LOCUTOR - Eis que surge uma alma caridosa.
Chega a alma caridosa, de carro. Um homem.
(ATOR I).
RÊ - Estou em apuros, moço. Você pode me
dar uma carona?
RAPAZ - Craro, Creuza!
LOCUTOR - Enfim, calor humano!
RÊ - Sabe que você é simpático ? O que
você faz da vida?
RAPAZ - Sou piromaníaco!
RÊ - Desculpa, não peguei bem. Você é o
que?
RAPAZ - Sou piromaníaco! Estou prestes a
colocar fogo no meu próprio corpo.
RÊ - Interessante...
LOCUTOR - Ela tentava entabular um papo,
enquanto o carro ia cortando a estrada escura.
RÊ - Seguinte, cara. Esses galões aí no
banco de trás. Estão cheios do que?
RAPAZ - Gasolina. É para botar fogo no
mundo.
RÊ - Interessante. (pega um galão) Enfim
encontrei algo para molhar a goela.
RAPAZ - A mina é fogo! Gente fina!
LOCUTOR - O que a idiota da Rê
Bordosa-sem-autor não havia percebido, era que estava a
bordo de uma verdadeira bomba de quatro rodas, altamente
inflamável..
RAPAZ - (tira um beise do bolso) Dá para
você acender o meu beise?
RÊ - (com o galão, já aberto, já que ela
estava bebendo) É pra já (risca o fósforo)
Grande explosão, escuridão.
Vemos Rê saindo correndo com as costas pegando
fogo.
LOCUTOR - E, de bobeira, foi tudo para os
ares. E para as manchetes dos jornais.
RÊPORTER II (ATOR II) - (no local do acidente)
E, segundo testemunhas, logo após a explosão, uma mulher em
chamas teria saído correndo em direção ignorada. Tulha
Pulha, para a TV Urgente.
LOCUTOR - Sim! Era verdade. Rê
Bordosa-sem-autor havia escapado das chamas daquele
piromaníaco maluco. Mesmo assim continuava sem rumo, uma
personagem sem autor, solta no ar. Andando pelo campo.
RÊ - (andando pelo campo) Ninguém me ama,
ninguém me quer, ninguém me chama de Baudelaire. Sem autor,
é foda! A gente acaba repetindo a mesma piada.
LOCUTOR - Isso, até encontrar a luz na
escuridão. Um convento de freiras!
RÊ chega a porta de uma convento de freiras!
RÊ - Meu Deus! Freiras...
Rê bate na porta e surge uma freira.
FREIRA I (ATOR I) - Oh! Procura ajuda, irmã?
RÊ - Tem banheira aí?
LOCUTOR - Rê Bordosa foi abandonada pelo
autor, mas não por Deus. Sim, por mais baixo que se caia,
jamais se cai dos braços de Deus. Naquela casa santa,
encontrou abrigo e carinho. Em apenas uma semana, já se
sentia totalmente a vontade . Com isso a puta velha se
transformara em Noviça!
FREIRA I- Irmãs, estamos aqui todas reunidas,
para perguntar á nossa querida Noviça Rê Bordosa , o que
está achando do nosso convento?
RÊ - Bem... eu acho... que está faltando
padre!
Entra um padre (ATOR II).
RÊ - Zirmão! Zirmão!
Rê chama o Padre para o lado. A Freira,
horrorizada, sai de cena.
RÊ - E aquela do padre que entrou num bar
e viu dois travestis sentados e perguntou: são irmãs? E uma
delas respondeu: imagina, nem católicas somos!
O Padre cai na risada. Tira garrafinha de
vinho e saem os dois bebendo.
PADRE I - (levanta a saia dela) E essa
cicatriz?
RÊ - (mostrando a perna) Foi um jogador
de rugbi que era uma fera.
PADRE I - E esse machucadinho? (bem na coxa)
RÊ - Isso foi o JUVENAL mesmo...(fala
isso e sente saudades do Juvenal) JUVENAL...
LOCUTOR - Certo dia, na sala de orações,
avistou pela janela o piscar de uma grande cidade.
Provavelmente repleta de grandes prazeres.
RÊ - (olhando pela janela) Não acredito.
A vida mundana.
LOCUTOR - E lá se foi ela de goela seca em
busca de aventuras e de amantes, apesar de ser esposa de
Cristo.
Rê anda pela cidade que é formada pela sombra
de garrafas, seringas, tubos para cheirar, copos, taças,
etc, derrubando tudo, como se estivesse no meio de uma selva
de drogas.
LOCUTOR - De repente, o paraíso surge a sua
frente.
Vê-se a frente de um bar: BLACK BAR.
RÊ - Bar! Um bar! Estou em casa. Alô
papai! Alô, mamãe! A fera do pedaço voltou!
LOCUTOR - Sua chegada foi triunfal, deixando
todos de boca aberta.
RÊ - (sempre de freira) Zirmãos!
Tem um black (ATOR II) lá dentro, além do
barman (ATOR I), igualmente negro.
BLACK - Quem é essa doida?
BARMAN - Uma freira?
BLACK - Tá viajando.
RÊ - ( para o barman) Uma vodca. Dupla,
por favor!
BLACK - E aí, irmã, sabia que Deus é
crioulo?
RÊ - Claro. E toca funk!
BLACK - Yeah!
LOCUTOR - Rê Bordosa sempre teve a maior tesão
por blacks. Por isso não recusou o convite para visitar um
colecionador de discos da Motown.
Entra Rê com os dois no apê.
BLACK - Tonhão, essa mina ai tá no papo.
BARMAN - Yeah! Yeah!
BLACK - Mas vamos de leve que ela é meio
religiosa.
Rê está entornando uma garrafa de vodca goela
abaixo.
RÊ - Tem fogo ai, negão?
Negão acende um beise para ela.
LOCUTOR - Em pouco tempo já era dona do
pedaço, ganhando a simpatia da negada.
BLACK - Que tá achando da branquela?
BARMAN - Essa mina é lesgal! Parece até
homem.
BLACK - Tá um puta calor. Vamos tirar este
hábito...
BARMAN - Vamos tirar esse hábito... Vamos ver
esse corpinho...(tiram o hábito dela) Epa! Mas ela é a...
BLACK AND BARMAN - Mas ela é a Rê Bordosa!!!
Grande farra.
LOCUTOR - Baseados acesos, funk rolando,
cheiro de sexo no ar... Nada mais propício para uma batida
POLÍCIA. Flagrante na certa.
Estão todos dançando, e cantando, batem na
porta.
DELEGADO (OFF) - Abram, é a POLÍCIA. Cadê as
coisas?
BLACK I - Que coisas, doutor?
Rê foge pela janela.
LOCUTOR - Rê não marcou touca. Saltou pela
janela no momento certo.
Vemos agora Rê numa corda bamba nos ares de
São Paulo. Ainda ouvimos o papo do delegado e dos Black, em
off.
DELEGADO- Então, o que é isso dentro da lata?
BLACK I - Erva mate, doutor.
LOCUTOR - No momento certo, porém em lugar
errado. Rê Bordosa se viu pendurada, sobre a cidade, num fio
de alta tensão.
RÊ - Azar! Perdi os crioulos. Tava quase
traçando os dois. Meu Deus, eu aqui dependurada, sem um
autor.
LOCUTOR - Mas ela não estava só.
Vem vindo pelo outro lado do fio, um homem nu
(ATOR II).
RÊ - Mas quem é você?
HOMEM - Ora, sou um merda qualquer!
RÊ - Que bom te encontrar. Estava louca
para conversar. Nesse mundo louco, ninguém mais quer levar
papo.
HOMEM - Podicre. Nosso encontro está sendo
muito agradável.
LOCUTOR - A conversa caminhava bem até que...
RÊ - A corda está tremendo... o que será?
HOMEM - Sei lá.
É que pinta o outro homem (ATOR I), na corda
bamba.
RÊ - Ué, quem é esse cara?
HOMEM II- Ah, eu sou um pusta babaca e não sei
onde enfiar tanta imbecilidade.
LOCUTOR - O cara, além de babaca, era gordo
pra cacete.
Arrebenta o fio.
LOCUTOR - Rê Bordosa foi caindo, caindo,
caindo, até chegar ao solo, estatelando-se no asfalto.
Ela fica lá, caidona, e vão chegando os Vírus
da Destruição. (ver desenho do Angeli)
LOCUTOR - No entanto, a velha Rê tinha sete
vidas. Aos poucos foi acordando e percebendo uma multidão de
seres estranhos a sua volta. Todos curiosos.
VIRUS I(ATOR I) - Ela está respirando.
VIRUS II (ATOR II) - Tá viva.
LOCUTOR - Ela ainda tentou pedir ajuda.
RÊ - Help me, please!
OS VIRUS- Se procuras a salvação, baby,
batestes em porta errada. Somos o final do milênio Yeah
Somos o Vírus da Destruição.
LOCUTOR - Assustada com os terríveis vírus do
mundo moderno, Rê fugiu em busca de proteção.
RÊ - (correndo com os vírus atrás)
Socorro! Help me!
LOCUTOR - Eis que surge um cidadão.
RÊ - Moço! Me ajuda! Me ajuda!
Sao dois homens da TFP com bandeira e tudo
(ATOR I e ATOR II).
TFP - Falou comigo?
LOCUTOR - A velha junkie podia ser resistente,
mas não tinha lá muita sorte. Escapou das pestes mundanas e
caiu nas garras da direita religiosa.
TFP - Vade retro, satanás!
LOCUTOR - Encurralada, tentou abrigar-se em
qualquer lugar.
TFP - Sua destruição será pelo fogo,
mundana!
RÊ - Calma, não se excite!
Rê empurra uma porta e - milagre - cai no bar
do JUVENAL.
Como anda o bar? JUVENAL esta no seu lugar.
Tem uma foto de Rê Bordosa em seu lugar de destaque. JUVENAL
está triste. Todos os personagens do Angeli, em bonecos,
estão lá, sentados no bar, bebendo: Meia Oito, Wodstock, Os
Skrotinhos, Walter Ego, Rita e Stella, Bob Cuspe, Bibelô,
Rikota, Nanico e quem mais tiver. Bar cheio. Ela entra.
Todos estão olhando para ela, espantados. Bocas abertas.
JUVENAL treme todo. Não segura as lágrimas que rolam.
RÊ - Zirmãos! O de sempre, JUVENAL.
JUVENAL - Rê, Rê, Rê, Bordosa!
RÊ - Uma dose dupla de vodca, com um
pouco de rum, duas pitadinhas de martini seco, depois
algumas gotas de Fogo Paulista.
JUVENAL, no auge da sua felicidade, preparando
os drinks. Rê dá um gole que leva todo o copo.
RÊ - Outro JUVENAL. Nao agüentava mais
vinho de missa. Doce pra caralho.
LOCUTOR - Enfim, a Rê Bordosa pode esticar as
pernas e relaxar.
A sós, com JUVENAL.
JUVENAL - Saudades, Rê. Pensava que você tinha
ido dessa pra pior.
RÊ - Pra pior é difícil, JUVENAL. Pra
pior tá difícil.
JUVENAL - Depois que apareceram autores
matando personagens pode-se esperar tudo do mundo.
RÊ - O viado do Autor não tem aparecido
aqui não, né?
JUVENAL - Sumido.
RÊ - Nem aquele baixinho que anda com
ele? O Toninho Mendes?
JUVENAL - Também não.
RÊ - Nem o Prata, o Lage...
JUVENAL - Nada. Fica sossegada.
RÊ - Tô bem naquela foto, heim? Tô bem
mesmo.
JUVENAL - A vida tá perigosa para personagens
sem autores que vivem á deriva, entregues á própria sorte.
RÊ - Sem autor é foda!
JUVENAL - Você precisa de proteção, Rê Bordosa.
Só o casamento é a solução.
RÊ - Não, JUVENAL, não diga essa palavra.
Eu tenho problemas.(começa a se coçar)
JUVENAL - Desculpa. Me esqueci que você é
alérgica.
RÊ - Empipoca tudo.
Rê vai se coçando para a platéia.
RÊ - O Policarpo. Não me esqueci não,
viu? (coçando)
Rê volta para JUVENAL. Ficam conversando como
se estivessem em rotação acelerada.
LOCUTOR - JUVENAL provou por a mais b, que a
única solução pros tempos de hoje, era o casamento.
Ação volta ao normal.
RÊ - Mas casar com você, JUVENAL? Quem
vai ser a louca?
JUVENAL - Ora, Rê Bordosa, você sabe que eu
sempre fui caidaço por você. Fuja dos perigos da vida. Case
comigo!
RÊ - Será? Bota uma vodca ai, pra eu
pensar melhor.
JUVENAL - (enche o copo dela) Vai por mim...
RÊ - Então tá. Bota mais uma vodca pra
gente fechar o negócio.
JUVENAL sorri, serve mais uma super dose para
ela.
Entra o ATOR II de Padre.
JUVENAL - Padre, a minha noiva gostaria de se
casar aqui no bar.
PADRE - Aqui?
RÊ - Claro. Na Igreja é a maior
regulagem.
PADRE - Regulagem? O que é regulagem?
RÊ - É quando só o padre bebe e os fieis
ficam olhando...
BOLAR CENICAMENTE O CASAMENTO DA RÊ BORDOSA
COM O JUVENAL