PILATOS, VIDA E OBRA (inédita)

CRÍTICA

TEXTO COMPLETO

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O cafetão castrado

Tubaína está parado na tal esquina, com o embrulho debaixo do braço. Deise chega por trás e o cutuca. Ele se vira.

DEISE - Sou eu... Deise...

Ela deu-se um trato. Ficou pior ainda. Colares, dedos cheios de anéis, muita maquiagem. É velha, acabada, a nossa Deise.

TUBAÍNA - (visivelmente decepcionado) Claro... A senhora...

DEISE - Deise... Da Caixa...

TUBAÍNA - Eu estava esperando a senhora... Quer dizer, eu esperava alguém, né? O bilhetinho, né?

DEISE - Não se assuste, mas... Mas vamos lá para a minha casa? Vou estar sozinha e o senhor não tem nada a temer. Pode ficar tranquilo. Sou de ótima família e concursada na Caixa. Sou lei 5.000

TUBAÍNA - Sua casa?

DEISE - Claro, não tem o menor problema. Algum problema?

TUBAÍNA - O que a senhora quer de mim?

DEISE - Depois eu explico. Olha, eu vou na frente. Moro aqui perto. Você me segue. Na segunda, vou virar para a direita, vou entrar na casa dois.

TUBAÍNA - (ressabiado) Casa dois.

DEISE - Casa dois.

Deise vai saindo, sem dar chance para um possível "não" dele. Ele e Pilatos ficam sozinhos.

TUBAÍNA - Pilatos, tudo o que eu quero é uma boa duma cama e um pouco de comida. E paz. (fica olhando Pilatos como se esperasse um resposta dele) Está bem, está bem. Vamos ver se dá para trocar o seu alcool também.

Pequeno B.O.

Voltamos já na casa de Deise. Ela abre a porta.

DEISE - Fecha, fecha logo!

TUBAÍNA - (entra, ela fecha logo a porta) Pronto. Estou aqui.

DEISE - Fala baixo, por favor. Por favor!

TUBAÍNA - Mas... por que?

DEISE - Os vizinhos... (quase sussurrando)

TUBAÍNA - Que vizinhos? Que que tem os vizinhos?

DEISE - Os vizinhos, ué. Casa um, casa três...

TUBAÍNA - Não sei falar baixo. O que é que os vizinhos têm a ver com isso?

Ela o leva para o quarto, segurando no braço dele. Estava escuro.

TUBAÍNA - Por favor, acenda a luz. Não suporto escuridão.

Ela acende a luz. Ele olha a cama. Experimenta com a ponta dos dedos.

Gosta. Ela senta-se na cama. Ele, em pé

DEISE - Fique à vontade...

TUBAÍNA - Eu estou à vontade. A senhora mora sozinha?

DEISE - Deise. Me chama de Deise.

TUBAÍNA - Está certo, dona Deise.

DEISE - Deise. Só Deise.

TUBAÍNA - Você mora sozinha, Deise?

DEISE - Estou sozinha. (pausa, observando ele) Você está na pior, não está?

TUBAÍNA - Dá pra perceber?

DEISE - Pra mim, quem vai na caixa está sempre na pior. Ou na melhor. Não tem meio termo. Eu estava naquela sala quando examinaram o seu... o seu... Sou secretária do Ozanam.

TUBAÍNA - Sei...

DEISE - E daí que o Diretor Administrativo ficou uma fúria quando viu o seu... o seu...

TUBAÍNA - Todos ficaram uma fúria.

DEISE - Todos... Deu a maior confusão lá em cima. Não consta do regimento interno, entende... O objeto em questão. Chegaram até a discutir o valor do penhor... mas aí parece que caíram em si... Aí alguém falou assim: mas o que é isso, gente? A gente tá maluco? Aqui discutindo o preço de um - desculpa - caralho murcho?

TUBAÍNA - Desculpa - filhos de uma puta!!!

DEISE - Isso mesmo, disseram os outros. Aí me mandaram devolver "ele" para você. E eu escrevi o meu bilhetinho bem rápido com a minha BIC.

TUBAÍNA - E daí?

DEISE - Você é maluco?

TUBAINA - Não. Sou apenas um homem sem... (pausa) Afinal, o que a senhora quer?

DEISE - (olhando com secura para o vidro embrulhado) Quero ver mais...

TUBAÍNA - Você já viu.

DEISE - Mas, na hora, na repartição, naquela confusão, não deu pra ver direito. Além do mais, tive que escrever o bilhetinho bem rapidinho, sem que ninguém notasse. E olha que estavam na sala a Veroca, o seu Alcides, o seu Antunes, o meu chefe, fora o boy e...

TUBAÍNA - Mostrar?.. O que é que você me dá em troca?

DEISE - Não posso dar muita coisa. Você mesmo reconheceu que tá na pior. Não sou rica, mas posso dar alguma coisa se você concordar.

TUBAÍNA - Concordar com o que? Mostrar?

DEISE - Vamos por partes. Me dá o embrulho. Depois a gente conversa.

Ela disse isso com tanta determinação que Tubaína entregoum o vidro

embrulhado para ela. Ela arrebenta os frangalhos do embrulho. Fica

olhando para Pilatos, embevecida.

DEISE - Posso destampar?

TUBAÍNA - Nem pensar. Se eu começo a tirar a tampa para todo mundo, o Pilatos acaba apodrecendo.

DEISE - Pilatos?

TUBAÍNA - O nome dele.

DEISE - Sei...

Ela comeca a passar o vidro no rosto.

DEISE - (de repente) Deixa eu ver!

TUBAÍNA - Ver o que?

DEISE - O buraco que ficou.

TUBAINA - E o que é que eu ganho?

DEISE - O que é que você quer?

TUBAINA - Em primeiro lugar, quero dormir um pouco. Numa cama. Nessa cama. Depois quero um pouco de dinheiro.

De repente ela apoia o vidro entre as pernas dela e fala como se fosse uma funcionária.

DEISE - Você pode dormir, mas só até às dez da noite. É que eu moro com outra pessoa. Uma ex-colega. Lá da Caixa, da repartição. Dá aula na periferia, sabe? Dedicada... Ela chega em casa às dez da noite, sabe? Quanto ao dinheiro, já disse, não sou rica, mas se você fizer o que eu quero, posso te dar algum.

TUBAÍNA - Que horas são?

DEISE - Seis.

TUBAÍNA - Dá pra dormir quatro horas. Você quer o que? Não vê que eu sou um homem sem...

DEISE - Não precisa se assustar. Eu sou virgem. Talvez você não acredite, mas nunca... Nunca mesmo segurei... um negócio, entende? Desde menina que eu sou obcecada por isso. Mas nunca quis, nunca... Nunca consegui encostar um dedo siquer, num. Nunca. Quando eu era criança, ali pelos cinco anos, na casa do meu pai... Meu pai era militar, mandava soldados arrumarem o jardim lá de casa... Um desses soldados, azul de tão preto... Eu andava sempre atrás dele... Nem sei porque, mas fugia de todo mundo para ir atrás dele. E, quando eu sabia que não tinha ninguém por perto, pedia para ele me mostrar. Ele... bom, só na primeira vez que ele se assustou, tinha medo que alguém descobrisse, mas um dia ele me mostrou. Eu gostava de ver aquela coisa saindo da calça. Ficava só olhando. Nunca tive coragem de botar a mão. Até que um dia ele tirou pra fora, e o negócio foi ficando grande...pediu, quis me forçar a pegar aquilo, mas aí eu corri e ameacei contar tudo para o meu pai. Tive muito medo... e comecei a sentir prazer com a mão... Depois com outras mulheres... Eu ficava mais tranquila: elas não tinham isso (aponta Pilatos). Fiquei adulta, velha e feia. Mas não queria morrer sem um dia... Você compreende?

Tubaína se emocionou com a narrativa de Deise. Chega a limpar um par de lágrimas.

TUBAÍNA - Pois eu acho que a senhora esoclheu mal. Por muito pouco dinheiro, tem muita gente por aí que mostraria o... material para a senhora. Um material vivo!

DEISE - Mas eu não teria coragem de pedir isso para ninguém... Só mesmo para você... Sabe como é? O seu é e não é ao mesmo tempo, entende?

TUBAINA - Tudo que que a senhora quer é ver o buraquinho, não é?

DEISE - É...

TUBAÍNA - Só isso?

DEISE - Só.

TUBAÍNA - Depois me deixa dormir?

Ela concorda com a cabeça. Ele abaixa a sua calça e ela o examina.

DEISE - Nossa, tiraram também os...

TUBAÍNA - Bagos...

DEISE - Isso. E como é que você faz agora para...

TUBAÍNA - Não faço mais.

DEISE - Não faz mais xixi?

TUBAÍNA - Ah, xixi... Aqui, ó. Na torneirinha. Tá vendo aqui a torneirinha no meio dos pelos? A gente tira a tampinha, tá vendo ó, tá vendo?, verdinha. Isso. Põe o dedo. Aqui, tá vendo?

DEISE - Tou...

TUBAÍNA - Então. Eu tiro a tampinha, viro a torneirinha pra cá, viro a torneirinha pra lá... o xixi sai.

DEISE - Posso tirar a tampinha?

Pela primeira vez na peça Tubaína ri. Estaria gostando dela?

TUBAÍNA - Outra hora. Quando a bexiga estiver cheia. Sái que é uma beleza. Esguicha longe.

DEISE - Louca pra ver.

Ele faz o gesto de puxar a calça.

DEISE - Não! Espera. Tira a calça toda.

TUBAÍNA - Toda?

DEISE - Toda!

TUBAÍNA - Posso deitar?

DEISE - Pode.

Ele tira as calças, a camisa e os sapatos. Cai na cama, sente um grande alívio. Ela fica olhando profundamente o vidro. Ela começa a se empolgar. Os olhos se esbugalham, a respiração cresce. Ela vai gozar. Ela começa a gozar e Tubaína faz um carinho no cabelo dela. Depois ela se agarra ao vidro e vai caindo na cama assim como vai caindo a luz em resistência.

B.O.

TUBAINA - (no escuro) Posso voltar, um dia?

DEISE - Semana que vem. Mesma hora. Não esqueça do Nero.

TUBAÍNA - Pilatos!

Agora sim, fim de cena.