RÊ
- Quanta besteira, meu Deus! Você está tenso... Com os
nervos duros... (começa fazer massagem nos dedos do pé dele)
Tá precisando relaxar...
Vai tirando a capa dele e começa a fazer
massagem nas costas dele.
AUTOR - Os meus outros personagem eu
domino, tenho eles ali na mão firme, não saem correndo das
páginas... Aí, um pouco para a direita. Assim . Agora mais
pra cima. Pra cima, eu disse. Aí fica aí.
RÊ
- (para a platéia) Isso é o que se chama uma personagem
massageando o ego do Autor!..
AUTOR - (se levantando) É para isso que eu
tenho outro personagem, o Walter Ego. (coloca a capa
novamente)
Autor sai da banheira.
AUTOR - Pois então está tudo muito bem.
Agora que eu estou mais relaxado, pode sair da banheira.
Você nunca mais vai entrar nessa banheira. A não ser,
morta!
Rê sai da banheira como se fosse mesmo pela
última vez. Fica olhando para a banheira.
RÊ
- Quais são os seus planos, hein? (O Autor pega uma corda)
Já vi tudo. O seu lance é perversão, não é? Um autor
corrosivo, underground e perverso. Acho que você que é um
personagem. Meio defasado e brocha, mas é um personagem.
O Autor amarra as mãos dela e a dependura no
teto. Se não for muito complicado, ele poderia amarrar fios
nas mãos e nos pés dela e a fazer de sua marionete.
AUTOR - Agora você não foge mais de mim.
Faço tudo o que eu quiser com você.
RÊ
- (que está de calcinha e sutien) Então faz, então faz,
gostosão! Use e abuse! Faço tudo o que você quiser.
AUTOR - Deixa eu ver. Deixa eu ver...
Dança um Mambo!
RÊ
começa a dançar um Mambo sob o controle do Autor.
AUTOR - Seios flácidos... Estrias
generalizadas... Gorduras localizadas...Tsk...Tsk...
Rêalmente eu não sei como é que eu fui deixar você chegar
numa situação dessa. Não sei se te afogo na banheira ou se
te faço uma lipoaspiração.
RÊ
- Pode me dar um cigarro, gostosão?
AUTOR - Não adianta me agradar, sua puta
velha!
Ele pega um cigarro e enfia na xota dela.
RÊ
- (dá um urro) Mas é sério mesmo?
AUTOR - Seriíssimo!
RÊ
- Com o autor em crise não se pode brincar. Não me queime,
por favor! Pense bem, cara, eu ainda nosso lhe render tubos
de dinheiro. Essa peça pode virar filme, disco, vídeo,
toalhinhas pras crianças, chaveirinho, o escambau. Podemos
chegar a Hollywood! Você não conhece o Babenco? Ele tem os
macetes....
Autor enfia novamente o cigarro nela.
AUTOR - Aqui nesse caderninho está anotado
tudo que você bebeu nesses anos todos: 7.869 litros de
cachaça, 65.879 doses de vodca, 12.568 cálices de licor de
anis, 80.190 doses de uísque bunda, 450 jurubebas, 310
vinhos nacionais e 5 estrangeiros, 789 caixas de conhaque,
78.546 latas de cerveja nacionais e 16 holandesas, 1.567
copos de caipirinhas, 12.893 baseados, sendo 460 da lata, 68
ácidos nacionais de qualidade duvidosa, 128.765 metros de
cocaína malhada.
RÊ
- Acabou? Você se esqueceu de cinco vidros de perfume, um
galão de acetona, um de querosene e mais de 200 cogumelos.
Mandrix pra caralho e 3 garrafas de álcool 90.
AUTOR - Você não tem o que reclamar. Teve
uma vida agitadissíma. Posso citar aquela vez que você comeu
um time de futebol inteiro.
RÊ
- (lembrando) Quinze atletas.
AUTOR - Quinze? Um time tem só onze.
RÊ
- E os reservas? Rêserva também é gente.
AUTOR - Chega de nostalgia, Rê Bordosa!
Chegou a hora! Vamos passear.
O Autor coloca ela nos ombros e sai andando
pela rua.
RÊ
- Se você me levar no zoológico eu te mato.
AUTOR - Por que? Não quer aparecer pelada
na frente dos macacos?
RÊ
- Não. É que numa hora dessas, lá praqueles lados, vai ser
difícil descolar um bar.
AUTOR - Sinto muito, Rê Bordosa, mas
chegou o momento da decisão. Vou atirar o seu corpo nas
águas do Tietê.
Chegam na ponte.
RÊ
- Não seja ridículo, cara. Isso tá parecendo filminho da
sessão da tarde. Pensei que você fosse mais criativo . Não
seja burro. Você tem um público a zelar. Não seja radical.
Vamos conversar.
AUTOR - Não adianta, Rê Bordosa! Não vou
protelar mais! Rêsolvi te matar, já dei entrevista para a
Veja e para a Ilustrada. Não tem jeito.
RÊ
- Dou tudo o que você quiser.
AUTOR - Não adianta.
RÊ
- Virginiano é foda! É igual mula. Quando empaca numa idéia,
fudeu!
AUTOR - Adeus, Rê Bordosa!
RÊ
- Não tenho direito a uma última frase?
AUTOR - Lá vem besteira.
RÊ
- Saio da historinha para entrar na vidinha!
AUTOR - Ah, é? Então escuta essa: dez Rê
Bordosas eu tivesse, dez Rê Bordosas eu mataria!
Jogo ela na água. Pode ser na platéia. Vemos
água pulando para cima.
AUTOR - Tchau, puta velha!