PILATOS, VIDA E OBRA (inédita)

CRÍTICA

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Os passos de Dos Passos

É noite. Tubaína chega numa praça. Está sendo seguido. Senta-se num banco. No outro, senta-se Dos Passos, sujeito que estava no bar, na cena anterior. Tubaína ajeita o vidro entre as pernas, estica o pescoço, ficando com a bunda na beiradinha do banco e a cabeça recostada no encosto. Esperando o sono vir, o sol nascer.

Dos Passos passa para o banco de Tubaína.

DOS PASSOS - Merda de vida!

Tubaína olha para ele, resolve não dizer nada. Como se concordasse.

DOS PASSOS - São uns putos!

Tubaína concorda, para não ter que discutir. Não está a fim de levar  papo com ninguém, muito menos com um desconhecido num banco de praça. Está a fim é de dormir. Mas Dos Passos cisma que Tubaína está a fim de levar papo.

DOS PASSOS - Um dia desses um tomo coragem e faço uma loucura! (Tubaína concorda com a cabeça) Sou escritor! (Tubaína nem aí, ele resolve mudar o tema) Odeio as mulheres! (Tubaína nem aí) Posso ver qualquer mulher, a mulher mais bonita e gostosa do mundo - posso ver a Leila Diniz, manja? - e não sofro nada. Absolutamente nada! Agora eu me preocupo com outras coisas.

TUBAÍNA - Que coisas, por exemplo?

DOS PASSOS - Literatura e política. O socialismo, os comunistas! Sou radical de direita! Sou um facista, entende? Odeio todas as esquerdas! Todas! Principalmente as deste país. E sabe por que? Porque a esquerda sempre leva vantagem em tudo! Na política, por exemplo: a direita trabalha, trabalha, trabalha e a esquerda só mete o pau. E ainda acaba fazendo as revoluções. O cabelo, por exemplo: quem penteia? Quem penteia? A direita. A esquerda só vai ajeitando, só na maciota. Tirar água do poço. Quem vira o sarilho? A direita. A esquerda só vai ajeitando a corda, alisando. Quem puxa o balde? A esquerda, mas quem carrega é a direita. Até no carro. Pode reparar. de que lado fica o câmbio? Então. A esquerda, só tomando sol. Na siririca. Quem bate? A direita. A esquerda fica só segurando a revista.

Dos Passos se cala. Fica esperando Tubaína falar alguma coisa. Mas ele pega o embrulho como se fosse para ir embora.

DOS PASSOS - Não, não vai embora, não! Fique com a gente...

Tubaína olha em volta. Não tem ninguém.

DOS PASSOS - Fique com a gente. Gostei da sua cara. Fez bem em se castrar. As mulheres não estão com nada!

TUBAINA - Eu não me... (cai em si) Como é que você sabe?

DOS PASSOS - Tava no bar. Me interessei. Já disse: sou escritor! Posso escrever a sua vida! Posso ser o seu biógrafo ambulante...

TUBAÍNA - Bobagem...

DOS PASSOS - Um homem assim como você... é um grande personagem. Como é o seu nome?

TUBAÍNA - Pode me chamar de Tubaína.

DOS PASSOS - (ilumina-se) Já tenho até o nome para a sua biografia: TUBAÍNA, O HERÓI SEM NENHUM CARALHO!!!

Tubaína não entende e ameaça ir embora de novo.

DOS PASSOS - Vai dormir aqui? Essa noite você não pode ir dormir na nossa casa. Tivemos uns probleminhas de - digamos - ordem política, digamos assim. Mas, a partir de amanhã... Não podemos facilitar. Vamos passar a noite aqui mesmo. Ou na praia. Pra ver o sol raiar, nascer.

TUBAÍNA - Não estou nem um pouco interessado em ver porra nenhuma de sol nascer!

DOS PASSOS - (segura o braço dele) Vamos, homem: você é um Tubaina! E todo Tubaina gosta de ver o sol nascer. Fiodor Dostoiévski!

Dos Passos sai arrastando ele.

DOS PASSOS - Deixa que eu carrego.

TUBAÍNA - Não. Fico sempre com ele. Não posso me separar dele.

DOS PASSOS - Está certo. Eu compreendo (vão caminhando) Sempre que eu posso, vejo o sol nascer. Faz bem. É importante, sabe? Ver nascer um novo dia. Meu nome é Dos Passos!

TUBAÍNA - (olhando Pilatos) Mas... pra que um novo dia? Pra que?