TUBAÍNA - Mas a Brasil é muito
grande...
DOM GERALDO - Mas eu sei... mais ou
menos.
TUBAÍNA - Mas pra que que você quer
saber? O que que importa isso?
DOM GERALDO - Vou tomar umas providências.
Dos Passos e Tubaína se entreolham. Sic
Transit abaixa a cabeça e sai andando.
DOS PASSOS - Ei velho, vai aonde que
pensa que vai?
SIC TRANSIT - Pru Centro. Pedir esmola.
Os três se entreolham e começam a
seguir o velho.
DOS PASSOS - (para Dom geraldo) Melhor não
tomar providência nenhuma, Geraldão.
DOM GERALDO - E você? Você não é
radical de direita? Um facista convicto?
DOS PASSOS - O Otávio nos ajudou.
DOM GERALDO - Precisamos resolver a nossa
situação atual. Ninguém tem um tostão. Essa que é a
verdade.
TUBAÍNA - (para Sic Transit) Saudades da
Deise, Sic Transit... Será que ela se lembra de mim?
SIC TRANSIT - Mulher nenhum no mundo se
esquece de um homem sem pau...
TUBAINA - Aquela tranquilidade de saber
que não vai ter que gozar, que não vai ter que ficar de pau
duro, que não vai ter que provar porra nenhuma...
DOS PASSOS - Pessoal, a gente tem que se
organizar. O Sic Transit vai pedir esmola na rodoviária. Esse
seu aspecto miserável infunde um certo respeito.
TUBAÍNA - Vou tentar o emprego de garçom
naquele bar que eu te falei, lembra? O bar do tal do gringo.
DOS PASSOS - De noite a gente se encontra
na República.
DOM GERALDO - Você, vai fazer o que?
DOS PASSOS - Procurar uns contatos. Ver
se eu des colo algum. E você?
DOM GERALDO - Procurar uns contatos. Ver
se eu descolo algum.
Cada um sai para um lado.Fica apenas Tubaína
com seu vidro empilatado. Tubaína coloca o vidro no chão e
senta-se em cima.
TUBAÍNA - Não foi por acaso que isso aconteceu comigo. Ficar
sem você. Não, não foi. Tinha que ser comigo. Devia estar
escrito em algum lugar. Eu sabia, desde que eu nasci, no
interior da Bahia, que alguma coisa desse tipo ia acontecer
comigo. Ou isso ou ficar cego. Tinha que ser comigo. Quem
mais? Eu sou o símbolo, o exemplo dos homens sem pau! O símbolo
daquele cara errado, daquele cara fudido, daquele cara
submisso, daquele cara que abaixa a cabeça, daquele cara que
leva porrada na cara e não reage, daquele cara que mente para
ele mesmo, daquele cara que pensa que é feliz, daquele cara
que pensa que... É isso que eu sou: um homem sem pau! Um
homem sem pau que está tentando viver às custas do próprio
pau. Isso se o Dos Passos arrumar outra mamata daquela. Mas
sem araminho, né, Pilatos? Sem araminho. Pilatos, você não
sabe como eu gosto de você. Você não sabe o ciúme que eu
tenho de você. Quando alguém te olha... Mas a Deise, não. A
Deise... Acho que é porque ela nunca te pegou. Mas ela sim,
eu deixaria pegar... (ele pega Pilatos nas mãos) Pilatos,
Pilatos, por quanto tempo você vai conseguir viver aí
dentro? O que é que eu vou fazer sem você depois, Pilatos?
Hein, Pilatos? (chora abraçado a Pilatos)