Ruído de mar. Pausa. Entra,
pela lateral por onde entrou Juan, um homem maior. Veste um
amassado terno branco com uma visível mancha azul embaixo da
sua lapela esquerda. Chapéu branco, sapatos brancos, gravata e
camisa brancas. Tem paralisada metade do seu corpo. Arrasta
esta parte grotescamente. De sua mão esquerda pende um fio com
um pacotinho de bolachas. Entra acompanhado por outro
adolescente que o deixa no centro da cena e sai pela lateral
aposta.
GUSTAVO - Vai chover... Que
escuridão... este terno, a lapela tão enrugada. Eu disse para
a Marta para mandar para a tinturaria, mas para ela,
tinturaria é um luxo. (pausa. olha em volta) Está muito
escuro, pode me acontecer alguma coisa ruim! (olha para a
esquerda e a direita. tenta virar, não pode) A Marta está cada
vez mais avarenta. Não era assim nos nossos primeiros anos de
casados. (se apóia no banco, tenta sentar-se. não pode) E
agora está cada vez pior: começou por reclamar do preço das
maçãs, das bananas, do café... (olha assustado para a lateral
por onde saiu Juan) Nos tortura com o preço de tudo que
comemos, e agora cortou a água com gás: para que gastar com
bolhas!? Essa Marta... (pausa) Que horas serão? (se esforça. o
relógio está no pulso do braço paralisado. gestos cômicos
tentando alcançar com o mão boa o pulso do outro braço que
escapa. consegue) Mal vejo o relógio. Devo visitar o oculista.
Estou quase cego. Não posso esquecer. É que apenas tenho tempo
para as minhas próprias coisas. (observa assustado mais além
da luz) Que solidão! Vou cair numa armadilha? (arma um pequeno
salto. adianta um pé. se coloca em guarda com dificuldade. cai
o braço paralisado) Eles verão!... Eles verão!... Não lhes
darei oportunidade. (pausa. medita) Ninguém saberia que eu
viria para este lado da cidade: conhecidos não me atacaram,
esses não. Mas malandros oportunistas... poderia ser. Esta
zona tem má fama. Vim sem guarda-costas. (se alerta, leva sua
mão a orelha para escutar. se acalma. Ruído seco) Uff... que
noite! Além de tudo, com neblina. Espero que não me aconteça
nada de mal. Se eu fosse turista poderia justificar a minha
presença aqui, mas não só vivo nesta cidade, como sou Juiz de
Direito e não posso dizer que desconhecia a péssima fama deste
lugar. Meu nome ia aparecer nos jornais: nosso Juiz de Direito
é atacado no cais. Não quero pensar nisso. Uma mancha na minha
carreira. (levanta a lapela. olha a mancha azul. beija-a)
Marta!... Marta!... Com seus três defeitos: velha, esposa e
avarenta! Hum... que humidade... Na minha idade... Não deveria
ter vindo... (pausa) Que diriam meus netos se me vissem aqui?
(voz chiada) O velho caduco quis pegar uma pneumonia e foi
para a praia! Isso diriam... (reflexivo) Velho caduco? Eu,
cabeça da magistratura deste país, perseguidor dos que burlam
a lei, chamado de velho caduco por meus netos!... Bah!...
Talvez tenham razão! (pausa. senta-se no banco com muita
dificuldade. o pacotinho balança na sua mão ruim. olha
assustado para a lateral. pausa breve. deixa o pacote sobre o
banco) Juan não veio... Me enganei... Esperei este momento
durante tanto tempo!... Esperei sessenta anos, Juan! Não te
esqueci. Não quis te esquecer! (suspira) Que alívio poder
dizer sem medo: te amo, Juan! Você foi o grande amor da minha
vida. Teu amor foi o único que não se perdeu em mim em
sessenta anos... Ninguém imagina... Acho que nem eu mesmo
podia imaginar. Durante sessenta anos com esta data na cabeça:
este dia... Cumpri. Voltei. Prometi aos dezesseis anos e
cumpri. (pausa) A vida passou rápido: minha mulher, meus
filhos, minha carreira, meus netos. Sempre correndo, ocupado,
organizando, estudando, progredindo... Minha vida... Tudo
isso... (pausa. saída surpreendente) Pufff! Tudo isso era uma
mentira! Neste instante toda a minha vida é mais leve, mais
leviana que o ar. Foi meu isso tudo? (ri, brincando com ele
mesmo) As centenas de bandidos que mandei para a cadeia! Eu, o
Juiz supremo, com uma data em sua alma!... Realmente, Juan,
não pude te esquecer. (se compõe) No verão passado o meu neto
menor me insultou. Me disse: bicha velha! Eu olhava para um
rapazinho que brincava com uma bola na praia. Tinha as suas
pernas, Juan. Eram colunas perfeitas: teus tornozelos, tuas
coxas. Procurava tuas pernas naquelas pernas! Te procurava,
Juan. Procurava a perfeição do teu corpo. Rárá! Meu neto
menor, o que eu mais gosto, me fere sempre. (olha para as
laterais, inquieto) Me incomoda não ter o que fazer, eu que
leio até no banho, deveria ter trazido um livro. (olha o
pacotinho)
Comprei essas bolachinhas
secas para o meu neto endiabrado. (pausa. para o mar) Juan...
Marta, minha mulher, me enganou. Uma noite, faz anos, no
verão, na casa de uns amigos, escutei vindo do jardim a voz da
Marta que dizia, ofegante: não! não! por favor, não! não! O
dono da casa a abraçou e eu vi... Ela resistiu um instante,
somente um instante e depois... depois... Meu coração parou.
Me enganou. Bastou que alguém insistisse um instante para que
ela... Ainda ressoa nos meus ouvidos: não! não! por favor,
não! Assim foi. (pausa. com esforço tira uma bolacha e a come.
pausa) Com a Marta tudo continuou igual. Somos um casal
perfeito. Eu acho, apesar da sua avareza e disso (mostra seu
meio corpo paralisado) Faz dois anos, Juan, que esta parte do
meu corpo cansou de trabalhar e disse adeus. E eu comecei a
arrastar este meio cadáver meu. Desde então somos dois e nos
conhecemos bem. Reclamo dele, dou bronca nele, visto ele...
esta parte de mim não me dá bola. Descansa. Quer descansar...
e eu me agito como sempre. (pega outra bolacha e a come.
pausa) Tenho medo que me veja, Juan... estou tão velho! (ruído
seco. fica alerta) Um ladrão! Percebo a cem metros! Eu
descubro o delinqüente, o viciado, o trapaceiro, melhor que
ninguém. Farejo melhor que qualquer cão. (levanta os punhos
ameaçador) Não vai me surpreender, vagabundo! (pausa. se
acalma) São meus nervos... é que... este momento... este
lugar. (pausa. olha o mar) Que silêncio! Que paz! (olha a
bandeira) Bandeira amarela... mar instável... vida instável...
(pausa) Nunca tive tempo para mim! Jamais descansei! (pega
outra bolacha, a mastiga) Velho amigo, você está vivo? Só eu
vim ao nosso ao nosso encontro? Como foi a sua vida? Era tão
bonito, tão alegre. Estas bolachas estão úmidas e eu gosto
delas crocantes... Teus pés, Juan, beijei cada dedo... As de
chocolate estão melhores, parecem úmidas, mas o centro está
crocante. Não são boas; não compro mais nesta padaria. (pausa.
alerta. fareja na direção da lateral por onde saiu Juan) Tem
um ladrão por perto! Não me engano! (se apruma, estica o
pescoço, inclina sua coluna. postura de cão de caça. ouve
cantar pela lateral. Entra Juan, tropeça)
JUAN - Os barquinhos, os
barquinhos flutuam no mar azul e as gaivotas e as gaivotas.
(se detém bruscamente, expressão de horror pelo que vê. Dá um
salto e roda, caindo de costas) Meu Deus! Esse espantalho não
pode ser ele!
GUSTAVO - (roda
trabalhosamente e também cai de costas. expressão
aterrorizada) Não! Vou embora! Que palhaçada, Juan, este
palhaço!?
JUAN - Foi uma besteira ter
vindo. Fui um tonto!
GUSTAVO - Além de ladrão,
bêbado!
JUAN - Que velho!
(retrocedem de costas, até chocarem uma com a outra. Viram-se)
GUSTAVO - Desculpa, meu
senhor, foi sem querer...
JUAN - De minha parte
também... Esta escuridão é uma coisa... (Gustavo começa,
progressivamente, a ter uma expressão vulgar, enquanto Juan se
comporta com sobriedade)
GUSTAVO - Eu achava que o
bonde não passava por aqui... Aqui é um cais, não é?
JUAN - Não tem bonde nesta
cidade. Sim, isso aqui é um cais. Não apenas um cais, mas uma
zona perigosa.
GUSTAVO - Perigosa? As
cagadinhas das gaivotas, talvez... Rárárá!..
JUAN - Não entendo a sua
ironia. Perigosa por causa de roubos.
GUSTAVO - (furioso) Ninguém
me rouba! Com duas porradas resolvo o problema!
JUAN - Por enquanto não
temos problemas... (pausa. olha o mar) Lindo mar...
GUSTAVO - Sim, sim! Lindo
mar! Não sei porque digo lindo mar: me enche o saco o mar.
Tanta água... e debaixo desta água tantos bichos que
espreitam... (pausa) Este inverno está frio...
JUAN - Sim... Frio e úmido.
GUSTAVO - (tiritando) Sim,
frio, úmido e com ventos. Ideal para uma pneumonia.
JUAN - Você vive na cidade?
GUSTAVO - Não. Nem conheço
ela. Vivo longe daqui... Vivo em... um caminhão. Corro o mundo
com um circo. Sou palhaço!
JUAN - Palhaço?!
GUSTAVO - Palhaço, para
alguns... Divirto as pessoas. Digo piadas, rodo, salto...
JUAN - Roda e salta?!
GUSTAVO - Ainda que não
pareça, faço maravilhas com o meu corpo. E você?
JUAN - Eu sou Juiz!
GUSTAVO - (pausa) Juiz?!
JUAN - E também não vivo
nesta cidade...
GUSTAVO - Você é Juiz...
Difícil tarefa...
JUAN - Nem tanto. Basta
saber ler a lei e aplicá-la.
GUSTAVO - E você consegue
fazer isso?
JUAN - Às vezes... Às vezes
me deixam ler as leis... (pausa) Sim, às vezes, sobretudo para
assuntos pequenos, você sabe...
GUSTAVO - Sim, eu sei...
Veio a essa praia...
JUAN - Vim nessa praia
porque dizem que há anos atrás, traziam para a praia cavalos e
davam banho neles no mar. Os cavalos eram montados por jovens
rapazes que arregaçavam suas calças até os joelhos... entravam
no mar e brincavam com as ondas. Os cavalos avançavam,
voltavam, apostavam corridas sobre a espuma do mar, brincavam
até o anoitecer: cavalos e rapazes eram silhuetas cobertas
pelo sol, depois pelas sombras... e depois...
GUSTAVO - E depois? (pausa)
JUAN - Não me lembro.
GUSTAVO - Tente lembrar...
(pausa)
JUAN - Talvez se fosse de
dia e tivesse sol... mas de noite...
GUSTAVO - Tá certo... de
noite...
JUAN - (aponta o banco) Quer
sentar?
GUSTAVO - (dúvida) Bem...
sim. (se sentam)
JUAN - (pausa) Tá frio...
(pega a garrafinha, destampa, oferece a Gustavo)
GUSTAVO - Obrigado, não
bebo. Não a essa hora... não é uma boa hora... Você mesmo
disse, já é tarde...
JUAN - Não, não é uma hora
ruim. É ruim para recordar, mas não para beber.
GUSTAVO - Tem certeza?
JUAN - (pausa) Não. Não
tenho. (pausa)
GUSTAVO - Acho que você tem
razão... Talvez a hora seja boa para beber... (Gustavo bebe.
devolve a garrafa. bebe Juan sem limpar o gargalho. convida
novamente a Gustavo. este volta a beber. pausa)
JUAN - Gosto de descansar
assim... (pausa. mostra a bandeira) O mar está instável... Por
que usam a cor amarela para anunciar mar instável?...
GUSTAVO - Exatamente. Por
que o amarelo?
JUAN - O vermelho parece
adequado para anunciar o perigo... mas o amarelo... Quem terá
dito? Vermelho: perigo. Amarelo: instável? Branco: mar calmo.
Quem impôs isso?
GUSTAVO - Alguém...
JUAN - Certo... Alguém...
Alguém, alguém...
GUSTAVO - Te incomoda?
JUAN - Talvez... o que me
chama a atenção é que nunca, antes de hoje, eu me havia feito
essa pergunta... (Gustavo volta a beber. devolve a garrafa.
pausa prolongada)
GUSTAVO - (ri) Esse
uísque... quando olho o mar não posso deixar de rir.
JUAN - Te deixa feliz?
GUSTAVO - Não. Me lembra a
minha melhor piada. Olha, uma situação meio parecida com a
nossa. Dois velhos amigos estavam sentados de frente para o
mar e um disse para o outro: tá vendo o que eu estou vendo? O
que está vendo, pergunta o outro amigo. Vejo um homem magro,
com olhar celestial, vestido com uma túnica e que caminha
descalço sobre a água. Vem na nossa direção. O outro amigo,
alarmado, pergunta: caminha sobre a água??? Sim, responde o
outro e chega aqui. De fato, da água saiu um homem bonito,
estava apertado, comprimia as pernas, buscando um banheiro.
Rárá! Esse homem chegou perto do que tinha visto ele primeiro
e perguntou: irmão, onde tem uma Igreja? Os amigos se
surpreenderam e responderam juntos: perto daqui, a duas
quadras. Como faço para reconhecer ela, perguntou o homem que
saiu do mar. É fácil, respondeu um dos amigos. Na frente tem
um cartaz que diz: salve tua alma. O homem de olhar celestial
pensou um segundo e perguntou: tem mais alguma indicação? Sim,
disse um deles. Debaixo do cartaz tem outro que diz: horário
de oito a vinte horas. Rárárárá!!! (a risada de Gustavo estala
disparada. Juan nem sorri) Bárbaro! Não é bárbaro? Horário das
oito às vinte horas? Rárárá!!! De noite ninguém se salva!
JUAN - (pausa) Sua piada...
GUSTAVO - Não gostou?
JUAN - Não, não é isso... É
que... Essa insistência com o mar... (pausa) Que estranho... A
propósito do mar...No meu estúdio tenho três secretárias, são
velhas, muito velhas, velhas, empregadas minhas. Se chamam
Mimi, Marta e Maria. Me deram de presente há um ano, no dia do
meu aniversário,
uma toalha de mesa. A toalha
de mesa tinha um desenho. Um desses desenhos feitos com
superposição de pontos, entende? Muitos pontinhos unidos
desenham alguma coisa. No começo não me dei conta, mas o
desenho representa o mar...
GUSTAVO - O mar?
JUAN - Sim, o mar.
GUSTAVO - O mar...
Incrível... Essa insistência com o mar...
JUAN - Pois é. Logo que eu
descobri isso, me dava uma certa inquietação que começava a me
invadir a cada almoço, a cada jantar. Só uso a toalha no
almoço e no jantar.
GUSTAVO - Não toma café da
manhã?
JUAN - Somente bolo... Bolo
sem café...
GUSTAVO - Ah...
JUAN - Acha estranho?
GUSTAVO - Só disse Ah...
JUAN - Ah, bem. Vou em
frente. Num meio-dia, almoçava um lindo bife a milanesa com
batata fritas e olhei além do meu prato e havia o mar da
toalha de mesa. Tudo aconteceu muito rápido.
GUSTAVO - O que que
aconteceu?
JUAN - Não sei se tem
sentido contar.
GUSTAVO - Talvez não, mas
tente.
JUAN - O caracol saiu da
água...
GUSTAVO - Que?
JUAN - Sim. Saiu da espuma
de uma onda, do mar da toalha de mesa.
GUSTAVO - (ameaçador) Você
comia bife a milanesa com batatas fritas?
JUAN - Sim. Você acha que
comer batata frita com bife a milanesa é indício... de algo?
GUSTAVO - Talvez... Mas
continue, por favor... Esse negócio das batatas fritas e do
bife a milanesa eu acho incrível...
JUAN - O caracol subiu no
prato, pegou uma batata frita entre as suas antenas...
GUSTAVO - (ameaçador. firme)
A batata frita era das sequinhas ou estava oleosa?
JUAN - (alarmado)
Sequinhas...
GUSTAVO - (se mexe) Fico
mais intrigado ainda.
JUAN - Com a batata frita
sequinha entre suas antenas, mergulhou no mar e desapareceu
entre as ondas.
GUSTAVO - Que ondas?
JUAN - As da toalha de
mesa... As do mar...
GUSTAVO - Ah...
JUAN - Você com seus Ahs...
Seus suspiros me confundem. Não entendo porque você fica
suspirando...
GUSTAVO - Não se preocupe
por não entender. Entender não basta... nem sequer chega lá.
Às vezes achava que compreendia a vida, mas por sorte
reconheci a tempo que essa certeza era outro tipo de engano...
(pausa prolongada. olham o mar) Quanto tempo!... (entram
correndo e agitados os dois adolescentes nus e se detêm
assombrados diante do mar. Um deles se apóia no ombro do outro
enquanto este levanta o braço com o indicador estendido e
mostrar o percurso de uma gaivota pelo céu. pausa. rodam e se
retiram lentamente pela lateral por onde entraram. Juan e
Gustavo não os olham, estão ensimesmados. pausa. trovões)
Quanto tempo!...
JUAN - (pausa. caloroso)
Quanto tempo!...
GUSTAVO - Quanto!... Me
lembro de um amigo, um velho amigo... Há sessenta anos ele
gostava de montar a cavalo e entrar no mar. Cavalgava sobre as
ondas com outros rapazes audazes. Eu não me atrevia a fazer o
mesmo. Esperava ele na praia, na segurança da praia,
construindo castelinhos na areia que logo o mar destruía...
JUAN - Esse seu amigo me faz
lembrar de alguém...
GUSTAVO - Eu esperava ele na
costa. Voltava para a praia só quando as sombras da noite e o
sal do mar queimando a pele dele o obrigavam a voltar. Ele
brincava no mar para mim, seu único espectador. Ao voltar para
a costa me contava história do mar, como esta, como a das
batatas fritas... Eu gostava de escutá-lo... Bastava
escutar... era suficiente...
JUAN - Continuam sendo
amigos?
GUSTAVO - Acho que um
caracol... o mesmo caracol da sua toalha de mesa, pegou ele
entre as suas antenas e o levou para dentro do mar com o seu
cavalo, faz sessenta anos...
JUAN - Sessenta anos...
(pausa prolongada. olham o mar. trovões)
GUSTAVO - Vai chover...
(Juan abre o guarda-chuvas)
JUAN - Chega mais. (intentos
de Gustavo. Juan se aproxima dele)
GUSTAVO - Vai chover...
Quero que chova... (estão juntos debaixo do guarda-chuvas)
JUAN - Eu também... É a
primeira vez em minha vida que quero que chova...
GUSTAVO - Eu também...
(trovões)
JUAN - Chove? (coloca a mão
pra fora do guarda-chuva)
GUSTAVO - Não sei... mas é a
chuva mais bonita da minha vida...
JUAN - Sim... A mais bonita.
(pausa. fecha o guarda-chuvas. não choveu) Uma gaivota...
GUSTAVO - Onde? (Juan
levanta o braço e com seu indicador assinala no céu a um ponto
na extrema direita e move seu braço levantado, lentamente, até
a extrema esquerda. o olhar de Gustavo segue o caminho
traçado. com assombro) Uma gaivota! Cruza o céu... parece um
ponto branco.
JUAN - É um ponto branco que
cruza o céu... Dizem que voam até a África.
GUSTAVO - África? Não
conheço a África.
JUAN - Essa gaivota não
volta mais...
GUSTAVO - Não volta mais?
JUAN - Vai morrer na África.
GUSTAVO - Vai morrer? Tão
longe? Nunca mais vamos ver ela?
JUAN - Nunca mais...
GUSTAVO - Vai morrer, vai
esticar as patinhas na África... Tão longe... Por que na
África?
JUAN - Vai morrer sozinha...
Tem vergonha de envelhecer...
GUSTAVO - E na África, perde
a vergonha de envelhecer?
JUAN - Na África estará
sozinha.
GUSTAVO - Ah... (pausa.
ficam em silêncio. ruído de mar) Tenho frio...
JUAN - Quer mais uísque?
GUSTAVO - Não, obrigado.
Tenho que ir.
JUAN - Eu também...
GUSTAVO - Me sinto bem com
você.
JUAN - Eu também com você.
GUSTAVO - É difícil se
sentir bem com alguém que se acabou de conhecer...
JUAN - Sim, é muito difícil.
GUSTAVO - Muito difícil. (se
incorpora) Uma bolachinha?
JUAN - Sim... (pega uma
bolacha. Gustavo pega outra e comem, olhando-se. pausa) Queria
saber... Quando você viaja no seu caminhão, no circo,
trabalhando de palhaço, viaja acompanhado ou sozinho?
GUSTAVO - (voz embargada
pela emoção. evitando olha para Juan) Acompanhado. Meu
caminhão é grande. Me acompanham minha mulher, se chama Marta,
é um pouco pão-dura, mas uma boa companheira. Vem meus filhos,
tenho três e meus três netos. Um deles, o que mais gosto, o
menor, é um diabo... (pausa) E você? Sua família?
JUAN - (pausado. calor) Não
tenho família. Vivo sozinho. (pausa prolongada. Gustavo sofre
um leve desmaio, apenas insinuado)
GUSTAVO - Sinto tanto
frio!... Nunca em minha vida tive tanto frio...
JUAN - Se aqueça. (Juan
levanta as lapelas do paletó de Gustavo. observa suas manchas
azuis) Tem uma mancha...
GUSTAVO - Você também... É
azul...
JUAN - Sim... azul...
(pausa) Não é nem branco, nem vermelho, nem amarelo... É um
lindo azul... (pausa)
GUSTAVO - (abotoando o
paletó) Certo, um azul muito bonito... Obrigado, pela ajuda do
frio. Nunca, jamais, ninguém cuidou de mim. Você é um bom
homem.
JUAN - (estende sua mão para
cumprimentá-lo) Adeus. (Gustavo, com sua mão boa pega o braço
paralisado e levantando-o, deposita sua mão direita na mão de
Juan. Ficam assim alguns segundos. Juan, com suavidade e dor,
deixa cair o braço paralisado de Gustavo)
GUSTAVO - Adeus... (Gustavo
vira, dá uns passos com lentidão. se afasta)
JUAN - Gustavo!... (pára,
olhando-o. Gustavo se detém, vira e o olha surpreendido)
GUSTAVO - Sabia meu nome?
JUAN - Sim, você disse de
passagem...
GUSTAVO - (chega perto)
Ah... de passagem.
JUAN - Caiu isso. (Juan tira
do bolso, diante do olhar calmo de Gustavo, um relógio, uma
carteira, uma caneta e os entrega. Gustavo guarda tudo em
silêncio e se afasta lentamente. Juan também vira e se retira
na direção oposta)
GUSTAVO - (enquanto se
afasta) Sim, sim, caiu. Sou um descuidado. Perco tudo.
Obrigado, obrigado, Juan...
JUAN - (sem virar) De nada,
Gustavo. (saem por laterais opostas. palco vazio. aumenta o
ruído do mar e do vento junto ao chiar de uma gaivota. luz que
diminui suavemente. Escuridão)
F
I M