RÊ BORDOSA, A PEÇA

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PARTE III - RÊ BORDOSA, UMA PERSONAGEM SEM AUTOR

CENA 11 - DE COMO O AUTOR MATOU SUA PERSONAGEM

Luz no proscênio. Uma figura enorme, o Carrasco (ATOR II). O carrasco típico, com o rosto coberto e apenas dois buraquinhos nos olhos. Uma forca numa mão e um machado na outra. Uma figura tétrica.

CARRASCO- Atenção, muita atenção. Um minuto de sua atenção. Preparem seus corações, pois chegou o momento crucial desta peça! Os momentos que se  seguem estarão impregnados do mais puro sadismo e da mais deslavada crueldade. Uma verdadeira sessão de tortura anos 90! Vem aí, senhoras e senhores - e jovens também - vem aí, o assassinato de Rê Bordosa. O assassino? O próprio Autor!

Aponta a banheira de Rê e sai. Luz na banheira de Rê. RÊ está lá.

      - Me Deus! Meus seios estão caindo... Minha coxa está flácida...Eu sou um caco! Minha vida está descendo pelo ralo de água suja. Velha! É isso que eu sou! Velha! É sempre assim: pela manhã começo a reconstruir a minha vida... (fazendo uma pirâmide de copos) Acerto uma coisinha aqui, dou um jeito em outra ali... Mas, quando vai chegando a noite...tudo vai pras picas! (os copos todos caem. disca um número) É da Associação dos Alcoólatras Anônimos? Por favor, vocês aceitam uma alcoólatra famosa?

Surge  Autor de dentro da banheira e desliga o aparelho.

      - (temerosa, mas tentando puxar o saco) Nossa, surpresa... O Autor. Como vai, amor?

AUTOR   - (tira uma calcinha de dentro da sua capa preta) Essa calcinha é sua?

      - (examina) Sim. Onde a encontraste?

AUTOR   -  Estava engasgada na minha garganta. E não é porque eu estou aqui, que você tem que usar os pronomes corretamente. Fica na sua. "Onde a encontraste"? Você  está fugindo do meu controle. Daqui a pouco você vai virar uma garota propaganda. Vai vender tudo. Uma Xuxa junkie! Uma Mônica dos bêbados e renegados.

      - Não me chama de Mônica! Quer me irritar é me chamar de garota propaganda!

AUTOR   - Você não é a rainha dos baixinhos. Você não vai virar garota propaganda!

      - Calma, bacana...

O Autor tira a capa. Está de cueca por baixo.

      - Mais o que é isso? Que fazes tu?

AUTOR   - Também quero desfrutar dessa zona toda. Afinal, eu sou o Autor!

      - Vai ser uma noite daquelas porque, como é o Autor, eu vou ter que fazer tudo que ele quiser. Vai ser demais. Vou usar as mãos, os pés, os cotovelos, as nádegas e se não engasgar, vou usar a boca também.

AUTOR   - (coloca a capa novamente) Que saber de uma coisa? Estou de saco cheio! Você é uma personagem que me encheu profundamente o saco. Cansei de você! Você era para ser o meu reflexo. Te criei para exorcizar um ladinho meu. Mas você fugiu da minha prancheta. Você começou a pular de um quadrinho para outro, antes que eu raciocinasse. Você começou a enxergar, Rê Bordosa. O que eu quero é matar o "eu" que eu tenho em você. Por isso, (falando como um roqueiro) I want kill you, baby.

      - Quanta besteira, meu Deus! Você está tenso... Com os nervos duros... (começa fazer massagem nos dedos do pé dele) Tá precisando relaxar...

Vai tirando a capa dele e começa a fazer massagem nas costas dele.

AUTOR   - Os meus outros personagem eu domino, tenho eles ali na mão firme, não saem correndo das  páginas... Aí, um pouco para a direita. Assim . Agora mais pra cima. Pra cima, eu disse. Aí fica aí.

      - (para a platéia) Isso é o que se chama uma personagem massageando o ego do Autor!..

AUTOR   - (se levantando) É para isso que eu tenho outro personagem, o Walter Ego. (coloca a capa novamente)

Autor sai da banheira.

AUTOR   - Pois então está tudo muito bem. Agora que eu estou mais relaxado, pode sair da banheira. Você  nunca mais vai entrar nessa banheira. A não ser, morta!

Rê sai da banheira como se fosse mesmo pela última vez. Fica olhando para a banheira.

      - Quais são os seus planos, hein? (O Autor pega uma corda) Já vi tudo. O seu lance é perversão, não é? Um autor corrosivo, underground e perverso. Acho que você que é um personagem. Meio defasado e brocha, mas é um personagem.

O Autor amarra as mãos dela e a dependura no teto. Se não for muito complicado, ele poderia amarrar fios nas mãos e nos pés dela e a fazer de sua marionete.

AUTOR   - Agora você não foge mais de mim. Faço tudo o que eu quiser com você.

      - (que está de calcinha e sutien) Então faz, então faz, gostosão! Use e abuse! Faço tudo o que você quiser.

AUTOR   - Deixa eu ver. Deixa eu ver... Dança um Mambo!

começa a dançar um Mambo sob o controle do Autor.

AUTOR   - Seios flácidos... Estrias generalizadas... Gorduras localizadas...Tsk...Tsk... Rêalmente eu não sei como é que eu fui deixar você chegar numa situação dessa. Não sei se te afogo na banheira ou se te faço uma lipoaspiração.

      - Pode me dar um cigarro, gostosão?

AUTOR   - Não adianta me agradar, sua puta velha!

Ele pega um cigarro e enfia na xota dela.

      - (dá um urro) Mas é sério mesmo?

AUTOR   - Seriíssimo!

      - Com o autor em crise não se pode brincar. Não me queime, por favor! Pense bem, cara, eu ainda nosso lhe render tubos de dinheiro. Essa  peça pode virar filme, disco, vídeo, toalhinhas pras crianças, chaveirinho, o escambau. Podemos chegar a Hollywood! Você não conhece o Babenco? Ele tem os macetes....

Autor enfia novamente o cigarro nela.

AUTOR   - Aqui nesse caderninho está anotado tudo que você bebeu nesses anos todos: 7.869 litros de cachaça, 65.879 doses de vodca, 12.568 cálices de licor de anis, 80.190 doses de uísque bunda, 450 jurubebas, 310 vinhos nacionais e 5 estrangeiros, 789 caixas de conhaque, 78.546 latas de  cerveja nacionais e 16 holandesas, 1.567 copos de caipirinhas, 12.893 baseados, sendo 460 da lata, 68 ácidos nacionais de qualidade duvidosa, 128.765 metros de cocaína malhada.

      - Acabou? Você se esqueceu de cinco vidros de perfume, um galão de acetona, um de querosene e mais de 200 cogumelos. Mandrix pra caralho e 3 garrafas de álcool 90.

AUTOR   - Você não tem o que reclamar. Teve uma vida agitadissíma. Posso citar aquela vez que você comeu um time de futebol inteiro.

      - (lembrando) Quinze atletas.

AUTOR   - Quinze? Um time tem só onze.

      - E os reservas? Rêserva também é gente.

AUTOR   - Chega de nostalgia, Rê Bordosa! Chegou a hora! Vamos passear.

O Autor coloca ela nos ombros e sai andando pela rua.

      - Se você me levar no zoológico eu te mato.

AUTOR   - Por que? Não quer aparecer pelada na frente dos macacos?

      - Não. É que numa hora dessas, lá praqueles lados, vai ser difícil descolar um bar.

AUTOR   - Sinto muito, Rê Bordosa, mas chegou o momento da decisão. Vou atirar o seu corpo nas águas do Tietê.

Chegam na ponte.

      - Não seja ridículo, cara. Isso tá parecendo filminho da sessão da tarde. Pensei que você fosse mais criativo . Não seja burro. Você tem um público a zelar. Não seja radical. Vamos conversar.

AUTOR   - Não adianta, Rê Bordosa! Não vou protelar mais! Rêsolvi te matar, já dei entrevista para a Veja e para a Ilustrada. Não tem jeito.

      - Dou tudo o que você quiser.

AUTOR   - Não adianta.

      - Virginiano é foda! É igual mula. Quando empaca numa idéia, fudeu!

AUTOR   - Adeus, Rê Bordosa!

      - Não tenho direito a uma última frase?

AUTOR   - Lá vem besteira.

      - Saio da historinha para entrar na vidinha!

AUTOR   - Ah, é? Então escuta essa: dez Rê Bordosas eu tivesse, dez Rê Bordosas eu mataria!

Jogo ela na água. Pode ser na platéia. Vemos água pulando para cima.

AUTOR   - Tchau, puta velha!