PILATOS, VIDA E OBRA (inédita)

CRÍTICA

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Todos num aparelho

Os cinco chegam diante de uma porta. Otávio se adianta e dá três pan-cadinhas perto da fechadura. Uma senha, nítida. Do outro lado, respondem com pancadinhas idênticas. Otávio tira uma chave do bolso e arranha a fechadura. De dentro, fazem a mesma coisa. Os quatro estão com capuzes. Otávio tira os capuzes deles. Entram. O local está meio escuro. Fecham a porta. Tem duas mulheres do lado de dentro. Em silêncio, abraçam Otávio friamente.

MULHER 2 - Estamos aí, companheiro!

DOM GERALDO – Não estou gostando nada disso. Esse papo de companheiro eu conheço muito bem.

MULHER 1 - Cala a boca, companheiro!

Continuam andando, como se estivessem num corredor. Nova porta se fecha atrás deles.

MULHER 2 - Estão todos aí?

OTÁVIO - Estão. Fiquem tranquilas. São de confiança.

MULHER 2 - Muito bem. Acendam as luzes.

Fica claro. Estão os cinco e as duas mulheres.

DOM GERALDO - Isso é uma cilada! Estamos presos de novo!

TUBAÍNA - Otávio, e o álcool?

OTÁVIO - Como, presos? Trouxe vocês aqui para dormirem. Não foi o que eu prometi? E vou ver se consigo alguma coisa para comer. Vocês não têm o que reclamar. É ficar aqui ou dormir lá fora.

DOS PASSOS - Isso é um aparelho.

MULHER 2 - Sem perguntas, por favor. Pode-se mesmo confiar neles, Diogo?

DOM GERALDO - Diogo?

MULHER 1 - Agora ninguém mais pode sair.

DOM GERALDO - Estão vendo? Estamos presos!

MULHER 1 - Questão de segurança, companheiro.

MULHER 2 - Se quiser pensar que está preso, pode.

OTÁVIO -  Fiquem à vontade. Amanhà a gente conversa.

As duas mulheres saem.

DOS PASSOS - Mas o que é que está acontecendo?

TUBAÍNA - Otávio, e o álcool?

DOM GERALDO - Afinal, é Otávio ou Diogo?

OTÁVIO - Vocês estão na pior. Iam dormir na rua e seriam presos novamente. Eu estou oferecendo o que eu posso e o que eu posso é isso aqui. Sem perguntas, por favor.

TUBAINA - Só uma. E o álcool?

OTÁVIO - Vou ver se arrumo alguma coisa para vocês comerem. Não esperem muito.

TUBAINA - Por favor, moço: um litro de álcool com iodo, pode ser? Olha só, não dá nem pra ver o bruto... Tá parecendo um velho...

OTÁVIO - Vou ver o que eu posso fazer.

Otávio sai.

DOM GERALDO - Se vocês querem saber, a gente estava melhor lá fora. Isso aqui é a maior fria.

DOS PASSOS - Não gostei do jeito que as mulheres me olharam.

SIC TRANSIT - Maior fome...

 

Pequeno B.O.

 

Entra Mulher 1 com um embrulho. Todos rodeiam. Ela abre. Além do pão, tem queijo e presunto.

MULHER 1 - (para Tubaina) O que que tem dentro deste embrulho?

TUBAÍNA - Um caralho, minha senhora! Um caralho!

MULHER 1 - Engraçadinho. Vamos mostrando. (tira uma arma) Questão de segurança interna.

DIOM GERALDO - Um momento, minha filha!

MULHER 1 - Quieto aí. Não sei onde o Diogo estava com a cabeça.

Entra Otávio com um vidro de álcool e outro de iodo.

OTÁVIO - Consegui, Tubaína. Iodo e álcool.

MULHER 1 - Meu Deus, um molotov a menos...

Otávio e Tubaína vão até a lata. Mulher 1 vai atrás para olhar. Tubaína joga o liquido sujo numa lata que estava por ali. Tubaína levanta Pilatos e dá uma balançadinha nele espirrando liquido na Mulher 1 que dá um gritinho histérico. Otávio joga os dois líquidos novos no vidro, numa operação química ginasiana. Tubaina admirando o proprio pênis.

MULHER 1 - Se as bases ficam sabendo...

TUBAINA - Está outra coisa! Obrigado, Otávio.

MULHER 1 - Diogo!

Otávio puxa a Mulher 1 para fora.

MULHER 1 - (para Dos Passos) Estou de olho em você. Já te vi em algum lugar.

Saem os dois.

DOM GERALDO - Eu sugiro a gente sair daqui o mais rapido possivel. Estamos dentro de um aparelho da extrema esquerda e tudo pode acontecer. Viu ela falando em coquetel molotov?

TUBAINA - O que é isso?

DOM GERALDO - Imagina você colocar um pavil fora deste vidro, colocar fogo no pavio e jogar o vidro longe. O que é que aocntece?

TUBAINA -  Linguiça frita...

DOM GERALDO - Eles estão cheios de armas. Sinto no ar. Fuzis, granadas, um arsenal! Devem ser especialistas em assaltos a bancos para financiar guerrilhas. Se eles descobrem o seu passado de integralista, Dos Passos...

DOS PASSOS - Pois eu acho que aquela mulher me reconheceu de algum lugar.

DOM GERALDO - Vamos fugir.

TUBAINA - Sou contra. O Otavio não faria nada contra nós. Olha como ficou bonito.

DOM GERALDO - E esse aí que só pensa no próprio pau?

DOS PASSOS- O Otavio só nos trouxe aqui porque acha que a gente também é comunista. Confio nele. É gente boa.

DOM GERALDO - Nunca gostei desse menino. Nunca.

SIC TRANSIT - (deitado num canto) Vamos dormir, ou não?

Entra Otávio e a discussão pára.

OTÁVIO - Quero ser bem claro. Arranjei isso para vocês por essa noite. Amanhã vocês vão sair bem cedo e vão ter que se virar. Logo cedinho vem aqui uma turma e vão levar vocês para fora da cidade. Esqueçam que estiveram aqui e, sobretudo, me esqueçam.

Otávio sai. B.O