Moça sai. Tubaína abre um
pouquinho o embrulho para olhar Pilatos.
Moça volta com o chefe, o seu
Alcides.
ALCIDES - (sempre muito alto)
Pois não!
TUBAÍNA - Boa tarde...
ALCIDES - Boa tarde. Qual é o
problema com o objeto?
TUBAÍNA - Problema nenhum. O
objeto está aqui dentro.
ALCIDES - E qual é o problema
do objeto, meu rapaz?
Tubaína puxa Alcides para o
lado. A Moça tenta ouvir e ver o que se segue.
TUBAÍNA - Seguinte, seu chefe.
Custa muito a explicar. É uma coisa muito valiosa para mim.
Prometi nunca me separar dele. Mas a vida ficou dificil. Muito
difícil. Além do mais, seu chefe, se eu deixar aqui,
penhorado, ele vai continuar sendo meu - não é verdade? - e
quando as coisas melhorarem, eu venho buscar ele de volta. Eu
não posso me separar dele. Faz parte de mim...
ALCIDES - Aqui não é depósito
de objetos pessoais, rapaz! nós não podemos...
TUBAÍNA - Sei, sei... Eu só
queria deixar claro que o objeto é de muita estimação. De
qualquer maneira, aconteça o que acontecer na minha vida, eu
venho buscar ele. Não se preocupem com o dinheiro que eu vou levar hoje.
ALCIDES - Mas qual é o objeto,
afinal?
Ele fala no ouvido de Alcides.
Alcides fica pasmo. Dá um passo atrás, com nojo do embrulho.
Depois de alguns segundos:
ALCIDES - Não entendi.
Tubaína fala novamente no
ouvido dele. Fala muito. Alcides fica em dúvida. Será possível
que dentro daquele embrulho tem um vidro com um pênis dentro?
Olha incrédulo para Tubaína.
ALCIDES - Quero ver!
Tubaína abre um pouco o jornal
e Alcides olha. Reflete por alguns segundos. A Moça vai até
ele, curiosa.
MOÇA - Quê que é, hein?
ALCIDES - Me chama o Antunes.
Isso está além das minhas atribuições.
Moça sai. Alcides vai até lá e
dá mais uma filadinha no vidro. Entra Antunes. Alcides pega
Antunes pelo braço, vai a um canto e fica falando no ouvido
dele. Moça tentando ouvir. Antunes fica incrédulo.
Antunes se aproxima de Tubaína
ANTUNES - Quero ver
TUBAINA - Pois não.
Tubaina mostra. A Moça se
aproxima para ver também.
ALCIDES - Melhor não, Veroca.
Mas ela está doida de vontade
de ver. Tubaína percebe e mostra para
ela. Ela dá um grito e sai
correndo.
ALCIDES - O que você acha,
Antunes?
ANTUNES - Melhor falar com o
gerente, Alcides. Olha ele aí.
Entra seu Ozanam trazido pela
Veroca, que aponta o vidro.
OZANAM - Mas afinal, o que é
que está acontecendo aqui dentro?
ANTUNES - Seu Ozanam, tem um
provérbio, ou coisa parecida - se o senhor me permite - que
diz mais ou menos assim: a imagem diz mais que qualquer
palavra. Este sujeito quer empenhar isto!
Antunes leva Ozanam até o
embrulho. Tubaína mostra para ele.
OZANAM - (não percebe) Mas o
que é isso? Você quer empenhar uma linguiça? Ora, faça-me o
favor...
ALCIDES - Não é bem uma
linguiça, seu Ozanam... Quer dizer, trata-se de uma linguiça,
sem dúvida alguma, mas é a própria linguiça dele. O senhor me
entende?
OZANAM - Claro que eu entendo.
Se ele quer empenhar uma linguiça, presume-se que a linguiça
seja dele. Ou não?
ANTUNES - Com todo o respeito,
seu Ozanam, o que ele está querendo empenhar é o seu próprio -
desculpe... - órgão!
OZANAM - Órgão? Mas ali tem é
uma linguiça...
ALCIDES - Pica...
OZANAM - Ah, pica...
Ozanam vai olhar. Pensa.
OZANAM - Vamos falar com o
doutor Santana. Antunes, traga o objeto.
ANTUNES - Alcides, traga o
objeto.
ALCIDES - Traga o objeto,
Veroca!
VEROCA - Eu? Logo eu?
Veroca sai carregando o
embrulho como se fosse um ostensório com a hóstia consagrada.
Tubaína fica sozinho, ansioso.
TUBAÍNA - (pensando alto)
Quanto será que está valendo hoje em dia um tipo como ele,
dentro de um vidro, na praça? Um objeto jovem como o Pilatos,
33 anos, nenhuma veia saltada, nenhuma verruga, nenhum pelo
encravado, muitíssimo bem operado de fimose, diga-se de
passagem...
Entra Deise, empurrando o vidro
num carrinho de escritório.
DEISE - É do senhor?
TUBAÍNA - Perfeitamente.
DEISE - É para o senhor
deseparecer imediatamente com isso daqui.
TUBAINA - (vai argumentar, mas
desiste) Está bem. Desculpe a amolação.
Pega o embrulho e vai saindo.
DEISE - Psiu. Seu moço, psiu...
TUBAINA - Comigo?
DEISE - Quem mais? Alguém
escreveu um bilhetinho aí no embrulho.
TUBAÍNA - Bilhete?
Deise some.
TUBAÍNA - (lendo) "Espere-me às
cinco horas, na esquina da Roberto Freitas com Norival de
Barros. Posso ajudar".
B.O.