RÊ BORDOSA, A PEÇA

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RÊ BORDOSA E JUVENAL, UM CASAL

LOCUTOR - Agora você vai conhecer a vida de casada de Rê Bordosa e JUVENAL. Já no aconchego do lar, o casal comia pipoquinha no sofá, vendo a novela das sete..

Aqui os dois traçam comentários do dia sobre a novela que está passando as sete na Globo. Depois de curtirem um minuto.

      - JUVENAL, põe um filme de sacanagem, põe.

JUVENAL - O que é isso, Rê Bordosa? Agora você é uma mulher casada. A sacanagem é um passo para a destruição, para a degradação sexual. E, de degradação sexual para o comunismo é uma passo. Estamos entrando na era do amor.

      - Então coloca, pelo menos, a Noviça Rêbelde.

LOCUTOR - E dali para a cozinha, da cozinha para a sala, da sala para o quarto, do quarto para a sala, da sala para a cozinha, da cozinha para o banheiro. A CASA NÃO TINHA BANHEIRA! Entre um omelete e outro, Rê reflete:

      - Essa vida de casada tá me matando. Tá tudo muito parado. Antes eu tinha um autor. Que eu tinha que fazer tudo o que ele queria. Agora eu não tenho mais autor, mas tenho um marido. E eu tenho que fazer tudo que ele manda. Ganhei um outro autor. Tá tudo muito paradão. Pipoca, novela, marido, pizza...  Arroto, ronco, peido fedido... Passar horas na cozinha, não é a minha. A única coisa que salva é que, ás vezes, pinta um vinagre. (vira uma garrafa de vinagre)

LOCUTOR - Pobre Rê. Passava os dias comendo bombons e guloseimas. De manhã até de noite.

      - (na cama) Sabe o que eu estou a fim, JUVENAL?

JUVENAL - Pipoca, bem?

      - Não. Tou a fim de sair por ai dando para todo mundo.

JUVENAL - Rê Bordosa, você não está esquecendo de nada, não?

      - Ah, claro, as camisinhas.

LOCUTOR - A velha junkie já não agüentava mais. Era muita glicose para a cabeça dela.

Os dois agora estão vendo televisão e ele está tomando uma latinha de cerveja.

      - Posso dar um bico na cerveja?

JUVENAL - Nem pensar.

      - Então um cigarrinho só. De nicotina mesmo.

JUVENAL - Já disse. Nem álcool, nem cigarros, nem drogas. Só milk shake.

LOCUTOR - O dia conjugal se tornava um verdadeiro martírio.

      - Já vai para o bar, JUVENAL?

JUVENAL - Trabalhar, minha filha.

      - JUVENAL, eu lhe imploro. Me leve com você. Só preciso de umas sete ou oito doses de vodca.

JUVENAL - Não quero nem ouvir.

      - (JUVENAL sai) Droga, mais um dia regado a leite e nescau.(pausa) Saudades do meu velho autor...

LOCUTOR - Sendo assim, ela voltou a se empanturrar.

Na televisão, comendo besteiras.

      - Não adianta, a monogamia é irma da monotonia!

TELEVISÃO - Alô, colegas! Novamente estamos aqui no nosso programa "O Amor a Dois". Hoje lançaremos com o total apoio da Igreja Católica Apostólica Romana, a Campanha FAÇA SEXO SEM AS MÃOS.

Rê fica olhando para a tela sem entender o que está vendo. Mas para o espectador, ele deve estar vendo uma coisa sensual, porque ela vai se excitando com o que vê e público não. Entra JUVENAL, ela se recompõe, ele desliga a televisão, tira o paletó, os sapatos, as meias e começa a coçar entre os dedos do pé.

JUVENAL - Me diga francamente, Rê Bordosa, o que você está achando da vida de casada?

      - Ah, JUVENAL, melhor deixar isso pra lá.

JUVENAL - Vai, amor. Pode dizer. Do que você está sentindo falta?

      - Sabe aquele morenão que ia sempre no bar, de calça justa?

JUVENAL - Não fala assim, amor. Dói. Dói, sabia? Rê Bordosa, você está engordando? Ando preocupado. Preciso tomar uma providencia.

      - Vai me deixar matar uma garrafa de vodca?

JUVENAL - Não. Vou comprar um sofá maior.

LOCUTOR - Rê Bordosa estava irreconhecível. 90 quilos pra mais.

JUVENAL - Quero pedir uma coisa, Rê Bordosa.

      - Ah, pede que eu faço. De frente, de costas, de pé, de joelhos, deitada. Qualquer jogo.

JUVENAL - (passa uma cueca para ela) Cê lava a minha cueca?

      - Não! Não! Eu não agüento mais! Eu vou ter um troço! Eu vou explodir. EXPLODIR!

Rê explode maravilhosamente. Quando volta luz, vemos apenas as roupas de Rê Bordosa e alguns pedaços de pele. Morreu mesmo.

JUVENAL - (com uma cueca numa mão e a sainha dela na outra) Meu Deus, ela morreu...

Luz começa a se acender na banheira de Rê Bordosa. Ela está lá. É o seu caixão. Em volta, JUVENAL, e os bonecos do Angeli: Meia, Nanico, Stella e Rita, e os outros. Mais ao fundo, o Autor.

LOCUTOR - Morreu a puta velha. Os bêbados se embriagaram, os vagabundos cantaram e os cães ladraram. Todos sentiam o fim daquela inesquecível personagem. Esta foi a verdadeira história da sua morte. Um crime sem mordomos culpados, no entanto, com um garçonzinho filho da puta. E, com a morte da Rê Bordosa, pôde-se detectar o surgimento do TEDIUS MATRIMONIUS, um vírus mortal que vem se proliferando pelos grandes centros, criando assim, vários grupos de risco.

Autor entorna uma garrafa de vodca no caixão/banheira, que vai descendo para baixo da terra.

Apaga a luz e vamos todos para o bar. Os bonecos idem. No banquinho onde ela sempre se sentava, um cartaz:

RESERVADO

JUVENAL liga o FM e entra um bolerão dele. Nisso surge o espírito da Rê Bordosa, pelo chão, ficando ao lado de JUVENAL, ouvindo a música com ele. Ninguém a vê. Todos estão estáticos.

Ela dá um beijo em cada um, que não a percebem e sai para a platéia.

      - Não me esqueci, não. Pensaram que eu tinha me esquecido, não é? Por favor, quem está sentado na fila C, número 6? Por favor, coloque a mão debaixo da cadeira. Encontrou, não é? (grudado lá embaixo tem um peruzinho de porcelana) Por favor, pode me dar.

Ela sai pelas portas do fundo. Ficam apenas dois focos, um em JUVENAL e outro no Autor. Ambos com lágrimas correndo.

A luz vai se apagando, o público começa a aplaudir.

        Tudo escuro. Foco na banheira de Rê  Bordosa. Não vemos ninguém. Uma mão, como se fora um náufrago, sai da banheira e coloca um "radinho de carro" do lado de fora. A mão desaparece novamente e surge com quatro copos usados. Depois, sempre com o mesmo movimento, mostrando apenas o braço e a mão, vai depositando para fora da banheira, os seguintes objetos: garrafa de vodca nacional, maços de cigarros, revistas de homens e mulheres nuas, um cinzeiro cheio de tocos, uma gilete enorme, um canudo de cheirar enorme, um saquinho e um enorme vidro de  aspirina. Por fim uma seringa e uma "lata".

   Finalmente, surge Rê Bordosa, na maior rebordose do mundo. cabeça doendo, falando baixo.

   O próprio som a incomoda.

   - Meus Deus! Meu Deuses! Outra vez. O que foi que aconteceu ontem de noite?

F I M