Otto Maria Carpeaux
Pilatos é originalíssimo. Não tem
semelhança com nenhuma outra obra da literatura brasileira.
Talvez Carlos Heitor Cony fosse predestinado para escrever
assim. Pois certos germes de Pilatos já se encontram em obras
suas, anteriores. Mas desta vez, também é singular o estilo
em que Cony escreveu. É um estilo altamente pessoal. Só
podia ser ele. Mas o resultado, a obra, tem importância para
todos nós. A leitura provoca gargalhadas.
São inúmeras as situações e trechos
de humorismo abundante e irresistível (só prceiso lembrar a
cena em que o sujeito, sendo obrigado a masturbar-se, apenas
encontra, para sua animação, uma revista de turfe).Mas
tem-se o direito de rir, de somente rir, desses episódios?
Acho que não. Um doutor da Igreja disse que o "sábio só
ri tremento", e "sábios", sabedores de nossa
situação somos todos nós.
Que nos resta? Chorar? Não. Um outro,
que não era doutor nem da Igreja, disse muito bem: "Je
me presse de rire de tout, de peur d|être obrigé d|en
pleurer." O humor abundante de Pilatos está cheio de símbolos,
ou então, é mesmo o símbolo de uma tristeza desconsolada.
Quem tiver lido Pilatos estará melhor informado: sentindo
toda a infelicidade de nossa condição humana e desumana.
E que se pode esperar de uma obra de
arte?