Uma cômica
exaltação do Purgatório
Jornal da Tarde, 18/05/84
O céu não é
mais o melhor endereço que qualquer um pode aspirar após a morte. Pelo menos para o
dramaturgo Mario Prata, autor de Purgatório, que estréia hoje, inaugurando a sala Rubens
Sverner do Teatro Cultura Artística (rua Nestor Pestana, 196, tel. 258-3616). Para ele,
que se baseou na Divina Comédia, de Dante Alighieri, o endereço do prazer sem culpa é o
purgatório, revivido nesta comédia que o diretor Roberto Lage define como "de
linguagem sintética, muito próxima das histórias em quadrinhos".
Prata, que se lançou como autor em 1970 com o grande êxito
Cordão Umbilical, em Purgatório atualiza personagens e situações da Divina Comédia.
Dante (Odilon Wagner), o personagem principal é um bancário, casado com uma mulher comum
(Ileana Kwasinski) e amigo inseparável do delicado Virgílio (Miguel Magno). Quando a
peça se inicia, ele acaba de receber uma carta de antiga namorada, Beatriz (Marina
Helou), comunicando que deixa Paris para retornar ao Brasil. Logo depois, fica-se sabendo
que seu avião explodiu, mas Dante recebe outra mensagem da ex-amada, diretamente do
purgatório. A partir daí, aos poucos será convencido por Beatriz de que o lugar onde
ela está é realmente o melhor. "Porque o céu é extremamente chato, com muita
nuvem, muito anjinho tocando trombeta, o Pequeno Príncipe, a freirinha que cantava
"Dominique" e incontáveis japoneses, que levam a vida muito seriamente."
O autor explica que seu purgatório "é o lugar para
onde vão todos os que viveram com prazer aqui na Terra, de James Dean a Teotônio Vilela,
de Leila Diniz a Che Guevara, de Tiradentes a Elis Regina e Marilyn Monroe. No purgatório
pode-se cometer todos os pecados do inferno, com a graça divina. A diferença é que no
inferno esses prazeres trazem culpa, e além disso todo mundo tem de trabalhar no dia
seguinte". Dante, para juntar-se a Beatriz, terá de morrer. Nem puro demais, senão
acaba no céu, e nem pecador em excesso, para evitar o inferno.
Purgatório foi escrita ano passado, após Salto Alto
(encenado com sucesso por um grupo de Londrina, que trouxe a montagem a São Paulo) e
Besame Mucho, que permaneceu um ano em cartaz em São Paulo e cuja montagem carioca já
ultrapassou as 200 representações. Segundo o autor, é a primeira parte de uma trilogia
do prazer, já que as peças anteriores (inclusive Dona Beja, encenada em Belo Horizonte)
compunham a trilogia do deboche. "O que eu quero levantar discutir com este novo
texto é o que significa o pecado hoje, o que é prazer. Até onde podemos ir?"
Mário Prata já tem outra peça pronta. Conversando Sobre Sexo, escrita em parceria com a
sexóloga Marta Suplicy, a partir de cartas de espectadores que ela recebe em seu programa
de televisão, com estréia marcada para setembro, no Rio. E há ainda uma terceira que
deverá estar em cartaz em São Paulo na mesma época
Ainda sem título o autor se refere ao projeto
apenas como "a nona", porque tem oito peças até agora , está sendo
feita de encomenda para o grupo Pessoal do Vítor, que no momento mantém em cartaz a
premiada montagem de Feliz Ano Velho.
Purgatório é um espetáculo de 95 minutos, com 53
cenas, 80 interferências sonoras e mais de cem movimentos de luz. Conseguir uma absoluta
precisão na distribuição e uso desses elementos é o maior problema do espetáculo, de
acordo com o diretor Roberto Lage, que havia dirigido antes também a montagem paulistana
de Besame Mucho. "O resto é fácil porque o teatro de Mário Prata é muito
contemporâneo, muito afinado com os dias de hoje com a retomada do prazer e da
consciência. Ele conseguiu de forma clara dar um salto sobre o ranço, sobre a amargura
do fechamento".
Esta produção orçada em 40 milhões, a primeira da
empresa CAVComunicação Áudio Visual , coloca em cena oito atores que fazem
12 personagens: Odilon Wagner, Ileana Kwasinski, Marina Helou, Miguel Magno, Mauro de
Almeida, Tânia Bondesan, Roney Facchini e a paranaense (que fizera Salto Alto em
Londrina) Ana Lúcia Barroso, em seu primeiro trabalho profissional. Cenografia e
figurinos de José de Anchieta e trilha sonora de Tunica.