Peça anterior

PRÍNCIPE (INÉDITA) TRADUÇÃO DA PEÇA DE EUGENIO GRIFFERO

TEXTO COMPLETO

 

 

O PRÍNCIPE ENCANTADO

texto em um ato de EUGENIO GRIFFERO

tradução de MARIO PRATA

personagens: Juan e Gustavo

Palco vazio. Noite. Praia. Um velho banco de praça iluminado por um raio de luz circular. Ao lado do banco, um pequeno mastro branco com uma bandeira amarela. Ruído de mar. Sons de gaivotas. O palco pode estar coberto por uma grossa capa de areia que dificulte o andar dos personagens.

Entra, pela lateral, um homem de setenta e seis anos. Veste um amassado traje branco, com uma muito bem visível mancha azul em baixo da lapela esquerda. Chapéu branco, sapatos brancos, gravata e camisa brancas. Apóia-se com um guarda-chuvas. Um pouco bebinho. Tropeça.

Pode entrar ajudado por um adolescente nu que o acompanha até o centro do palco, deixa-o e sai lentamente pela lateral oposta.

JUAN - Cheguei primeiro... eu e minha maldita pontualidade... pareço bancário... (pausa. treme) Isso não é frio... Brrr... Não trema, velho camarada. Proibido tremer. (se sacode. tic de um ombro. se controla. tira uma garrafinha de bolso, a destampa, bebe uísque, tampa e guarda) Ya... Ya... (se acalma) Ya... Ya... (indiferença fingida) Lindo mar... No mesmo lugar... igual esse banco, essa margem. (pausa) Tudo em seu lugar. (apóia suas mãos no guarda-chuvas. tic de ombro) Tudo igual... sessenta anos. Passaram sessenta anos e tudo continua igual. (tic. pega a garrafa, bebe, guarda) Uff. Uff... Uff... Tudo bem... (se acalma) O que diria o meu público se me visse beber tão... sobriamente e tremer assim? (se anima) Me gritariam lá da platéia. (coloca as mãos na boca como trombeta) Velho palhaço! Chega de uísque, o teu mau-hálito... Babaca, isso não é lugar para bêbados! Isso aí!... diriam isso. Meu público... puff... (amplo gesto de descaso. Senta-se no banco. com desprezo:) Meu distinto público... Não vou dar este gosto a vocês... Rufiões! este fim de semana escapei do teatro. Teatro? Esse teatrinho de revistas... Teatrinho, armadilha para marinheiros no cio... (se surpreende com sua expressã0) Marinheiros no cio? O mar melhora minha linguagem... Marinheiros excitados... (pausa. com orgulho) O Diretor de Cena. (mostra a si mesmo) Grande redator de piadas de sacanagem, vai para a sua marca. (enfático) Seu primeiro fim de semana livre em anos! Nada de piada de sacanagem para marinheirinhos que não precisam de piadas para deixar o transatlântico duro! Rá, rá, rá!!! (gargalhadas forçadas. pausa. sério) Hoje eu estou com essas piadas infames... Estou cheio da minha impossibilidade de deixar de ser ator...mal ator. Agora, uísque sem caretas! (pega a garrafinha, bebe e guarda) Ah... o cheiro do uísque e o cheiro do mar! Uísque para desfrutar este disparate, este mar, este momento. (apoia seus cotovelos em seus joelhos. pausa) Venho para cumprir uma promessa de amor. Uau! Soa bem... Um pacto selado sessenta anos atrás. (olhar perdido. tic de ombro. pega a garrafinha, bebe e guarda) Nos conhecemos no verão. Tínhamos dezesseis anos, nos amamos, fizemos amor o mês inteiro, éramos virgens... nos assustamos e prometemos voltar e nos ver sessenta anos mais tarde. (pausa. ri suavemente. chora. se in corpora, seca as lágrimas) Esta brincadeira é a minha piada mais medíocre: sessenta anos. (se compõe) Quando terminaram as férias as nossas famílias voltaram para as suas cidades, nos levaram, nos separaram... Fizemos o pacto de nos ver... Oh mar! Que coisas se prometem com dezesseis anos! (pausa. brincalhão, desajeitado) Isso parece Romeu e Julieta... Romeu era Montecchio ou Capuleto?... Nunca li, vi na televisão... Deveria ler uma vez... Acho que deveria... Acho que sim... Minha cabeça está doendo. Estou com náuseas. Estou bêbado. (levanta-se, estende os braços ao céu, recita:) Meu porre tem somente sessenta anos! (dá de ombros, confidente:) Graças a isso tenho glóbulos brancos vivos. Isso sim, é bem engraçado: minto todos os dias. A mentira é a minha verdade... (pausa) Hoje eu pude escapar daquela armadilha de teatro. Nunca faltei, de medo que pudessem me trocar por outro "talento" para a comédia fina naquele teatro... (move o guarda-chuvas pelo ar) O melhor daquele lugar é o cheiro: uma mistura de cerveja, refrigerantes, porra e suor de gente do mar... (apóia o guarda-chuvas no ombro) Sou um soldado do palco. Jamais abandonei, em anos, meu posto de combate. Agora temos sessões desde as onze da manhã até as quatro da madrugada do dia seguinte. Um desfile incessante de soldados, marinheiros e estudantes com olhos de tesão. Uau! Eu com as minha piadas! (pausa) Quando não conto piadas, vendo chocolates na platéia ou me disfarço de urso para o número do zoológico erótico. Sou todo um espetáculo! Trabalhar de urso deu seus frutos. Cheguei ao cinema. (remarcando as palavras) Desenhos animados! Dublei os gritos de uma foca em um filme: A Arca de Nóe. Huac! Huac! Huac! Genial! Quando tenho um pouco de dinheiro, alugo o filme e passo esse desenho animado nos meus momentos de descanso. (se surpreende) Meus momentos de descanso? (pausa) O que seria deste teatro sem mim? Sou completo: limpo a platéia, faço o borderô na bilheteria. O dono precisa de mim. Sou seu mais fiel empregado, não peço aumento, não falto... Amo esse espaço. Esta sala estreita e eu: o velho porco que diz porcarias... este sou eu, mar! (pausa, abre o guarda-chuvas e atua como um ator iluminado por um círculo de luz) Meu número principal está cheio de fantasia e bom gosto. Faço ele com três coristas, três velhas, velhas, velhas, muito velhas amigas... Um círculo de luz, uma bolha pálida sobre o telão negro e começa! Tambores! Tuturururururá!!! e as apresento: queridos rapazes, tenho para vocês as mais belas passageiras da noite! Rainhas do amor! Dóceis criaturas que atendem a todos os desejos! (com sono) Mulheres, ou algo parecido... Uau! e as apresento: Mimi! (imita grotescamente a vedete)... e entra Mimi coberta de plumas, um pouco amassadas, afogada na sua asma mas, mesmo assim, caminhando e ululando quando sabem tocar para ela uma boa harpa... Marta! um pouco surda e com peitinhos duros. Rárárá... e Maria! A doce Maria! Coberta de bexigas que não vão estourar: suave, um olhar um pouco estrábico e totalmente torta. Rárárá... E eu! O velho jovem, amigo da casa. O mago Merlin, para servi-lhes! Rárárá. (assovia metendo os dedos na boca, ri e aplaude entre sons de marcha de revista musical. fecha o guarda-chuvas) Tiro o chapéu, coloco dois ovos e uma salsicha dentro e o que tiro, duro, gordo, enrijecido, uso para fuder as mocinhas. (apóia o guarda-chuvas entre suas pernas) Rárárá... (tosse, engasga. pausa) Que papelão... Todas as noites iguaizinhas em sucessivas e repetidas e reiteradas sessões... Toda a minha vida igual. (pega uma caixinha de rapé. pega um pouco, cheira, fecha e guarda a caixa) Só me falta fazer crítica teatral para o meu fracasso ser total! O mago Merlin! Bah! (pausa. vira) Esse banco não mudou... Esta praia muito menos... Só mudou o Juan... Quando tempo que não escuto o meu nome! Juan... Juan... Soa bem... Juan... Juan, conhece a última travessura de seu irmãozinho, o Mago Merlin? Este honesto empregado que não pede aumento? Te conto, Juan. Te conto. O Mago Merlin foge nas madrugadas das camas onde fez amor, roubando as suas vítimas, que dormem esgotadas pelos seus incontáveis e inconfessáveis fetiches. Seu irmão rouba, Juan. É um sem-vergonha. Estou livre de pecados, confessei. Amém. Volto a ser santo. Não quero roubar esta vez. Não vim aqui para roubar. Verdade, Juan? Não vim para roubar... (pausa) Como estará? Faz sessenta anos... Terá envelhecido tão mal como eu?... Terá casado? Terá filhos? Terá esquecido o encontro? (pausa longa) Terá morrido? Noite, noite... O que que eu faço aqui? A vida me deve uma oportunidade! Esta é a minha oportunidade! Preciso dela! Todo o lixo, a imundície que eu vivi, deve ter uma recompensa. Sou filho de Deus... (chora com a cabeça baixa) Pai... porque me abandonastes? (chora. Estala uma gargalhada. Levanta-se do lugar e apontando-se ri de si mesmo) O drama é meu estilo! Rárárá! (pausa) Se tudo fosse começar de novo, seria ator dramático. (pausa) Já joguei meus dados... Brummmm... Meu dados estavam brancos, sem números. Estou sozinho e velho. (pausa. caminha suave. deixa o guarda-chuvas cravado na areia. avança. Silêncio) Querido palhaço, as piadas de sacanagem, o uísque e o tempo perdido te deixaram na merda! (pausa) Mar, quando eu tinha dezesseis anos entrava na sua água montado num cavalo. Você explodia em mim. Arregaçava minhas calças, mas você me molhava. Às vezes, para escandalizar os meus amigos, montava pelado. Banhava meu cavalo e banhava eu. Como eu gostava disso! Esse instante... Eu gritava para o vento: serei um grande ator! (pausa. fugaz expressão de desconcerto) Ainda tenho tempo... sim, tenho tempo... (pega a garrafinha, tenta beber, está vazia) Garrafa idiota! Me traiu! Tenho que te carregar de novo... Tenho que ir até a cidade... (tropeça, pega o guarda-chuvas) Eu vou, mar, mas volto. Juan! Merlin não quer roubar esta noite! Merlin é um bom menino! Esta noite não quer roubar... Espera o seu amor... Não vai roubar... esta noite não. (olha a lapela. sacode sua visível mancha azul) Essa lapela, essa roupa está toda amassada e suja...(trovão) Vai chover... (se retira cambaleante pela lateral oposta)

Ruído de mar. Pausa. Entra, pela lateral por onde entrou Juan, um homem maior. Veste um amassado terno branco com uma visível mancha azul embaixo da sua lapela esquerda. Chapéu branco, sapatos brancos, gravata e camisa brancas. Tem paralisada metade do seu corpo. Arrasta esta parte grotescamente. De sua mão esquerda pende um fio com um pacotinho de bolachas. Entra acompanhado por outro adolescente que o deixa no centro da cena e sai pela lateral aposta.

GUSTAVO - Vai chover... Que escuridão... este terno, a lapela tão enrugada. Eu disse para a Marta para mandar para a tinturaria, mas para ela, tinturaria é um luxo. (pausa. olha em volta) Está muito escuro, pode me acontecer alguma coisa ruim! (olha para a esquerda e a direita. tenta virar, não pode) A Marta está cada vez mais avarenta. Não era assim nos nossos primeiros anos de casados. (se apóia no banco, tenta sentar-se. não pode) E agora está cada vez pior: começou por reclamar do preço das maçãs, das bananas, do café... (olha assustado para a lateral por onde saiu Juan) Nos tortura com o preço de tudo que comemos, e agora cortou a água com gás: para que gastar com bolhas!? Essa Marta... (pausa) Que horas serão? (se esforça. o relógio está no pulso do braço paralisado. gestos cômicos tentando alcançar com o mão boa o pulso do outro braço que escapa. consegue) Mal vejo o relógio. Devo visitar o oculista. Estou quase cego. Não posso esquecer. É que apenas tenho tempo para as minhas próprias coisas. (observa assustado mais além da luz) Que solidão! Vou cair numa armadilha? (arma um pequeno salto. adianta um pé. se coloca em guarda com dificuldade. cai o braço paralisado) Eles verão!... Eles verão!... Não lhes darei oportunidade. (pausa. medita) Ninguém saberia que eu viria para este lado da cidade: conhecidos não me atacaram, esses não. Mas malandros oportunistas... poderia ser. Esta zona tem má fama. Vim sem guarda-costas. (se alerta, leva sua mão a orelha para escutar. se acalma. Ruído seco) Uff... que noite! Além de tudo, com neblina. Espero que não me aconteça nada de mal. Se eu fosse turista poderia justificar a minha presença aqui, mas não só vivo nesta cidade, como sou Juiz de Direito e não posso dizer que desconhecia a péssima fama deste lugar. Meu nome ia aparecer nos jornais: nosso Juiz de Direito é atacado no cais. Não quero pensar nisso. Uma mancha na minha carreira. (levanta a lapela. olha a mancha azul. beija-a) Marta!... Marta!... Com seus três defeitos: velha, esposa e avarenta! Hum... que humidade... Na minha idade... Não deveria ter vindo... (pausa) Que diriam meus netos se me vissem aqui? (voz chiada) O velho caduco quis pegar uma pneumonia e foi para a praia! Isso diriam... (reflexivo) Velho caduco? Eu, cabeça da magistratura deste país, perseguidor dos que burlam a lei, chamado de velho caduco por meus netos!... Bah!... Talvez tenham razão! (pausa. senta-se no banco com muita dificuldade. o pacotinho balança na sua mão ruim. olha assustado para a lateral. pausa breve. deixa o pacote sobre o banco) Juan não veio... Me enganei... Esperei este momento durante tanto tempo!... Esperei sessenta anos, Juan! Não te esqueci. Não quis te esquecer! (suspira) Que alívio poder dizer sem medo: te amo, Juan! Você foi o grande amor da minha vida. Teu amor foi o único que não se perdeu em mim em sessenta anos... Ninguém imagina... Acho que nem eu mesmo podia imaginar. Durante sessenta anos com esta data na cabeça: este dia... Cumpri. Voltei. Prometi aos dezesseis anos e cumpri. (pausa) A vida passou rápido: minha mulher, meus filhos, minha carreira, meus netos. Sempre correndo, ocupado, organizando, estudando, progredindo... Minha vida... Tudo isso... (pausa. saída surpreendente) Pufff! Tudo isso era uma mentira! Neste instante toda a minha vida é mais leve, mais leviana que o ar. Foi meu isso tudo? (ri, brincando com ele mesmo) As centenas de bandidos que mandei para a cadeia! Eu, o Juiz supremo, com uma data em sua alma!... Realmente, Juan, não pude te esquecer. (se compõe) No verão passado o meu neto menor me insultou. Me disse: bicha velha! Eu olhava para um rapazinho que brincava com uma bola na praia. Tinha as suas pernas, Juan. Eram colunas perfeitas: teus tornozelos, tuas coxas. Procurava tuas pernas naquelas pernas! Te procurava, Juan. Procurava a perfeição do teu corpo. Rárá! Meu neto menor, o que eu mais gosto, me fere sempre. (olha para as laterais, inquieto) Me incomoda não ter o que fazer, eu que leio até no banho, deveria ter trazido um livro. (olha o pacotinho)

Comprei essas bolachinhas secas para o meu neto endiabrado. (pausa. para o mar) Juan... Marta, minha mulher, me enganou. Uma noite, faz anos, no verão, na casa de uns amigos, escutei vindo do jardim a voz da Marta que dizia, ofegante: não! não! por favor, não! não! O dono da casa a abraçou e eu vi... Ela resistiu um instante, somente um instante e depois... depois... Meu coração parou. Me enganou. Bastou que alguém insistisse um instante para que ela... Ainda ressoa nos meus ouvidos: não! não! por favor, não! Assim foi. (pausa. com esforço tira uma bolacha e a come. pausa) Com a Marta tudo continuou igual. Somos um casal perfeito. Eu acho, apesar da sua avareza e disso (mostra seu meio corpo paralisado) Faz dois anos, Juan, que esta parte do meu corpo cansou de trabalhar e disse adeus. E eu comecei a arrastar este meio cadáver meu. Desde então somos dois e nos conhecemos bem. Reclamo dele, dou bronca nele, visto ele... esta parte de mim não me dá bola. Descansa. Quer descansar... e eu me agito como sempre. (pega outra bolacha e a come. pausa) Tenho medo que me veja, Juan... estou tão velho! (ruído seco. fica alerta) Um ladrão! Percebo a cem metros! Eu descubro o delinqüente, o viciado, o trapaceiro, melhor que ninguém. Farejo melhor que qualquer cão. (levanta os punhos ameaçador) Não vai me surpreender, vagabundo! (pausa. se acalma) São meus nervos... é que... este momento... este lugar. (pausa. olha o mar) Que silêncio! Que paz! (olha a bandeira) Bandeira amarela... mar instável... vida instável... (pausa) Nunca tive tempo para mim! Jamais descansei! (pega outra bolacha, a mastiga) Velho amigo, você está vivo? Só eu vim ao nosso ao nosso encontro? Como foi a sua vida? Era tão bonito, tão alegre. Estas bolachas estão úmidas e eu gosto delas crocantes... Teus pés, Juan, beijei cada dedo... As de chocolate estão melhores, parecem úmidas, mas o centro está crocante. Não são boas; não compro mais nesta padaria. (pausa. alerta. fareja na direção da lateral por onde saiu Juan) Tem um ladrão por perto! Não me engano! (se apruma, estica o pescoço, inclina sua coluna. postura de cão de caça. ouve cantar pela lateral. Entra Juan, tropeça)

JUAN - Os barquinhos, os barquinhos flutuam no mar azul e as gaivotas e as gaivotas. (se detém bruscamente, expressão de horror pelo que vê. Dá um salto e roda, caindo de costas) Meu Deus! Esse espantalho não pode ser ele!

GUSTAVO - (roda trabalhosamente e também cai de costas. expressão aterrorizada) Não! Vou embora! Que palhaçada, Juan, este palhaço!?

JUAN - Foi uma besteira ter vindo. Fui um tonto!

GUSTAVO - Além de ladrão, bêbado!

JUAN - Que velho! (retrocedem de costas, até chocarem uma com a outra. Viram-se)

GUSTAVO - Desculpa, meu senhor, foi sem querer...

JUAN - De minha parte também... Esta escuridão é uma coisa... (Gustavo começa, progressivamente, a ter uma expressão vulgar, enquanto Juan se comporta com sobriedade)

GUSTAVO - Eu achava que o bonde não passava por aqui... Aqui é um cais, não é?

JUAN - Não tem bonde nesta cidade. Sim, isso aqui é um cais. Não apenas um cais, mas uma zona perigosa.

GUSTAVO - Perigosa? As cagadinhas das gaivotas, talvez... Rárárá!..

JUAN - Não entendo a sua ironia. Perigosa por causa de roubos.

GUSTAVO - (furioso) Ninguém me rouba! Com duas porradas resolvo o problema!

JUAN - Por enquanto não temos problemas... (pausa. olha o mar) Lindo mar...

GUSTAVO - Sim, sim! Lindo mar! Não sei porque digo lindo mar: me enche o saco o mar. Tanta água... e debaixo desta água tantos bichos que espreitam... (pausa) Este inverno está frio...

JUAN - Sim... Frio e úmido.

GUSTAVO - (tiritando) Sim, frio, úmido e com ventos. Ideal para uma pneumonia.

JUAN - Você vive na cidade?

GUSTAVO - Não. Nem conheço ela. Vivo longe daqui... Vivo em... um caminhão. Corro o mundo com um circo. Sou palhaço!

JUAN - Palhaço?!

GUSTAVO - Palhaço, para alguns... Divirto as pessoas. Digo piadas, rodo, salto...

JUAN - Roda e salta?!

GUSTAVO - Ainda que não pareça, faço maravilhas com o meu corpo. E você?

JUAN - Eu sou Juiz!

GUSTAVO - (pausa) Juiz?!

JUAN - E também não vivo nesta cidade...

GUSTAVO - Você é Juiz... Difícil tarefa...

JUAN - Nem tanto. Basta saber ler a lei e aplicá-la.

GUSTAVO - E você consegue fazer isso?

JUAN - Às vezes... Às vezes me deixam ler as leis... (pausa) Sim, às vezes, sobretudo para assuntos pequenos, você sabe...

GUSTAVO - Sim, eu sei... Veio a essa praia...

JUAN - Vim nessa praia porque dizem que há anos atrás, traziam para a praia cavalos e davam banho neles no mar. Os cavalos eram montados por jovens rapazes que arregaçavam suas calças até os joelhos... entravam no mar e brincavam com as ondas. Os cavalos avançavam, voltavam, apostavam corridas sobre a espuma do mar, brincavam até o anoitecer: cavalos e rapazes eram silhuetas cobertas pelo sol, depois pelas sombras... e depois...

GUSTAVO - E depois? (pausa)

JUAN - Não me lembro.

GUSTAVO - Tente lembrar... (pausa)

JUAN - Talvez se fosse de dia e tivesse sol... mas de noite...

GUSTAVO - Tá certo... de noite...

JUAN - (aponta o banco) Quer sentar?

GUSTAVO - (dúvida) Bem... sim. (se sentam)

JUAN - (pausa) Tá frio... (pega a garrafinha, destampa, oferece a Gustavo)

GUSTAVO - Obrigado, não bebo. Não a essa hora... não é uma boa hora... Você mesmo disse, já é tarde...

JUAN - Não, não é uma hora ruim. É ruim para recordar, mas não para beber.

GUSTAVO - Tem certeza?

JUAN - (pausa) Não. Não tenho. (pausa)

GUSTAVO - Acho que você tem razão... Talvez a hora seja boa para beber... (Gustavo bebe. devolve a garrafa. bebe Juan sem limpar o gargalho. convida novamente a Gustavo. este volta a beber. pausa)

JUAN - Gosto de descansar assim... (pausa. mostra a bandeira) O mar está instável... Por que usam a cor amarela para anunciar mar instável?...

GUSTAVO - Exatamente. Por que o amarelo?

JUAN - O vermelho parece adequado para anunciar o perigo... mas o amarelo... Quem terá dito? Vermelho: perigo. Amarelo: instável? Branco: mar calmo. Quem impôs isso?

GUSTAVO - Alguém...

JUAN - Certo... Alguém... Alguém, alguém...

GUSTAVO - Te incomoda?

JUAN - Talvez... o que me chama a atenção é que nunca, antes de hoje, eu me havia feito essa pergunta... (Gustavo volta a beber. devolve a garrafa. pausa prolongada)

GUSTAVO - (ri) Esse uísque... quando olho o mar não posso deixar de rir.

JUAN - Te deixa feliz?

GUSTAVO - Não. Me lembra a minha melhor piada. Olha, uma situação meio parecida com a nossa. Dois velhos amigos estavam sentados de frente para o mar e um disse para o outro: tá vendo o que eu estou vendo? O que está vendo, pergunta o outro amigo. Vejo um homem magro, com olhar celestial, vestido com uma túnica e que caminha descalço sobre a água. Vem na nossa direção. O outro amigo, alarmado, pergunta: caminha sobre a água??? Sim, responde o outro e chega aqui. De fato, da água saiu um homem bonito, estava apertado, comprimia as pernas, buscando um banheiro. Rárá! Esse homem chegou perto do que tinha visto ele primeiro e perguntou: irmão, onde tem uma Igreja? Os amigos se surpreenderam e responderam juntos: perto daqui, a duas quadras. Como faço para reconhecer ela, perguntou o homem que saiu do mar. É fácil, respondeu um dos amigos. Na frente tem um cartaz que diz: salve tua alma. O homem de olhar celestial pensou um segundo e perguntou: tem mais alguma indicação? Sim, disse um deles. Debaixo do cartaz tem outro que diz: horário de oito a vinte horas. Rárárárá!!! (a risada de Gustavo estala disparada. Juan nem sorri) Bárbaro! Não é bárbaro? Horário das oito às vinte horas? Rárárá!!! De noite ninguém se salva!

JUAN - (pausa) Sua piada...

GUSTAVO - Não gostou?

JUAN - Não, não é isso... É que... Essa insistência com o mar... (pausa) Que estranho... A propósito do mar...No meu estúdio tenho três secretárias, são velhas, muito velhas, velhas, empregadas minhas. Se chamam Mimi, Marta e Maria. Me deram de presente há um ano, no dia do meu aniversário,

uma toalha de mesa. A toalha de mesa tinha um desenho. Um desses desenhos feitos com superposição de pontos, entende? Muitos pontinhos unidos desenham alguma coisa. No começo não me dei conta, mas o desenho representa o mar...

GUSTAVO - O mar?

JUAN - Sim, o mar.

GUSTAVO - O mar... Incrível... Essa insistência com o mar...

JUAN - Pois é. Logo que eu descobri isso, me dava uma certa inquietação que começava a me invadir a cada almoço, a cada jantar. Só uso a toalha no almoço e no jantar.

GUSTAVO - Não toma café da manhã?

JUAN - Somente bolo... Bolo sem café...

GUSTAVO - Ah...

JUAN - Acha estranho?

GUSTAVO - Só disse Ah...

JUAN - Ah, bem. Vou em frente. Num meio-dia, almoçava um lindo bife a milanesa com batata fritas e olhei além do meu prato e havia o mar da toalha de mesa. Tudo aconteceu muito rápido.

GUSTAVO - O que que aconteceu?

JUAN - Não sei se tem sentido contar.

GUSTAVO - Talvez não, mas tente.

JUAN - O caracol saiu da água...

GUSTAVO - Que?

JUAN - Sim. Saiu da espuma de uma onda, do mar da toalha de mesa.

GUSTAVO - (ameaçador) Você comia bife a milanesa com batatas fritas?

JUAN - Sim. Você acha que comer batata frita com bife a milanesa é indício... de algo?

GUSTAVO - Talvez... Mas continue, por favor... Esse negócio das batatas fritas e do bife a milanesa eu acho incrível...

JUAN - O caracol subiu no prato, pegou uma batata frita entre as suas antenas...

GUSTAVO - (ameaçador. firme) A batata frita era das sequinhas ou estava oleosa?

JUAN - (alarmado) Sequinhas...

GUSTAVO - (se mexe) Fico mais intrigado ainda.

JUAN - Com a batata frita sequinha entre suas antenas, mergulhou no mar e desapareceu entre as ondas.

GUSTAVO - Que ondas?

JUAN - As da toalha de mesa... As do mar...

GUSTAVO - Ah...

JUAN - Você com seus Ahs... Seus suspiros me confundem. Não entendo porque você fica suspirando...

GUSTAVO - Não se preocupe por não entender. Entender não basta... nem sequer chega lá. Às vezes achava que compreendia a vida, mas por sorte reconheci a tempo que essa certeza era outro tipo de engano... (pausa prolongada. olham o mar) Quanto tempo!... (entram correndo e agitados os dois adolescentes nus e se detêm assombrados diante do mar. Um deles se apóia no ombro do outro enquanto este levanta o braço com o indicador estendido e mostrar o percurso de uma gaivota pelo céu. pausa. rodam e se retiram lentamente pela lateral por onde entraram. Juan e Gustavo não os olham, estão ensimesmados. pausa. trovões) Quanto tempo!...

JUAN - (pausa. caloroso) Quanto tempo!...

GUSTAVO - Quanto!... Me lembro de um amigo, um velho amigo... Há sessenta anos ele gostava de montar a cavalo e entrar no mar. Cavalgava sobre as ondas com outros rapazes audazes. Eu não me atrevia a fazer o mesmo. Esperava ele na praia, na segurança da praia, construindo castelinhos na areia que logo o mar destruía...

JUAN - Esse seu amigo me faz lembrar de alguém...

GUSTAVO - Eu esperava ele na costa. Voltava para a praia só quando as sombras da noite e o sal do mar queimando a pele dele o obrigavam a voltar. Ele brincava no mar para mim, seu único espectador. Ao voltar para a costa me contava história do mar, como esta, como a das batatas fritas... Eu gostava de escutá-lo... Bastava escutar... era suficiente...

JUAN - Continuam sendo amigos?

GUSTAVO - Acho que um caracol... o mesmo caracol da sua toalha de mesa, pegou ele entre as suas antenas e o levou para dentro do mar com o seu cavalo, faz sessenta anos...

JUAN - Sessenta anos... (pausa prolongada. olham o mar. trovões)

GUSTAVO - Vai chover... (Juan abre o guarda-chuvas)

JUAN - Chega mais. (intentos de Gustavo. Juan se aproxima dele)

GUSTAVO - Vai chover... Quero que chova... (estão juntos debaixo do guarda-chuvas)

JUAN - Eu também... É a primeira vez em minha vida que quero que chova...

GUSTAVO - Eu também... (trovões)

JUAN - Chove? (coloca a mão pra fora do guarda-chuva)

GUSTAVO - Não sei... mas é a chuva mais bonita da minha vida...

JUAN - Sim... A mais bonita. (pausa. fecha o guarda-chuvas. não choveu) Uma gaivota...

GUSTAVO - Onde? (Juan levanta o braço e com seu indicador assinala no céu a um ponto na extrema direita e move seu braço levantado, lentamente, até a extrema esquerda. o olhar de Gustavo segue o caminho traçado. com assombro) Uma gaivota! Cruza o céu... parece um ponto branco.

JUAN - É um ponto branco que cruza o céu... Dizem que voam até a África.

GUSTAVO - África? Não conheço a África.

JUAN - Essa gaivota não volta mais...

GUSTAVO - Não volta mais?

JUAN - Vai morrer na África.

GUSTAVO - Vai morrer? Tão longe? Nunca mais vamos ver ela?

JUAN - Nunca mais...

GUSTAVO - Vai morrer, vai esticar as patinhas na África... Tão longe... Por que na África?

JUAN - Vai morrer sozinha... Tem vergonha de envelhecer...

GUSTAVO - E na África, perde a vergonha de envelhecer?

JUAN - Na África estará sozinha.

GUSTAVO - Ah... (pausa. ficam em silêncio. ruído de mar) Tenho frio...

JUAN - Quer mais uísque?

GUSTAVO - Não, obrigado. Tenho que ir.

JUAN - Eu também...

GUSTAVO - Me sinto bem com você.

JUAN - Eu também com você.

GUSTAVO - É difícil se sentir bem com alguém que se acabou de conhecer...

JUAN - Sim, é muito difícil.

GUSTAVO - Muito difícil. (se incorpora) Uma bolachinha?

JUAN - Sim... (pega uma bolacha. Gustavo pega outra e comem, olhando-se. pausa) Queria saber... Quando você viaja no seu caminhão, no circo, trabalhando de palhaço, viaja acompanhado ou sozinho?

GUSTAVO - (voz embargada pela emoção. evitando olha para Juan) Acompanhado. Meu caminhão é grande. Me acompanham minha mulher, se chama Marta, é um pouco pão-dura, mas uma boa companheira. Vem meus filhos, tenho três e meus três netos. Um deles, o que mais gosto, o menor, é um diabo... (pausa) E você? Sua família?

JUAN - (pausado. calor) Não tenho família. Vivo sozinho. (pausa prolongada. Gustavo sofre um leve desmaio, apenas insinuado)

GUSTAVO - Sinto tanto frio!... Nunca em minha vida tive tanto frio...

JUAN - Se aqueça. (Juan levanta as lapelas do paletó de Gustavo. observa suas manchas azuis) Tem uma mancha...

GUSTAVO - Você também... É azul...

JUAN - Sim... azul... (pausa) Não é nem branco, nem vermelho, nem amarelo... É um lindo azul... (pausa)

GUSTAVO  - (abotoando o paletó) Certo, um azul muito bonito... Obrigado, pela ajuda do frio. Nunca, jamais, ninguém cuidou de mim. Você é um bom homem.

JUAN - (estende sua mão para cumprimentá-lo) Adeus. (Gustavo, com sua mão boa pega o braço paralisado e levantando-o, deposita sua mão direita na mão de Juan. Ficam assim alguns segundos. Juan, com suavidade e dor, deixa cair o braço paralisado de Gustavo)

GUSTAVO - Adeus... (Gustavo vira, dá uns passos com lentidão. se afasta)

JUAN - Gustavo!... (pára, olhando-o. Gustavo se detém, vira e o olha surpreendido)

GUSTAVO - Sabia meu nome?

JUAN - Sim, você disse de passagem...

GUSTAVO - (chega perto) Ah... de passagem.

JUAN - Caiu isso. (Juan tira do bolso, diante do olhar calmo de Gustavo, um relógio, uma carteira, uma caneta e os entrega. Gustavo guarda tudo em silêncio e se afasta lentamente. Juan também vira e se retira na direção oposta)

GUSTAVO - (enquanto se afasta) Sim, sim, caiu. Sou um descuidado. Perco tudo. Obrigado, obrigado, Juan...

JUAN - (sem virar) De nada, Gustavo. (saem por laterais opostas. palco vazio. aumenta o ruído do mar e do vento junto ao chiar de uma gaivota. luz que diminui suavemente. Escuridão)

F I M