PILATOS, VIDA E OBRA (inédita)

CRÍTICA

TEXTO COMPLETO

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O grande sonho

A cena deve dar a idéia de um sonho, no que tange à luz, figurino, marcação, música e interpretação. É um sonho, não é uma realidade. É um sonho/monólogo com Dos Passos. Enquanto ele vai dizendo o texto  dele, temos uma ação na casa de Deise. Tubaina dorme e Deise está a admirar Pilatos dentro do vidro. As duas cenas são misturadas.  Mas é como quem estivesse sonhando fosse o Tubaina, como se Tubaína estivesse vendo, num sonho, o discurso de Dos Passos. Pilatos está numa espécie de altar na casa de Deise. Só no final da cena é que Deise vai colocar o vidro na cama e começar a cena dela.

DOS PASSOS - Basta apenas um pouco de dinheiro e muita cabeça! Nós vamos lá no alto do Corcovado, de noite, e explodimos a estátua do Cristo Redentor. Destruída a imagem, nós fazemos um monumento a "ele" e colocamos lá em cima. Evidentemente que precisa ser uma réplica enorme, que possa ser vista de longe, apontando para o céu. Um troço do tamanho de Cristo. De noite será super-ilumindo. Turistas irão visitar ele. O caralho será o símbolo do povo deste país, o símbolo desta cidade, o símbolo deste país. O símbolo do país: um pau rijo, duro, erguido para o céu. O cartão postal do país! (pausa, pensa) Vamos precisar de dinamite para destruir o atual Cristo Redentor. Verba para movimentar a opinião pública à favor da ideia. Dinheiro, para subornar as autoridades. Precisamos contratar uma boa agência de publicidade, interessar as classes produtoras, o clero, os órgãos oficiais de turismo, as Forças Armadas, convencer o doutor Roberto Marinho a fazer um Globo Reporter. (pausa, pensa) Agora, não adianta só fazer a estátua dele. É preciso que dentro desta estátua imensa, esteja o verdadeiro Pilatos, para justificar o empreendimento. (olhando para o vidro) Você será conservado dentro de uma ampola de cristal, ao pé do monumento. Na realidade, o Pilatos de concreto será uma espécie de sacrário que abrigará um pau verdadeiro de carne e osso. Conheço o mundo. Em Nápolis, tem uma Igreja que te um coração e que, de vez em quando, sai sangue. Maior truque! Fica assim de gente! Pois você, Pilatos, todo noite de carnaval, toda terça-feira de carnaval, você, Pilatos, diante dos olhos de milhares de turistas do mundo todo, você vai, Pilatos, você vai ejacular!

Por algum efeito de luz, passamos do sonho para a realidade, com o súbito acordar de Tubaína. Voltamos à realidade. Dos Passos sumiu. Deise continua a olhar para Pilatos no altar.

TUBAÍNA - (sentado na cama, para ele mesmo) A idéia é boa, mas não ia dar certo. A prefeitura ia acabar tomando conta do negócio e a gente ia continuar na miséria. Logo iam criando um instituto, alguma coisa, para tomar conta dele, filho de militar não ia pagar pra ver, por aí.

DEISE - O que?

TUBAINA - Nada. Sonhei.

Tubaina volta a dormir.

Um jogo de luz leva esta mesma cena para a seguinte.

DEISE, ATO DOIS

 

Tubaína dormindo na cama de Deise. Ela está admirando Pilatos. Continuação imediata da sequência anterior. Ela pega o vidro, leva para a cama e fica olhando. Ela ameaça pegar Pilatos que bóia lá dentro. Ela quer, mas tem medo, pecado, culpa, religiao. Abre o vidro.

DEISE - Pega... Pega... Pega... (mas não pega) Meu Deus, que complexo de culpa, meu Deus! Pega, mulher, é pinto morto, é pinto frio! Não pode ser pecado uma coisa dessas! (meiga, consigo mesma) Pega, bobinha, pega... Eu sei, Pilatos, que você quer que eu te pegue... Eu sei que você deixa. Eu vou pegar! Quer ver? (enfia a mão lá dentro, mas não pega) Sabe como é que é na minha cabeça? Eu tenho medo de pegar você e você crescer na minha mão, ir ficando grande, grande, como daquele soldado...

Deise começa a chorar. Tubaína acorda. Vê que o vidro está destampado.

TUBAÍNA - (meigo, amigo) O que foi? Por que que ele está destampado?

DEISE - Eu queria pegar, mas não consegui.

TUBAÍNA - Bobagem. Pode pegar. Eu deixo. Não cobro mais caro, não.

DEISE - Não é pelo dinheiro, não. É que eu não tenho mesmo coragem de pegar um... um negócio desse, nem com ele morto!

TUBAÍNA - Morto, o caralho! (Tubaína enfia a mão e pega) Veja! Pega...

DEISE - Não consigo.

TUBAÍNA - Então faz só carinho... Passa a mão devagarzinho... (ele passa o dedo, de leve, carinhoso, com amor, sem sacanagem) Tá vendo? Não morde. Não acontece nada. Vai, passa. Você vai gostar. Ele tá tão fresquinho... (ela passa o dedo, de leve, com muito medo) Agora pega com a mão toda, pega, vamos.

DEISE - Não, eu não consigo, Tuba! (começa a chorar novamente)

Ela se levanta, pega um dinheiro e dá para ele.

DEISE - Toma! Leva ese dinheiro e nunca mais me apareca aqui. Nem você, nem ele.

TUBAÍNA - Não precisa pagar.

DEISE - Mas eu quero pagar.

TUBAINA - Mas não precisa. Me dá prazer ficar um pouco toda semana, dormir bem, sonhar com as loucuras do Dos Passos... Eu gosto daqui.

DEISE - Verdade? Não acredito. Sou tão feia... nem consigo pegar nele...

TUBAÍNA - Feio sou eu, que nem tenho ele.

DEISE - (limpando as lágrimas) Imagina, bobinho... Toma o dinheiro. Sei que você está duro.

TUBAINA - Não, no duro. Se você deixar, eu volto toda semana. Sem pagamentos...

DEISE - Você é quem sabe. Eu gosto de você, sabia? (alisa o rosto dele) No seu rosto eu tenho coragem, olha aí.

Ela sorri para ele. Ele sorri para ela. Ele abre a blusa dela e os seios saltam para fora. Ele pega Pilatos e o passa, muito de levemente nos seios dela que vai delirando muito levemente também. A luz vai caindo com esse carinho de Tubaína ao mesmo tempo que foi subindo música romântica. No finalzinho da luz, se percebe que eles se abraçaram.