RÊ BORDOSA, A PEÇA

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UMA PERSONAGEM PEDINDO CARONA

LOCUTOR - (no escuro) Quando a notícia da morte de Rê Bordosa se espalhou pelos ares da noite, instalou-se a confusão. Era o caos na madrugada paulistana. Os cães uivavam, as garrafas rolavam pelos balcões, os copos tremeram nas prateleiras e as carreiras melaram nos banheiros. A boemia estava de luto. Perdera sua mais significativa representante. As lágrimas rolavam pela noite paulistana. O Autor/Assassino vagava pelas ruas da megalópole. Ele havia tirado um puta peso das costas.

AUTOR   - (luz nele, saindo, pela platéia) Mó legal! Me sinto aliviado... Dei um fim naquela porralouca da Rê Bordosa. (sai do teatro).

LOCUTOR - No entanto, o que ele não sabia é que a sua personagem maldita HAVIA SIDO SALVA POR UM BANDO DE MENDIGOS!

RÊ      - (ainda no escuro) Céus, onde estou ? Morri? Oh, céus, é o breu do infinito? Isso que é a morte? Essa puta escuridão? Isto que é a morte ou eu entrei numa festa dark? (para a platéia) Pessoal, por favor, quem puder, me ajude. Quem tiver aí um fósforo, um isqueiro, por favor, me acenda. Tou falando sério, porra. A gente não vai ficar nessa escuridão o resto da noite. ( começam a acender pequenos focos de luzes na platéia) Meus Deus, obrigada. Já vejo algum túnel no final da luz. Meu Deuses, estou lançada as trevas. Sou uma personagem sem autor. Quem me ajuda? Por favor, tem algum desenhista na platéia? Sim, alguém que me desenhe uma banheira, um bar, uma garrafa de vodca. Meu Deus, donde vim, para onde vou? Tem algum autor aí? Não precisa ser bom, não. Apenas para desenhar uma rua onde eu possa caminhar. Vocês não percebem? Estou sozinha no mundo. Pelada, suja e desorientada.

Nisso vão chegando dois mendigos, que se acercam dela (ATOR I e II). Ficam admirando ela.

MENDIGO I - Que puta mina lesgal, meu!

MENDIGO II- Dá um agasalho para ela.

RÊ      - Obrigada. Pelo menos mudei de figurino. (olha para o palco.Tênue luz) Vejam, está clareando.

MENDIGO I - Tá maus. Tá maus.

MENDIGO II - Frita uma lingüiça pra ela.

RÊ      - Obrigada, galera. Vocês foram muito legais por me salvar. Já estou melhor. Se vocês não aparecessem eu ia morrer afogada. Além de não saber nadar - e o Autor sabe disso - eu detesto beber água.

MENDIGO I  - Vem com a gente.

RÊ      - Obrigada, galera. Vocês foram muito gente. Vocês foram muito... gente.

Os mendigos vão se afastando, dando tchau para ela. Ela fica sozinha numa estrada deserta.

LOCUTOR - Rê Bordosa, semi-desesperada, foi para uma estrada na tentativa de conseguir uma carona para o bar mais próximo.                                                            

RÊ      - Que merda da vida! Sou uma personagem pedindo carona. Merda de vida! Daria tudo por uma dose de vodca e um entregador de pizza na minha banheira. Se eu tivesse um autor, unzinho que fosse, não precisava nem ser bom, mas se eu tivesse, na próxima cena eu estaria naquele barzinho da Paulista com a Consolação. Mas não: tenho que pedir carona. Que humilhação, meus Deuses!

LOCUTOR - Eis que surge uma alma caridosa.

Chega a alma caridosa, de carro. Um homem. (ATOR I).

RÊ      - Estou em apuros, moço. Você pode me dar uma carona?

RAPAZ   - Craro, Creuza!

LOCUTOR - Enfim, calor humano!

RÊ      - Sabe que você é simpático ? O que você faz da vida?

RAPAZ   - Sou piromaníaco!

RÊ      - Desculpa, não peguei bem. Você é o que?

RAPAZ   - Sou piromaníaco! Estou prestes a colocar fogo no meu próprio corpo.

RÊ      - Interessante...

LOCUTOR - Ela tentava entabular um papo, enquanto o carro ia cortando a estrada escura.

RÊ      - Seguinte, cara. Esses galões aí no banco de trás. Estão cheios do que?

RAPAZ   - Gasolina. É para botar fogo no mundo.

RÊ      - Interessante. (pega um galão) Enfim encontrei algo para molhar a goela.

RAPAZ   - A mina é fogo! Gente fina!

LOCUTOR - O que a idiota da Rê Bordosa-sem-autor não havia percebido, era que estava a bordo de uma verdadeira bomba de quatro rodas, altamente inflamável..    

RAPAZ   - (tira um beise do bolso) Dá para você acender o meu beise?

RÊ      - (com o galão, já aberto, já que ela estava bebendo) É pra já (risca o fósforo)

Grande explosão, escuridão.

Vemos Rê saindo correndo com as costas pegando fogo.                                                                

LOCUTOR - E, de bobeira, foi tudo para os ares. E para as manchetes          dos jornais.

RÊPORTER II (ATOR II) - (no local do acidente) E, segundo testemunhas, logo após a explosão, uma mulher em chamas teria saído correndo em direção ignorada. Tulha Pulha, para a TV Urgente.

LOCUTOR - Sim! Era verdade. Rê Bordosa-sem-autor havia escapado das chamas daquele piromaníaco maluco. Mesmo assim continuava sem rumo, uma personagem sem autor, solta no ar. Andando pelo campo.

RÊ      - (andando pelo campo) Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de Baudelaire. Sem autor, é foda! A gente acaba repetindo a mesma piada.

LOCUTOR - Isso, até encontrar a luz na escuridão. Um convento de freiras!

RÊ chega a porta de uma convento de freiras!

RÊ      - Meu Deus! Freiras...

Rê bate na porta e surge uma freira.

FREIRA I (ATOR I) - Oh! Procura ajuda, irmã?

RÊ      - Tem banheira aí?

LOCUTOR - Rê Bordosa foi abandonada pelo autor, mas não por Deus. Sim, por mais baixo que se caia, jamais se cai dos braços de Deus. Naquela casa santa, encontrou abrigo e carinho. Em apenas uma semana, já se sentia totalmente a vontade . Com isso a puta velha se transformara em Noviça!

FREIRA I- Irmãs, estamos aqui todas reunidas, para perguntar á nossa querida Noviça Rê Bordosa , o que está achando do nosso convento?

RÊ      - Bem... eu acho... que está faltando padre!

Entra um padre (ATOR II).

RÊ      - Zirmão! Zirmão!

Rê chama o Padre para o lado. A Freira, horrorizada, sai de cena.

RÊ      - E aquela do padre que entrou num bar e viu dois travestis sentados e perguntou: são irmãs? E uma delas respondeu: imagina, nem católicas somos!

O Padre cai na risada. Tira garrafinha de vinho e saem os dois bebendo.

PADRE I - (levanta a saia dela) E essa cicatriz?

RÊ      - (mostrando a perna) Foi um jogador de rugbi que era uma fera.

PADRE I -  E  esse machucadinho? (bem na coxa)

RÊ      - Isso foi o JUVENAL mesmo...(fala isso e sente saudades do Juvenal) JUVENAL...

LOCUTOR - Certo dia, na sala de orações, avistou pela janela o piscar de uma grande cidade. Provavelmente repleta de grandes prazeres.

RÊ      -  (olhando pela janela) Não acredito. A vida mundana.

LOCUTOR - E lá se foi ela de goela seca em busca de aventuras e de amantes, apesar de ser esposa de Cristo.

Rê anda pela cidade que é formada pela sombra de garrafas, seringas, tubos para cheirar, copos, taças, etc, derrubando tudo, como se estivesse no meio de uma selva de drogas.

LOCUTOR - De repente, o paraíso surge a sua frente.

Vê-se a frente de um bar: BLACK BAR.

RÊ      - Bar! Um bar! Estou em casa. Alô papai! Alô, mamãe! A fera do pedaço voltou!

LOCUTOR - Sua chegada foi triunfal, deixando todos de boca  aberta.

RÊ      - (sempre de freira) Zirmãos!

Tem um black (ATOR II) lá dentro, além do barman (ATOR I), igualmente negro.

BLACK   - Quem é essa doida?

BARMAN  - Uma freira?

BLACK   - Tá viajando.

RÊ      - ( para o barman) Uma vodca. Dupla, por favor!

BLACK   - E aí, irmã, sabia que Deus é crioulo?

RÊ      - Claro. E toca funk!

BLACK   - Yeah!

LOCUTOR - Rê Bordosa sempre teve a maior tesão por blacks. Por isso não recusou o convite para visitar um colecionador de discos da Motown.

Entra Rê com os dois no apê.

BLACK   - Tonhão, essa mina ai tá no papo.

BARMAN  - Yeah! Yeah!

BLACK   - Mas vamos de leve que ela é meio religiosa.

Rê está entornando uma garrafa de vodca goela abaixo.

RÊ      - Tem fogo ai, negão?

Negão acende um beise para ela.

LOCUTOR - Em pouco tempo já era dona do pedaço, ganhando a simpatia da negada.

BLACK   - Que tá achando da branquela?

BARMAN  - Essa mina é lesgal! Parece até homem.

BLACK   - Tá um puta calor. Vamos tirar este hábito...

BARMAN  - Vamos tirar esse hábito... Vamos ver esse corpinho...(tiram o hábito dela) Epa! Mas ela é a...

BLACK AND BARMAN - Mas ela é a Rê Bordosa!!!

Grande farra.

LOCUTOR - Baseados acesos, funk rolando, cheiro de sexo no ar... Nada mais propício para uma batida POLÍCIA. Flagrante na certa.

Estão todos dançando, e cantando, batem na porta.

DELEGADO (OFF) - Abram, é a POLÍCIA. Cadê as coisas?

BLACK I - Que coisas, doutor?

Rê foge pela janela.

LOCUTOR - Rê não marcou touca. Saltou pela janela no momento certo.

Vemos agora Rê numa corda bamba nos ares de São Paulo. Ainda ouvimos o papo do delegado e dos Black, em off.

DELEGADO- Então, o que é isso dentro da lata?

BLACK I - Erva mate, doutor.

LOCUTOR - No momento certo, porém em lugar errado. Rê Bordosa se viu pendurada, sobre a cidade, num fio de alta tensão.

RÊ      - Azar! Perdi os crioulos. Tava quase traçando os dois. Meu Deus, eu aqui dependurada, sem um autor.

LOCUTOR - Mas ela não estava só.

Vem vindo pelo outro lado do fio, um homem nu (ATOR II).

RÊ      - Mas quem é você? 

HOMEM   - Ora, sou um merda qualquer!

RÊ      - Que bom te encontrar. Estava louca para conversar. Nesse mundo louco, ninguém mais quer levar papo.

HOMEM   - Podicre. Nosso encontro está sendo muito agradável.

LOCUTOR - A conversa caminhava bem até que...

RÊ      - A corda está tremendo... o que será?

HOMEM   - Sei lá.

É que pinta o outro homem (ATOR I), na corda bamba.

RÊ      - Ué, quem é esse cara?

HOMEM II- Ah, eu sou um pusta babaca e não sei onde enfiar tanta imbecilidade.

LOCUTOR - O cara, além de babaca, era gordo pra cacete.

Arrebenta o fio.

LOCUTOR - Rê Bordosa foi caindo, caindo, caindo, até chegar ao solo, estatelando-se no asfalto.

Ela fica lá, caidona, e vão chegando os Vírus da Destruição. (ver desenho do Angeli)

LOCUTOR - No entanto, a velha Rê tinha sete vidas. Aos poucos foi acordando e percebendo uma multidão de seres estranhos a sua volta. Todos curiosos.

VIRUS I(ATOR I) - Ela está respirando.

VIRUS II (ATOR II) - Tá viva.

LOCUTOR - Ela ainda tentou pedir ajuda.

RÊ      - Help me, please!

OS VIRUS- Se procuras a salvação, baby, batestes em porta errada. Somos o final do milênio Yeah Somos o Vírus da Destruição.

LOCUTOR - Assustada com os terríveis vírus do mundo moderno, Rê fugiu em busca de proteção.

RÊ      - (correndo com os vírus atrás) Socorro! Help me!

LOCUTOR - Eis que surge um cidadão.

RÊ      - Moço! Me ajuda! Me ajuda!

Sao dois homens da TFP com bandeira e tudo (ATOR I e ATOR II).

TFP     - Falou comigo?

LOCUTOR - A velha junkie podia ser resistente, mas não tinha lá muita sorte. Escapou das pestes mundanas e caiu nas garras da direita religiosa.

TFP     - Vade retro, satanás!

LOCUTOR - Encurralada, tentou abrigar-se em qualquer lugar.

TFP     - Sua destruição será pelo fogo, mundana!

RÊ      - Calma, não se excite!

Rê empurra uma porta e - milagre - cai no bar do JUVENAL.

Como anda o bar? JUVENAL esta no seu lugar. Tem uma foto de Rê Bordosa em seu lugar de destaque. JUVENAL está triste. Todos os personagens do Angeli, em bonecos, estão lá, sentados no bar, bebendo: Meia Oito, Wodstock, Os Skrotinhos, Walter Ego, Rita e Stella, Bob Cuspe, Bibelô, Rikota, Nanico e quem mais tiver. Bar cheio. Ela entra. Todos estão olhando para ela, espantados. Bocas abertas. JUVENAL treme todo. Não segura as lágrimas que rolam.

RÊ      - Zirmãos! O de sempre, JUVENAL.

JUVENAL - Rê, Rê, Rê, Bordosa!

RÊ      - Uma dose dupla de vodca, com um pouco de rum, duas pitadinhas de martini seco, depois algumas gotas de Fogo Paulista.

JUVENAL, no auge da sua felicidade, preparando os drinks.  Rê dá um gole que leva todo o copo.

RÊ      - Outro JUVENAL. Nao agüentava mais vinho de missa. Doce pra caralho.

LOCUTOR - Enfim, a Rê Bordosa pode esticar as pernas e relaxar.

A sós, com JUVENAL.

JUVENAL - Saudades, Rê. Pensava que você tinha ido dessa pra pior.

RÊ      - Pra pior é difícil, JUVENAL. Pra pior tá difícil.

JUVENAL - Depois que apareceram autores matando personagens pode-se esperar tudo do mundo.

RÊ      - O viado do Autor não tem aparecido aqui não, né?

JUVENAL - Sumido.

RÊ      - Nem aquele baixinho que anda com ele? O Toninho Mendes?

JUVENAL - Também não.

RÊ      - Nem o Prata, o Lage...

JUVENAL - Nada. Fica sossegada.

RÊ      - Tô bem naquela foto, heim? Tô bem mesmo.

JUVENAL - A vida tá perigosa para personagens sem autores que vivem á deriva, entregues á própria sorte.

RÊ      - Sem autor é foda!

JUVENAL - Você precisa de proteção, Rê Bordosa. Só o casamento é a solução.

RÊ      - Não, JUVENAL, não diga essa palavra. Eu tenho problemas.(começa a se coçar)

JUVENAL - Desculpa. Me esqueci que você é alérgica.

RÊ      - Empipoca tudo.

Rê vai se coçando para a platéia.

RÊ      - O Policarpo. Não me esqueci não, viu? (coçando)

Rê volta para JUVENAL. Ficam conversando como se estivessem em rotação acelerada.

LOCUTOR - JUVENAL provou por a mais b, que a única solução pros tempos de hoje, era o casamento.

Ação volta ao normal.

RÊ      - Mas casar com você, JUVENAL? Quem vai ser a louca?

JUVENAL - Ora, Rê Bordosa, você sabe que eu sempre fui caidaço por você. Fuja dos perigos da vida. Case comigo!

RÊ      - Será? Bota uma vodca ai, pra eu pensar melhor.

JUVENAL - (enche o copo dela) Vai por mim...

RÊ      - Então tá. Bota mais uma vodca pra gente fechar o negócio.

JUVENAL sorri, serve mais uma super dose para ela.

Entra o ATOR II de Padre.

JUVENAL - Padre, a minha noiva gostaria de se casar aqui no bar.

PADRE   - Aqui?

RÊ      - Claro. Na Igreja é a maior regulagem.

PADRE   - Regulagem? O que é regulagem?

RÊ      - É quando só o padre bebe e os fieis ficam olhando...

BOLAR CENICAMENTE O CASAMENTO DA RÊ BORDOSA COM O JUVENAL