TUBAÍNA - (sentado na cama, para ele
mesmo) A idéia é boa, mas não ia dar certo. A prefeitura ia
acabar tomando conta do negócio e a gente ia continuar na miséria.
Logo iam criando um instituto, alguma coisa, para tomar conta
dele, filho de militar não ia pagar pra ver, por aí.
DEISE - O que?
TUBAINA - Nada. Sonhei.
Tubaina volta a dormir.
Um jogo de luz leva esta mesma cena para
a seguinte.
DEISE, ATO DOIS
Tubaína dormindo na cama de Deise. Ela
está admirando Pilatos. Continuação imediata da sequência
anterior. Ela pega o vidro, leva para a cama e fica olhando.
Ela ameaça pegar Pilatos que bóia lá dentro. Ela quer, mas
tem medo, pecado, culpa, religiao. Abre o vidro.
DEISE - Pega... Pega... Pega... (mas não
pega) Meu Deus, que complexo de culpa, meu Deus! Pega, mulher,
é pinto morto, é pinto frio! Não pode ser pecado uma coisa
dessas! (meiga, consigo mesma) Pega, bobinha, pega... Eu sei,
Pilatos, que você quer que eu te pegue... Eu sei que você
deixa. Eu vou pegar! Quer ver? (enfia a mão lá dentro, mas não
pega) Sabe como é que é na minha cabeça? Eu tenho medo de
pegar você e você crescer na minha mão, ir ficando grande,
grande, como daquele soldado...
Deise começa a chorar. Tubaína acorda.
Vê que o vidro está destampado.
TUBAÍNA - (meigo, amigo) O que foi? Por
que que ele está destampado?
DEISE - Eu queria pegar, mas não
consegui.
TUBAÍNA - Bobagem. Pode pegar. Eu deixo.
Não cobro mais caro, não.
DEISE - Não é pelo dinheiro, não. É
que eu não tenho mesmo coragem de pegar um... um negócio
desse, nem com ele morto!
TUBAÍNA - Morto, o caralho! (Tubaína
enfia a mão e pega) Veja! Pega...
DEISE - Não consigo.
TUBAÍNA - Então faz só carinho...
Passa a mão devagarzinho... (ele passa o dedo, de leve,
carinhoso, com amor, sem sacanagem) Tá vendo? Não morde. Não
acontece nada. Vai, passa. Você vai gostar. Ele tá tão
fresquinho... (ela passa o dedo, de leve, com muito medo)
Agora pega com a mão toda, pega, vamos.
DEISE - Não, eu não consigo, Tuba!
(começa a chorar novamente)
Ela se levanta, pega um dinheiro e dá
para ele.
DEISE - Toma! Leva ese dinheiro e nunca
mais me apareca aqui. Nem você, nem ele.
TUBAÍNA - Não precisa pagar.
DEISE - Mas eu quero pagar.
TUBAINA - Mas não precisa. Me dá prazer
ficar um pouco toda semana, dormir bem, sonhar com as loucuras
do Dos Passos... Eu gosto daqui.
DEISE - Verdade? Não acredito. Sou tão
feia... nem consigo pegar nele...
TUBAÍNA - Feio sou eu, que nem tenho
ele.
DEISE - (limpando as lágrimas) Imagina,
bobinho... Toma o dinheiro. Sei que você está duro.
TUBAINA - Não, no duro. Se você deixar,
eu volto toda semana. Sem pagamentos...
DEISE - Você é quem sabe. Eu gosto de
você, sabia? (alisa o rosto dele) No seu rosto eu tenho
coragem, olha aí.
Ela sorri para ele. Ele sorri para ela.
Ele abre a blusa dela e os seios saltam para fora. Ele pega Pilatos
e o passa, muito de levemente nos seios dela que vai delirando muito
levemente também. A luz vai caindo com esse carinho de Tubaína ao
mesmo tempo que foi subindo música romântica. No finalzinho
da luz, se percebe que eles se abraçaram.