PILATOS, VIDA E OBRA (inédita)

CRÍTICA

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Pilatos conhece Deise ou vice-versa

Tubaína caminha pela rua. Mete a mão no bolso. Não tem mais nem um tostão. Olha para o vidro. Pensa, repensa.

TUBAÍNA - Pilatos, você vai me desculpar muito, mas muito mesmo, mas eu vou ser obrigado a pôr você no prego. Vou te empenhar, caralho. Qual é o prpblema? Tem gente que empenha punhal, cartucho de diploma, caneta, furadeira  eletrônica, bengalas, charutos cubanos, muletas,... Vou lá, te empenho, pego a grana, tiro as coisas da pensão da dona Augusta, arrumo umas roupas melhores e vou procurar emprego. Recebo o meu salário e vou te pegar de novo. Certo? (pausa, como se escutasse) O duro vai ser convencer os caras que você tem tanto valor para mim, ou até mais, que uma muleta, por exemplo.

Chega na Caixa Econômica. Vai até o balcão. Uma moça vem atendê-lo.

TUBAÍNA - (completamente constrangido) Boa tarde.

MOÇA - Boa tarde.

Tubaína está meio encabulado em negociar o Pilatos com uma mulher.

TUBAÍNA - Calor, né?

MOÇA - Muito. Que que é?

TUBAÍNA - Quê que é, o que?

MOÇA - O objeto. Vai penhorar o que?

TUBAINA - Ah, sim. O objeto, claro!

MOÇA - Sim, o objeto, o que é?

TUBAÍNA - O objeto, moça, é o seguinte: é um objeto de uso pessoal. Mas muito pessoal mesmo. Pode colocar pessoal nisso. Escuta,. não tem nenhum homem para atender na repartição, não?

MOÇA - Homem? Tem o meu chefe. Mas qual é o problema?

TUBAÍNA - Não tem problema nenhum. É o objeto, o problema. Quer dizer, não tem problema. Tem o objeto, né?

MOÇA - Sim, mas qual é o objeto?

TUBAÍNA - O problema é o objeto. Dá para chamar o homem? O seu chefe?

MOÇA - Olha, eu vou falar com o seu Alcides, mas acho que ele não vai atender o senhor, não. Tá até aqui de processo para despachar ainda... este mês. Faltou uma semana porque a esposa deu à luz. Tirou licença. A esposa teve problema. Quer dizer, a criança. Nasceu sem o torax, dá para entender. Diz que os braços saiam aqui da garganta. Surda-muda também. Dizem que ele e a mulher estão para se separar. Ele não perdoa isso nela. Acha que a culpa foi dela que bebeu muita maconha nos anos sessenta. Dizem que ele só esperou ela dar a luz para se separar dela. Ele fala alto, não repara. É que a esposa também é surda e muda. Minutinho só. (vai saindo, volta) Ah, a criança não morreu!

Moça sai. Tubaína abre um pouquinho o embrulho para olhar Pilatos.

Moça volta com o chefe, o seu Alcides.

ALCIDES - (sempre muito alto) Pois não!

TUBAÍNA - Boa tarde...

ALCIDES - Boa tarde. Qual é o problema com o objeto?

TUBAÍNA - Problema nenhum. O objeto está aqui dentro.

ALCIDES - E qual é o problema do objeto, meu rapaz?

Tubaína puxa Alcides para o lado. A Moça tenta ouvir e ver o que se segue.

TUBAÍNA - Seguinte, seu chefe. Custa muito a explicar. É uma coisa muito valiosa para mim. Prometi nunca me separar dele. Mas a vida ficou dificil. Muito difícil. Além do mais, seu chefe, se eu deixar aqui, penhorado, ele vai continuar sendo meu - não é verdade? - e quando as coisas melhorarem, eu venho buscar ele de volta. Eu não posso me separar dele. Faz parte de mim...

ALCIDES - Aqui não é depósito de objetos pessoais, rapaz! nós não podemos...

TUBAÍNA - Sei, sei... Eu só queria deixar claro que o objeto é de muita estimação. De qualquer maneira, aconteça o que acontecer na minha vida, eu venho buscar ele. Não se preocupem  com o dinheiro que eu vou levar hoje.

ALCIDES - Mas qual é o objeto, afinal?

Ele fala no ouvido de Alcides. Alcides fica pasmo. Dá um passo atrás, com nojo do embrulho. Depois de alguns segundos:

ALCIDES - Não entendi.

Tubaína fala novamente no ouvido dele. Fala muito. Alcides fica em dúvida. Será possível que dentro daquele embrulho tem um vidro com um pênis dentro? Olha incrédulo para Tubaína.

ALCIDES - Quero ver!

Tubaína abre um pouco o jornal e Alcides olha. Reflete por alguns segundos. A Moça vai até ele, curiosa.

MOÇA - Quê que é, hein?

ALCIDES - Me chama o Antunes. Isso está além das minhas atribuições.

Moça sai. Alcides vai até lá e dá mais uma filadinha no vidro. Entra Antunes. Alcides pega Antunes pelo braço, vai a um canto e fica falando no ouvido dele. Moça tentando ouvir. Antunes fica incrédulo.

Antunes se aproxima de Tubaína

ANTUNES - Quero ver

TUBAINA - Pois não.

Tubaina mostra. A Moça se aproxima para ver também.

ALCIDES - Melhor não, Veroca.

Mas ela está doida de vontade de ver. Tubaína percebe e mostra para

ela. Ela dá um grito e sai correndo.

ALCIDES - O que você acha, Antunes?

ANTUNES - Melhor falar com o gerente, Alcides. Olha ele aí.

Entra seu Ozanam trazido pela Veroca, que aponta o vidro.

OZANAM - Mas afinal, o que é que está acontecendo aqui dentro?

ANTUNES - Seu Ozanam, tem um provérbio, ou coisa parecida - se o senhor me permite - que diz mais ou menos assim: a imagem diz mais que qualquer palavra. Este sujeito quer empenhar isto!

Antunes leva Ozanam até o embrulho. Tubaína mostra para ele.

OZANAM - (não percebe) Mas o que é isso? Você quer empenhar uma linguiça? Ora, faça-me o favor...

ALCIDES - Não é bem uma linguiça, seu Ozanam... Quer dizer, trata-se de uma linguiça, sem dúvida alguma, mas é a própria linguiça dele. O senhor me entende?

OZANAM - Claro que eu entendo. Se ele quer empenhar uma linguiça, presume-se que a linguiça seja dele. Ou não?

ANTUNES - Com todo o respeito, seu Ozanam, o que ele está querendo empenhar é o seu próprio - desculpe... - órgão!

OZANAM - Órgão? Mas ali tem é uma linguiça...

ALCIDES - Pica...

OZANAM - Ah, pica...

Ozanam vai olhar. Pensa.

OZANAM - Vamos falar com o doutor Santana. Antunes, traga o objeto.

ANTUNES - Alcides, traga o objeto.

ALCIDES - Traga o objeto, Veroca!

VEROCA - Eu? Logo eu?

Veroca sai carregando o embrulho como se fosse um ostensório com a hóstia consagrada. Tubaína fica sozinho, ansioso.

TUBAÍNA - (pensando alto) Quanto será que está valendo hoje em dia um tipo como ele, dentro de um vidro, na praça? Um objeto jovem como o Pilatos, 33 anos, nenhuma veia saltada, nenhuma verruga, nenhum pelo encravado, muitíssimo bem operado de fimose, diga-se de passagem...

Entra Deise, empurrando o vidro num carrinho de escritório.

DEISE - É do senhor?

TUBAÍNA - Perfeitamente.

DEISE - É para o senhor deseparecer imediatamente com isso daqui.

TUBAINA - (vai argumentar, mas desiste) Está bem. Desculpe a amolação.

Pega o embrulho e vai saindo.

DEISE - Psiu. Seu moço, psiu...

TUBAINA - Comigo?

DEISE - Quem mais? Alguém escreveu um bilhetinho aí no embrulho.

TUBAÍNA - Bilhete?

Deise some.

TUBAÍNA - (lendo) "Espere-me às cinco horas, na esquina da Roberto Freitas com Norival de Barros. Posso ajudar".

B.O.