TUBAÍNA - (que ainda não tirou os olhos
do vidro de compotas) Tá velha... a compota. Velha...
estragada. A calda tá muito escuro. Avermelhada. (olha para
as duas) Não gosto de compota de pêssegos.
DOENTE 1 - Pra mim, compota de pêssego
é sobremesa de viado!
FREIRA 1 - (se benze) Não são pêssegos, meu filho.
TUBAINA - Claro! Agora eu estou
enxergando melhor. É um só, olha lá, um só, rodando bem no
meio do vidro. Nem amarelo é. Não é pêssego, não! Claro!
Pepino! É isso! Pepino! Um pepino muito grande! Pepino em
calda! Em conserva! Conserva de pepino! Mas Irmã, pra que é
que querem me dar um pepino?
O Doente 1 está exaltado. Enquando ele
vai falando, uma das freiras
dá uma injeção nele, para que durma e
não perturbe.
DOENTE 1 - Freira gosta de pepino! Deve
ser pepino de fabricação caseira. Tem freira que gosta de
plantar pepinos no fundo do quintal do convento. Fazem
conservas de pepinos para uso próprio e para dar para os
doentes. Devem ter uma plantação de pepinos no fundo do
hospital. Freira gosta de pepino! (dorme, com a bunda
arrebitada para cima)
Tubaína leva a mão até a altura do seu
sexo e percebe que não tem nada
ali a não ser o enorme curativo. Com
muito esforço, pega o vidro e o
levanta na direção da luz.
TUBAINA - (cai em si) Álcool! Alcool!
Sangue! Sangue! E ele... É ele! É ele! É ele! É o meu
Pilatos! O meu Pilatos, gente! (aponta para a altura do seu
sexo. já em pé na cama) Ele, o meu Pilatos!
Durante toda esta primeira cena, os
Doente 2, 3 e 4, estão reunidos na
cama de um deles, ouvindo o radinho de
pilhas. É a final da Copa do
Mundo de 70. Estão jogando Brasil e Itália.
O som é bem baixinho. Mas,
quando Tubaina descobre que é o seu pênis
que está dentro do vidro, o
Brasil marca o seu primeiro gol.
DOENTES - Goooooooooooollllllllllllll!!!!!!!!!!!!!
Tubaína fica olhando para o seu pênis,
chorando. Todos os outros doen-
tes cantam:
DOENTES - Pra frente, Brasil... (vão
cantando toda
a música da Copa de 70)
FREIRA 1 - Foi Deus quem quis...
B.O.
Quando volta a luz, já se passou um
tempo. Tubaína está mais conforma-
do (se é que isso é possível) e já
enturmado com os colegas de infor-
túnio. Ele está admirando o seu pênis
dentro do vidro. Entram as Frei-
ras, pegam o vidro e o colocam na
cabeceira da cama.
TUBAÍNA - Cuidado com o Pilatos! Cuidado
com o Pilatos!
FREIRA 1 - O quê? Pilatos? Mas será o
benedito, irmã?
TUBAÍNA - O nome dele! Pilatos! Pilatos!
O Doente 2 vai se arrastando até a
cabeceira dele. Ao passar pelas
freiras:
DOENTE 2 - Vai me dizer que a sua
coisinha não tem nome?
FREIRA 1 - A minha o que?
FREIRA 2 - Não pergunta, Irmã Anunciacón!
DOENTE 2 - Coisinha! Coisinha, coisinha,
coisinha, coisa, coisona!
As duas freiras fazem o sinal da cruz.
FREIRA 1 - Não me faltava mais nada.
FREIRA 2 - E o senhor volte imediatamente
para a sua cama!
DOENTE 2 - A senhora não me respondeu. A
sua coisinha não tem nome, não?
TUBAÍNA - (absorto) Pilatos... (olhando
o vidro, para si mesmo) Grande Pilatos...
DOENTE 1 - Eu estou aqui nesta posição
ridícula, mas posso te garantir: vou sair daqui com um futuro
bem melhor. Sem o meu velho e companheiro câncer no reto.
TUBAÍNA - É... mas o meu, pelo menos
está aqui. Onde é que está o seu câncer?
DOENTE 2 - Taí. Uma boa pergunta.
DOENTE 1 - É isso mesmo! Exijo a presença
da autoridade competente. Quero o meu câncer!
DOENTE 3 - E os meus culhões? Onde é que estão os
meus culhões?
DOENTE 1 - Exijo o meu câncer!
TUBAÍNA - É isso aí! O Pilatos tá
aqui...
DOENTE 2 - Quero a minha próstata.
O Doente 4 aponta para a falta de língua,
como quem esté querendo
ela também. Tubaína está admirando
Pilatos, agora de pe, com o vidro
nas mãos.
TUBAÍNA
- Era assim que ele ficava depois de uma... função. Mais pra
lá que pra cá, um pouco curvado sobre ele mesmo, igual ao
Padre, na missa, dizendo "dominus vobiscum"...
DOENTE 1 - E como é que a senhora pode
garantir que aquele negócio (a Freira 1 se benze) é o negócio
(a Freira 2 se benze) dele?
TUBAÍNA - Essa não! Vamos com calma!
Muita calma! Todos eles se parecem, é verdade! Mas esse é o
meu. Conheço. Convivo com ele há tanto tempo... Conheço o
jeitão dele. Olha aí.
DOENTE 3 - Os sacanas cortaram os meus
culhões! Quero os meus culhões! Exijo! É o mínimo que eu
posso pedir: os meus culhões! Escrotos sim, mas meus!
TUBAÍNA - Muito bem falado, companheiro!
O meu pau está aqui. Mas onde andarão os meus culhões a
esta altura do campeonato? Não vou andar por aí com o
Pilatos sem culhão. Uma coisa faz parte da outra.
FREIRA 1 - Seus culhões...
FREIRA 2 - Irmã!!!
FREIRA 2 - Perdão... Suas gônodas...
DOENTE 3 - Gônodas?!
FREIRA 1 - Suas gônodas foram jogadas no
balde que fica ao lado da sala de cirurgia. Este balde é
levado aos gatos no fim do expediente...
FREIRA 2 - (olhando uns papeis) Segundo
está anotado aqui no livro de registros, no dia da sua operação,
foram jogados ali dois fetos, dois quistos uterinos do tamanho
de uma bola de futebol, quatro quistos sebáceos, 18 metros de
instetino grosso, 13 do delgado, pedaços de uma bunda de cor,
cinco dúzias de apêndices supostamente suporados, dois baços
enbaçados, dois piloros, um olho ruim, um olho bom, quatro
placentas, oito dedos pequenos e uma glande, o seu câncer, a
sua próstata, a sua gônoda e as suas gônodas. E dois
chicletes. Fora a sua língua, é claro!
O Doente 4 sai correndo pela enfermaria,
na direção da janela e se
atira por ela, arrastando consigo, com
seu vulto branco, envolto em
lençois, todo amarrado por esparadrapos,
plasma sanguíneo, soro fi
siológico, fios e plástico. Atira-se
pela janela. Ouve-se a queda
lá embaixo. As freiras correm até a
janela.
FREIRA 1 - Foi Deus quem quis...
FREIRA 2 - Que Ele o tenha...
O Doente 1 se aproxima de Tubaína.
DOENTE 1 - Se me permite, já fui
escrevente juramentado e te garanto que você pode mover uma ação
contra o Estado, por perdas e danos. No caso, mais por perdas
que por danos...
TUBAÍNA - Não vou fazer nada!
DOENTE 2 - Tá certo que, para ganhar o
processo, você vai ter que provar coisas, exibir a juizes e
juradas, certas partes, certas virilhas vazias... Os jornais vão
se interessar...
TUBAÍNA - Esqueça... E, além do mais,
posso dizer até com certo orgulho: pau não tem preço!
Entra o médico.
MÉDICO - O que não é a Medicina,
senhores! E senhoras! O que não é a Medicina, senhoras! E
senhores. Vejam! Um tubinho de plástico para trazer a urina
da sua bexiga. E essa torneirinha na ponta. Não é
maravilhoso? Cem por cento nacional! Quando a bexiga encher e
começar a te incomodar, pronto, você abre a torneirinha em
cima do urinol. Quanto ao seu pênis...
DOENTE 2 - (cortando) Pênis não,
doutor! Pênis, não! Tudo, menos pênis. Pênis é demais!
Vocês já notaram que só médico diz pênis! Só médicos têm
pênis! Órgão, também não. Me lembra Igreja. Membro me
lembra os membros da Câmara dos deputados, os senadores e os
membros do clube. Vara, só se for Vara da Família. Não pega
bem! Pilatos... Pilatos, por favor.
MÉDICO - Pilatos?
TUBAÍNA - Pilatos!
DOENTE 2 - Isso: Pilatos! A seu dispor.
MÉDICO - Eu dizia que, quanto à
higiene, seu... seu... Pilatos... está substiuído até com
vantagem. É muito mais limpa essa torneirinha...
TUBAÍNA - Grande vantagem...