TUBAÍNA
- Pilatos, tudo o que eu quero é uma boa duma cama e um pouco
de comida. E paz. (fica olhando Pilatos como se esperasse um
resposta dele) Está bem, está bem. Vamos ver se dá para
trocar o seu alcool também.
Pequeno
B.O.
Voltamos
já na casa de Deise. Ela abre a porta.
DEISE
- Fecha, fecha logo!
TUBAÍNA
- (entra, ela fecha logo a porta) Pronto. Estou aqui.
DEISE
- Fala baixo, por favor. Por favor!
TUBAÍNA
- Mas... por que?
DEISE
- Os vizinhos... (quase sussurrando)
TUBAÍNA
- Que vizinhos? Que que tem os vizinhos?
DEISE
- Os vizinhos, ué. Casa um, casa três...
TUBAÍNA
- Não sei falar baixo. O que é que os vizinhos têm a ver
com isso?
Ela
o leva para o quarto, segurando no braço dele. Estava escuro.
TUBAÍNA
- Por favor, acenda a luz. Não suporto escuridão.
Ela
acende a luz. Ele olha a cama. Experimenta com a ponta dos
dedos.
Gosta.
Ela senta-se na cama. Ele, em pé
DEISE
- Fique à vontade...
TUBAÍNA
- Eu estou à vontade. A senhora mora sozinha?
DEISE
- Deise. Me chama de Deise.
TUBAÍNA
- Está certo, dona Deise.
DEISE
- Deise. Só Deise.
TUBAÍNA
- Você mora sozinha, Deise?
DEISE
- Estou sozinha. (pausa, observando ele) Você está na pior,
não está?
TUBAÍNA
- Dá pra perceber?
DEISE
- Pra mim, quem vai na caixa está sempre na pior. Ou na
melhor. Não tem meio termo. Eu estava naquela sala quando
examinaram o seu... o seu... Sou secretária do Ozanam.
TUBAÍNA
- Sei...
DEISE
- E daí que o Diretor Administrativo ficou uma fúria quando
viu o seu... o seu...
TUBAÍNA
- Todos ficaram uma fúria.
DEISE
- Todos... Deu a maior confusão lá em cima. Não consta do
regimento interno, entende... O objeto em questão. Chegaram
até a discutir o valor do penhor... mas aí parece que caíram
em si... Aí alguém falou assim: mas o que é isso, gente? A
gente tá maluco? Aqui discutindo o preço de um - desculpa -
caralho murcho?
TUBAÍNA
- Desculpa - filhos de uma puta!!!
DEISE
- Isso mesmo, disseram os outros. Aí me mandaram devolver
"ele" para você. E eu escrevi o meu bilhetinho bem
rápido com a minha BIC.
TUBAÍNA
- E daí?
DEISE
- Você é maluco?
TUBAINA
- Não. Sou apenas um homem sem... (pausa) Afinal, o que a
senhora quer?
DEISE
- (olhando com secura para o vidro embrulhado) Quero ver
mais...
TUBAÍNA
- Você já viu.
DEISE
- Mas, na hora, na repartição, naquela confusão, não deu
pra ver direito. Além do mais, tive que escrever o bilhetinho
bem rapidinho, sem que ninguém notasse. E olha que estavam na
sala a Veroca, o seu Alcides, o seu Antunes, o meu chefe, fora
o boy e...
TUBAÍNA
- Mostrar?.. O que é que você me dá em troca?
DEISE
- Não posso dar muita coisa. Você mesmo reconheceu que tá
na pior. Não sou rica, mas posso dar alguma coisa se você
concordar.
TUBAÍNA
- Concordar com o que? Mostrar?
DEISE
- Vamos por partes. Me dá o embrulho. Depois a gente
conversa.
Ela
disse isso com tanta determinação que Tubaína entregoum o
vidro
embrulhado
para ela. Ela arrebenta os frangalhos do embrulho. Fica
olhando
para Pilatos, embevecida.
DEISE
- Posso destampar?
TUBAÍNA
- Nem pensar. Se eu começo a tirar a tampa para todo mundo, o
Pilatos acaba apodrecendo.
DEISE
- Pilatos?
TUBAÍNA
- O nome dele.
DEISE
- Sei...
Ela
comeca a passar o vidro no rosto.
DEISE
- (de repente) Deixa eu ver!
TUBAÍNA
- Ver o que?
DEISE
- O buraco que ficou.
TUBAINA
- E o que é que eu ganho?
DEISE
- O que é que você quer?
TUBAINA
- Em primeiro lugar, quero dormir um pouco. Numa cama. Nessa
cama. Depois quero um pouco de dinheiro.
De
repente ela apoia o vidro entre as pernas dela e fala como se
fosse
uma funcionária.
DEISE
- Você pode dormir, mas só até às dez da noite. É que eu
moro com outra pessoa. Uma ex-colega. Lá da Caixa, da repartição.
Dá aula na periferia, sabe? Dedicada... Ela chega em casa às
dez da noite, sabe? Quanto ao dinheiro, já disse, não sou
rica, mas se você fizer o que eu quero, posso te dar algum.
TUBAÍNA
- Que horas são?
DEISE
- Seis.
TUBAÍNA
- Dá pra dormir quatro horas. Você quer o que? Não vê que
eu sou um homem sem...
DEISE
- Não precisa se assustar. Eu sou virgem. Talvez você não
acredite, mas nunca... Nunca mesmo segurei... um negócio,
entende? Desde menina que eu sou obcecada por isso. Mas nunca
quis, nunca... Nunca consegui encostar um dedo siquer, num.
Nunca. Quando eu era criança, ali pelos cinco anos, na casa
do meu pai... Meu pai era militar, mandava soldados arrumarem
o jardim lá de casa... Um desses soldados, azul de tão
preto... Eu andava sempre atrás dele... Nem sei porque, mas
fugia de todo mundo para ir atrás dele. E, quando eu sabia
que não tinha ninguém por perto, pedia para ele me mostrar.
Ele... bom, só na primeira vez que ele se assustou, tinha
medo que alguém descobrisse, mas um dia ele me mostrou. Eu
gostava de ver aquela coisa saindo da calça. Ficava só
olhando. Nunca tive coragem de botar a mão. Até que um dia
ele tirou pra fora, e o negócio foi ficando grande...pediu,
quis me forçar a pegar aquilo, mas aí eu corri e ameacei
contar tudo para o meu pai. Tive muito medo... e comecei a
sentir prazer com a mão... Depois com outras mulheres... Eu
ficava mais tranquila: elas não tinham isso (aponta Pilatos).
Fiquei adulta, velha e feia. Mas não queria morrer sem um
dia... Você compreende?
Tubaína
se emocionou com a narrativa de Deise. Chega a limpar um par
de lágrimas.
TUBAÍNA
- Pois eu acho que a senhora esoclheu mal. Por muito pouco
dinheiro, tem muita gente por aí que mostraria o... material
para a senhora. Um material vivo!
DEISE
- Mas eu não teria coragem de pedir isso para ninguém... Só
mesmo para você... Sabe como é? O seu é e não é ao mesmo
tempo, entende?
TUBAINA
- Tudo que que a senhora quer é ver o buraquinho, não é?
DEISE
- É...
TUBAÍNA
- Só isso?
DEISE
- Só.
TUBAÍNA
- Depois me deixa dormir?
Ela
concorda com a cabeça. Ele abaixa a sua calça e ela o
examina.
DEISE
- Nossa, tiraram também os...
TUBAÍNA
- Bagos...
DEISE
- Isso. E como é que você faz agora para...
TUBAÍNA
- Não faço mais.
DEISE
- Não faz mais xixi?
TUBAÍNA
- Ah, xixi... Aqui, ó. Na torneirinha. Tá vendo aqui a
torneirinha no meio dos pelos? A gente tira a tampinha, tá
vendo ó, tá vendo?, verdinha. Isso. Põe o dedo. Aqui, tá
vendo?
DEISE
- Tou...
TUBAÍNA
- Então. Eu tiro a tampinha, viro a torneirinha pra cá, viro
a torneirinha pra lá... o xixi sai.
DEISE
- Posso tirar a tampinha?
Pela
primeira vez na peça Tubaína ri. Estaria gostando dela?
TUBAÍNA
- Outra hora. Quando a bexiga estiver cheia. Sái que é uma
beleza. Esguicha longe.
DEISE
- Louca pra ver.
Ele
faz o gesto de puxar a calça.
DEISE
- Não! Espera. Tira a calça toda.
TUBAÍNA
- Toda?
DEISE
- Toda!
TUBAÍNA
- Posso deitar?
DEISE
- Pode.
Ele
tira as calças, a camisa e os sapatos. Cai na cama, sente um
grande alívio. Ela fica olhando profundamente o vidro. Ela
começa a se empolgar. Os olhos se esbugalham, a respiração
cresce. Ela vai gozar. Ela começa a gozar e Tubaína faz um
carinho no cabelo dela. Depois ela se agarra ao vidro e vai
caindo na cama assim como vai caindo a luz em resistência.
B.O.
TUBAINA
- (no escuro) Posso voltar, um dia?
DEISE
- Semana que vem. Mesma hora. Não esqueça do Nero.
TUBAÍNA
- Pilatos!
Agora
sim, fim de cena.