EXPLODIR!
Rê explode maravilhosamente. Quando volta
luz, vemos apenas as roupas de Rê Bordosa e alguns pedaços
de pele. Morreu mesmo.
JUVENAL - (com uma cueca numa mão e a sainha
dela na outra) Meu Deus, ela morreu...
Luz começa a se acender na banheira de Rê
Bordosa. Ela está lá. É o seu caixão. Em volta, JUVENAL, e
os bonecos do Angeli: Meia, Nanico, Stella e Rita, e os
outros. Mais ao fundo, o Autor.
LOCUTOR - Morreu a puta velha. Os bêbados se
embriagaram, os vagabundos cantaram e os cães ladraram.
Todos sentiam o fim daquela inesquecível personagem. Esta
foi a verdadeira história da sua morte. Um crime sem
mordomos culpados, no entanto, com um garçonzinho filho da
puta. E, com a morte da Rê Bordosa, pôde-se detectar o
surgimento do TEDIUS MATRIMONIUS, um vírus mortal que vem se
proliferando pelos grandes centros, criando assim, vários
grupos de risco.
Autor entorna uma garrafa de vodca no
caixão/banheira, que vai descendo para baixo da terra.
Apaga a luz e vamos todos para o bar. Os
bonecos idem. No banquinho onde ela sempre se sentava, um
cartaz:
RESERVADO
JUVENAL liga o FM e entra um bolerão dele.
Nisso surge o espírito da Rê Bordosa, pelo chão, ficando ao
lado de JUVENAL, ouvindo a música com ele. Ninguém a vê.
Todos estão estáticos.
Ela dá um beijo em cada um, que não a
percebem e sai para a platéia.
RÊ
- Não me esqueci, não. Pensaram que eu tinha me esquecido,
não é? Por favor, quem está sentado na fila C, número 6? Por
favor, coloque a mão debaixo da cadeira. Encontrou, não é?
(grudado lá embaixo tem um peruzinho de porcelana) Por
favor, pode me dar.
Ela sai pelas portas do fundo. Ficam apenas
dois focos, um em JUVENAL e outro no Autor. Ambos com
lágrimas correndo.
A luz vai se apagando, o público começa a
aplaudir.
Tudo escuro. Foco na banheira de Rê
Bordosa. Não vemos ninguém. Uma mão, como se fora um
náufrago, sai da banheira e coloca um "radinho de carro" do
lado de fora. A mão desaparece novamente e surge com quatro
copos usados. Depois, sempre com o mesmo movimento,
mostrando apenas o braço e a mão, vai depositando para fora
da banheira, os seguintes objetos: garrafa de vodca
nacional, maços de cigarros, revistas de homens e mulheres
nuas, um cinzeiro cheio de tocos, uma gilete enorme, um
canudo de cheirar enorme, um saquinho e um enorme vidro de
aspirina. Por fim uma seringa e uma "lata".
Finalmente, surge Rê Bordosa, na maior
rebordose do mundo. cabeça doendo, falando baixo.
O próprio som a incomoda.
RÊ
- Meus Deus! Meu Deuses! Outra vez. O que foi que
aconteceu ontem de noite?
F I M