RÊ BORDOSA, A PEÇA

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CENA 1 - O DESPERTAR DA PERSONAGEM

Tudo escuro. Foco na banheira de Rê  Bordosa. Não vemos ninguém. Uma mão, como se fora um naufrago, sai da banheira e coloca um "radinho de carro" do lado de fora. A mão desaparece novamente e surge com quatro copos usados. Depois, sempre com o mesmo movimento, mostrando apenas o braço e a mão, vai depositando para fora da banheira,os seguintes objetos: garrafa de vodca nacional, maços de cigarros, revistas de homens e mulheres nuas, um cinzeiro cheio de tocos, uma gilete enorme, um canudo de cheirar enorme, um saquinho e um enorme vidro de  aspirina. Por fim, uma seringa.

Finalmente, surge Rê Bordosa, na maior rebordose do mundo. cabeça doendo, falando baixo.

O próprio som a incomoda.

- Meu Deus! Meus Deuses! Outra vez. O que foi que aconteceu ontem de noite? Não tô lembrando de nada. Nada vezes nada. Só lembro até a hora que... Meu Deuses! Não sei se fiz um strip tease no bar ou se dancei um rock na Paulista. Ou será que eu fiz as duas coisas?

Rê pega o telefone que acaba de tirar de dentro da banheira e disca.

- Alô? É do Centro de Valorização da Vida? O já famoso CVV? Por favor, minha senhora, vocês tem aí um Engov?

Rê desliga o telefone.

- Comigo esse papo de frutas, sopinhas, vitaminas para curar ressaca não cola, não. Pra mim, bastam algumas aspirinas.

Rê vira o enorme vidro de pílulas goela abaixo, com alguma dificuldade (ou toda a dificuldade), tenta se levantar da banheira, mas não consegue, ainda.

- Meus Deus! Estou uma pessoa imprestável. Estou cada vez mais pro fundo. Afundando... afundando.

Da coxia, jogam uma bóia de salva-vidas de navio.

- Meus Deus!, só pode ser gozação.

Apoiada na bóia, consegue se levantar e vai para o espelho.

- (se olhando, forçando os olhos para abrir, dando um trato no cabelo) Tô com cara de cinzeiro sujo. Tenho que saltar fora dessa perdição rapidinho.. É isso aí. Tenho que ser como toda a mulher tem que ser. (fica se olhando) E como é que toda mulher tem que ser? (voltando para a banheira, como se voltasse para a própria cama) Eu não passo de uma barata, que não  há inseticida que mate!

Deita-se na banheira e disca.

- Doutora? Aqui é a Rê Bordosa. Sabe o que é, doutora? Eu sou infeliz. Isso, uma infeliz. Sou um poço de amargura. Bebo feito uma vaca, depois acabo dormindo com o primeiro idiota que aparece. As vezes pinta um imbecil, mas na maioria das vezes é um idiota mesmo. Um horror! Quando fico louca, então.... Falo pelos joelhos, pelos joanetes, pelos cotovelos tudo o que não devo falar. Sem intenção de magoar ninguém, mas... contundindo!. Não sei se é falta de homem...ou é a loucura de final de século. Não sei mesmo. Só sei que depois de tudo isso, afogo meu sentimento de culpa nessa maldita banheira. Diga doutora, pode dizer, estou preparada. Isso é normal?

VOZ GRAVADA DE MULHER - (som que ecoa por toda a sala, atormentando o ouvido sensivel de Rê Bordosa) NORMALÍSSIMO, MINHA FILHA! NORMALÍSSIMO!

Rê, até então estava sem os óculos que sempre usa. Acende um cigarro, pega uma Coca-Cola e bebe duma vez só. Coloca o oclinho e vai para o espelho.

- Meu Deus! Estou igual a Janis Joplin ã beira do suicídio. Pareço uma titica de galinha. Mas eu vou dar um basta nisso tudo! Vou ao cabeleireiro, tomar umas vitaminas (mata a Coca), botar uma roupinha diferente. Depois... depois vou cair na gandaia outra vez.