RÊ BORDOSA, A PEÇA

TEXTO COMPLETO

Cenas: 1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   11   12   13

 


UM PERSONAGEM INOPORTUNO

Quando volta a luz na banheira de Rê Bordosa, ouve-se música de cítara. Apenas o foco na banheira. Vai surgindo das profundezas da banheira, a figura de Rhalah Rikota. Cheiro de incenso invade a platéia.

RIKOTA  - Se o espectador tem andado meio brocha, não querendo nada com a vida, sem horizontes e, falando português bem claro, sentindo-se uma verdadeira bosta n'agua, não se desespere. Você apenas precisa de uma palavra de fé e esperança. Então, deixe-se levar pelo som da cítara, pelo doce perfume do incenso e vá soltando as energias. Neste momento divino, você entrará em contato ultratranscendentalérrimo com Rhalak Rikota!

JUVENAL - Depois de Rahalah Rikota, eu me transformei num puta babaca legal.

      - Eu tinha medo do medo, mas Rhalah me fez enxergar o mundo de outra maneira. Hoje eu coloco até ovo de pé... E com a boca. (vesga).

RIKOTA  - Mentalização, energias positivas, transmutações, gatos por lebre, biodança, meditação transcendental, cheques voadores, efeito FHC, passaportes, para-normalidades e salgadinhos em geral. Os homens levantam os braços, as mulheres levantem as saias. (para JUVENAL) Em Rhalah você encontrará ajuda. Rhalah tem a luz, Rhalah tem esperança, Rhalah tem amor, Rhalah tem saber...

JUVENAL - (cochicha no ouvido dele)

RIKOTA  - Não, Ministério da Fazenda Rhalal não pega. Por enquanto!

      - Oh, grande Rhalah, como eu faço para ser uma pessoa leve como Rhalah?

RHALAH  - (dá um cartãozinho para ela) Toma isso, irmã.

      - É algum ensinamento, Mestre?

RHALAH  - Não. É o endereço da academia de ginástica do meu tio. Levante os braços assim.

      - Assim?

RIKOTA  - Agora libere os quadris. Assim, remexendo...

      - Assim?

RIKOTA  - Enquanto isso Rhalah Rikota vai puxando um sambinha. (começa a cantar Falsa Baiana, enquanto RÊ fica dançando para deleite dele)

Rikota sai de cena dançando.

 

Açao vai para o bar.

Rê entre em cena, cheirada, excitada, elétrica.

      - Vodca, vodca, vodca! Sem gelo, sem gelo, sem gelo!

AUTOR   - (que estava colocando Bibelô sentado no bar, olhando para o estado dela) Meu saco, lá vem aquela chata babar no meu ouvido de novo. Meu Deus, o que foi que eu criei?

      -  (Percebendo ele) Sujou...

AUTOR   - (para a platéia) Vou comer a minha própria criação!

      - (para a plateia) Vou fuder com o autor!

AUTOR   - Inacreditável (levantando os óculos de Rê), assustador, surpreendente, dose cavalar, avassalador. Seus olhos estão cheios de veiazinhas vermelhas, algumas roxas.

      - O que, cara?

AUTOR   - Seus olhos. Sempre te desenhei de óculos.

      - Delirando, bacana?

AUTOR   - Delirando com os seus olhos. Eles tem poesia.

      - Que tipo de poesia? Daquelas melosas ou bitiniques?

AUTOR   - Biti, é claro!

      - Mas biti, como? Biti na estética ou no conteúdo?

AUTOR   - No conteúdo.

      - Conteúdo político ou erótico?

AUTOR   - Mais que saco! Conteúdo erótico, porra!

      - Erótico arte ou erótico pornô?

AUTOR   - Pornô, caceta! Pornozão! Pornozão!

      - Você quer dizer pornô explícito ou apenas insinuado?

AUTOR   - Chega! Sua imbecil! Você conseguiu! Conseguiu me fazer brochar. Eu brochei, ouviu? Eu brochei!

      - Brochou com x ou com ch?

O Autor vai para cima dela.

AUTOR   - Eu vou te matar! Eu vou te matar! Te apagar! Derrubar um litro de nanquim em cima de você!

      - Pode ser na veia? (esticando o braço)

JUVENAL vai socorrer. O Autor já está com as mãos no pescoço dela.

JUVENAL salva Rê.

AUTOR   - JUVENAL, essa personagem está fugindo do meu controle, está virando um monstro. A personagem acaba de fazer o autor brochar!

JUVENAL - Mas foi uma broxada física ou psicológica?