PURGATÓRIO: UMA DIVINA COMÉDIA

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CRÍTICA

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A elegia do prazer, no "Purgatório " de Prata
Folha de S. Paulo, 18/05/84

O que há de comum entre Dante Alighieri e Mario Prata? Ambos escreveram uma "divina comédia". Só que a de Prata, "O Purgatório" (que estréia hoje na sala Rubens Sverner do Teatro Cultura Artística, às 21 horas) é menos pretensiosa e esta isenta de sentimentos de culpa. Trata-se, afinal, de uma peca que inaugura o que autor define como a sua "trilogia do prazer", após ter concluído a sua "trilogia do deboche" com "Bésame Mucho" (as outras duas são "Dona Beja" e "Salto Alto"), ainda em cartaz no Rio de Janeiro e apresentada recentemente na Primeira Mostra Internacional de Teatro de Montevidéu, representando o Brasil.

"O Purgatório" de Prata tem uma estrutura simples mas produção bem cuidada, da C.A.V.— Comunicação Áudio Visual S.A., que realizou anteriormente, "Assim ou Assado" de Sylvio Haas, peça feita sob encomenda da ` Johnson para lançar um produto novo no mercado.

Como em "A Divina Comédia", de Dante, Prata visita os confins do inferno, o purgatório e o céu, guiado pelo poeta Virgílio, à procura de sua amada Beatriz. Com algumas diferenças: Dante (Odilon Wagner) é um bancário com um casamento medíocre nas costas, amigo do frágil Virgílio (Miguel Magno). Dante, certo dia, recebe a notícia da volta de sua antiga namorada ao Brasil, a exilada Beatriz (Marina Helou, bailarina que fez sua estréia em teatro como a governanta` de "As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant", no Rio). Triste ironia: o avião que traz Beatriz cai e a oportunidade de Dante livrar-se do inferno conjugal parece irremediavelmente perdida. Irremediavelmente? Nem tanto.

Como o Orfeu de Cocteau, que recebia mensagens do anjo da morte pelo rádio, Dante passa a receber mensagens do além (mais especificamente, do purgatório) de Beatriz, indicando que ela se encontra num "lugar maravilhoso". E é para lá que se encaminha a comédia, o purgatório , onde estão todos os que viveram com prazer aqui na Terra, de Marilyn Monroe a James Dean. "Desejava escrever uma peça que falasse do prazer e da culpa e me pareceu bastante apropriada à referência dantesca da definição de inferno, céu e purgatório", diz Prata.

Para o autor, o inferno — exato como dizia Sartre—são os outros, com o agravante de a sociedade ser inflexível com relação aos pecadilhos cotidianos. "E o lugar onde vive toda a minha geração, combalida pelo excesso de culpa. Achei que já estava na hora de virar a mesa e escrever uma peça sobre o prazer, uma comédia leve, diferente dos textos que escrevi até "Fábrica de Chocolate". Essa, creio eu, é a tendência do teatro brasileiro dos anos 80, o teatro do deboche e do prazer." Os críticos uruguaios não entenderam muito a proposta, embora tenham elogiado, por exemplo, "Bésame Mucho".

Roberto Lage, o diretor da peça, afirma que a montagem de "O Purgatório" (mais de Cr$ 40 milhões aplicados na produção) exigiu "um rigor técnico e limpeza formal absolutos, já que a estrutura da peça é sintética (com 53 cenas, 80 interferências cenográficas e uma feérica iluminação). A escolha do elenco também não foi fácil, particularmente a de Beatriz, a condutora do espetáculo, papel que acabou ficando com Marina Helou, uma revelação em "Petra Von Kant".

O elenco de "O Purgatório", além dos nomes já citados, conta, ainda, com a presença de Ileana Kwasinki, no papel de Gemma (esposa de Dante), Mauro de Almeida, em quatro papéis (o gerente de banco, padre, médico e psiquiatra de Dante), Tãnia Bondezan (Catherine), Ana Lúcia Barroso (psicóloga e Dalva) e Roney Facchini como narrador. Os cenários e figurinos são de José de Anchieta e a direção musical de Tunica. A peça será apresentada de quarta a domingo, na Sala Rubens Sverner (rua Nestor Pestana, 196), nos horários convencionais, com ingressos a Cr$ 6 mil (setor 1) e Cr$ 4.500 (setor 2), sem meia entrada para estudantes.