Rê vira o enorme vidro de pílulas goela abaixo, com
alguma dificuldade (ou toda a dificuldade), tenta se levantar da
banheira, mas não consegue, ainda.
RÊ - Meus Deus! Estou uma pessoa imprestável. Estou cada
vez mais pro fundo. Afundando... afundando.
Da coxia, jogam uma bóia de salva-vidas de navio.
RÊ - Meus Deus!, só pode ser gozação.
Apoiada na bóia, consegue se levantar e vai para o
espelho.
RÊ - (se olhando, forçando os olhos para abrir, dando um
trato no cabelo) Tô com cara de cinzeiro sujo. Tenho que saltar fora
dessa perdição rapidinho.. É isso aí. Tenho que ser como toda a mulher
tem que ser. (fica se olhando) E como é que toda mulher tem que ser?
(voltando para a banheira, como se voltasse para a própria cama) Eu não
passo de uma barata, que não há inseticida que mate!
Deita-se na banheira e disca.
RÊ - Doutora? Aqui é a Rê Bordosa. Sabe o que é,
doutora? Eu sou infeliz. Isso, uma infeliz. Sou um poço de amargura.
Bebo feito uma vaca, depois acabo dormindo com o primeiro idiota que
aparece. As vezes pinta um imbecil, mas na maioria das vezes é um idiota
mesmo. Um horror! Quando fico louca, então.... Falo pelos joelhos, pelos
joanetes, pelos cotovelos tudo o que não devo falar. Sem intenção de
magoar ninguém, mas... contundindo!. Não sei se é falta de homem...ou é
a loucura de final de século. Não sei mesmo. Só sei que depois de tudo
isso, afogo meu sentimento de culpa nessa maldita banheira. Diga
doutora, pode dizer, estou preparada. Isso é normal?
VOZ GRAVADA DE MULHER - (som que ecoa por toda a sala,
atormentando o ouvido sensivel de Rê Bordosa) NORMALÍSSIMO, MINHA FILHA!
NORMALÍSSIMO!
Rê, até então estava sem os óculos que sempre usa.
Acende um cigarro, pega uma Coca-Cola e bebe duma vez só. Coloca o
oclinho e vai para o espelho.
RÊ - Meu Deus! Estou igual a Janis Joplin ã beira do
suicídio. Pareço uma titica de galinha. Mas eu vou dar um basta nisso
tudo! Vou ao cabeleireiro, tomar umas vitaminas (mata a Coca), botar uma
roupinha diferente. Depois... depois vou cair na gandaia outra vez.