PILATOS, VIDA E OBRA (inédita)

CRÍTICA

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Sem lenço, sem documento

Num lugar ermo, chegam os quatro encapuçados, com as duas mulheres.

MULHER 1 - Contem até l0 e podem tirar os capuzes.

MULHER 2 - Mas não se esqueçam de uma coisa: vocês não devem se lembrar de nada. Vocês não viram nada, não sentiram cheiro nenhum (cutuca Dom Geraldo) Principalmente o senhor. Guardamos muito bem a cara de vocês todos. Ouviu? (para Dos Passos) Todos!

MULHER 1 - Podem começar a contar.

As duas mulheres vão saindo.

MULHER 2 - (para a outra) Não sei onde o Otávio tava com a cabeça.

As duas agora saem correndo. Eles tiram os capuzes. Se olham.

DOS PASSOS -  (dando uma geral no local) Precisavam deixar a gente fora da cidade, precisavam?

DOM GERALDO - Comunistas! O que importa é que a gente tá livre e eu tenho uma pista.

TUBAÍNA - Pista do que?

DOM GERALDO - Pista, uma pista, ora! Do lugar onde a gente tava. A gente dormiu perto da Brasil.

TUBAÍNA - Mas a Brasil é muito grande...

DOM GERALDO - Mas eu sei... mais ou menos.

TUBAÍNA - Mas pra que que você quer saber? O que que importa isso?

DOM GERALDO - Vou tomar umas providências.

Dos Passos e Tubaína se entreolham. Sic Transit abaixa a cabeça e sai andando.

DOS PASSOS - Ei velho, vai aonde que pensa que vai?

SIC TRANSIT - Pru Centro. Pedir esmola.

Os três se entreolham e começam a seguir o velho.

DOS PASSOS - (para Dom geraldo) Melhor não tomar providência nenhuma, Geraldão.

DOM GERALDO - E você? Você não é radical de direita? Um facista convicto?

DOS PASSOS - O Otávio nos ajudou.

DOM GERALDO - Precisamos resolver a nossa situação atual. Ninguém tem um tostão. Essa que é a verdade.

TUBAÍNA - (para Sic Transit) Saudades da Deise, Sic Transit... Será que ela se lembra de mim?

SIC TRANSIT - Mulher nenhum no mundo se esquece de um homem sem pau...

TUBAINA - Aquela tranquilidade de saber que não vai ter que gozar, que não vai ter que ficar de pau duro, que não vai ter que provar porra nenhuma...

DOS PASSOS - Pessoal, a gente tem que se organizar. O Sic Transit vai pedir esmola na rodoviária. Esse seu aspecto miserável infunde um certo respeito.

TUBAÍNA - Vou tentar o emprego de garçom naquele bar que eu te falei, lembra? O bar do tal do gringo.

DOS PASSOS - De noite a gente se encontra na República.

DOM GERALDO - Você, vai fazer o que?

DOS PASSOS - Procurar uns contatos. Ver se eu des            colo algum. E você?

DOM GERALDO - Procurar uns contatos. Ver se eu descolo algum.

Cada um sai para um lado.Fica apenas Tubaína com seu vidro empilatado. Tubaína coloca o vidro no chão e senta-se em cima.

TUBAÍNA - Não foi por acaso que isso aconteceu comigo. Ficar sem você. Não, não foi. Tinha que ser comigo. Devia estar escrito em algum lugar. Eu sabia, desde que eu nasci, no interior da Bahia, que alguma coisa desse tipo ia acontecer comigo. Ou isso ou ficar cego. Tinha que ser comigo. Quem mais? Eu sou o símbolo, o exemplo dos homens sem pau! O símbolo daquele cara errado, daquele cara fudido, daquele cara submisso, daquele cara que abaixa a cabeça, daquele cara que leva porrada na cara e não reage, daquele cara que mente para ele mesmo, daquele cara que pensa que é feliz, daquele cara que pensa que... É isso que eu sou: um homem sem pau! Um homem sem pau que está tentando viver às custas do próprio pau. Isso se o Dos Passos arrumar outra mamata daquela. Mas sem araminho, né, Pilatos? Sem araminho. Pilatos, você não sabe como eu gosto de você. Você não sabe o ciúme que eu tenho de você. Quando alguém te olha... Mas a Deise, não. A Deise... Acho que é porque ela nunca te pegou. Mas ela sim, eu deixaria pegar... (ele pega Pilatos nas mãos) Pilatos, Pilatos, por quanto tempo você vai conseguir viver aí dentro? O que é que eu vou fazer sem você depois, Pilatos? Hein, Pilatos? (chora abraçado a Pilatos)