PILATOS, VIDA E OBRA (inédita)

CRÍTICA

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Na enfermaria

Abre a cortina. Tudo escuro. Surge um pequeno foco que vem do alto para iluminar uma área mínima, abaixo do umbigo de Tubaína. O que se consegue vislumbrar ali é uma espécie de fralda, de curativo, com um pouco de sangue. Tubaína está, no momento, descoberto. Vamos percebendo isso enquanto o foco vai aumentando lentamente. Com essa abertura de luz, vamos notando que trata-se de um elemento que está numa enfermaria, onde estão duas freiras (igualmente de branco - tudo é muito branco neste começo de espetáuclo), cada uma de um lado da cama.

A luz vai aumentando e vemos que elas estão olhando (ambas) para a mesinha de cabeceira de Tubaína. Parece que tem um vidro de compotas por ali. O foco vai aumentando e agora sim, vemos todo o cenário. Trata-se de uma enfermaria, muito mal tratada e suja, bem inps, com cinco camas, ocupadas por doentes. Tubaína está estático, dormindo o sono dos justos. Além de Tubaína, temos:

DOENTE 1 - extraiu um câncer no reto. Está sempre de bruços.

DOENTE 2 - extraiu a próstata. É velho.

DOENTE 3 - extraiu os culhões.

DOENTE 4 - extraiu a língua.

Tubaína dorme, dopado. Freira 1, disfarçadamente, pega o vidro de compotas e o levanta, para melhor olhar na direção da luz. A outra Freira, curiosa, chega perto. Ambas olham até mesmo com uma certa sofreguidão para aquilo: para o que está dentro do vidro. Quase encostam o rosto.

Tubaína faz um pequeno movimento com a mão, como de estivesse voltando a si. Uma freira cutuca a outra. A outra coloca o vidro de compotas na mesinha, onde estava antes.

Tubaína abre um olho. Abre o outro. Consegue levantar uma das mãos. Levanta a outra mão. As freiras olham para ele e, em seguida, para o vidro. Fazem isto duas vezes. Ele percebe o gesto. Mas mal consegue virar o rosto para ver para onde é que as duas estão olhando e com tanto interesse. Ele consegue mexer o braço e vai abaixando-o até a cintura, passando pela barriga, até atingir a mortalha. Passa a mão pelo enorme curativo. Sente um certo vazio. As freiras sorriem sem graça. Usando as duas mãos, ele consegue virar o rosto na direção do vidro. Vê!

TUBAINA - (com muita dificuldade) Compota Colombo... De pêssegos... (as freiras, piedosamente, se entreolham) Onde eu estou?

FREIRA 1 - Foi Deus quem quis...

FREIRA 2 - Um ônibus... ia subindo... Você vinha descendo... Lembra?

FREIRA 1 - Teve sorte... Muita sorte... Foi lá no centro...

FREIRA 2 - Podia ter morrido... Seria muito pior.

FREIRA 1 - Muita sorte. Podia ter sido muito pior, não é Irmã Encarnación?

FREIRA 2 - Nem diga, Irmà Anunciaçón, nem diga...

TUBAÍNA - (que ainda não tirou os olhos do vidro de compotas) Tá velha... a compota. Velha... estragada. A calda tá muito escuro. Avermelhada. (olha para as duas) Não gosto de compota de pêssegos.

DOENTE 1 - Pra mim, compota de pêssego é sobremesa de viado!

FREIRA 1  - (se benze) Não são pêssegos, meu filho.

TUBAINA - Claro! Agora eu estou enxergando melhor. É um só, olha lá, um só, rodando bem no meio do vidro. Nem amarelo é. Não é pêssego, não! Claro! Pepino! É isso! Pepino! Um pepino muito grande! Pepino em calda! Em conserva! Conserva de pepino! Mas Irmã, pra que é que querem me dar um pepino?

O Doente 1 está exaltado. Enquando ele vai falando, uma das freiras

dá uma injeção nele, para que durma e não perturbe.

DOENTE 1 - Freira gosta de pepino! Deve ser pepino de fabricação caseira. Tem freira que gosta de plantar pepinos no fundo do quintal do convento. Fazem conservas de pepinos para uso próprio e para dar para os doentes. Devem ter uma plantação de pepinos no fundo do hospital. Freira gosta de pepino! (dorme, com a bunda arrebitada para cima)

Tubaína leva a mão até a altura do seu sexo e percebe que não tem nada

ali a não ser o enorme curativo. Com muito esforço, pega o vidro e o

levanta na direção da luz.

TUBAINA - (cai em si) Álcool! Alcool! Sangue! Sangue! E ele... É ele! É ele! É ele! É o meu Pilatos! O meu Pilatos, gente! (aponta para a altura do seu sexo. já em pé na cama) Ele, o meu Pilatos!

Durante toda esta primeira cena, os Doente 2, 3 e 4, estão reunidos na

cama de um deles, ouvindo o radinho de pilhas. É a final da Copa do

Mundo de 70. Estão jogando Brasil e Itália. O som é bem baixinho. Mas,

quando Tubaina descobre que é o seu pênis que está dentro do vidro, o

Brasil marca o seu primeiro gol.

DOENTES - Goooooooooooollllllllllllll!!!!!!!!!!!!!

Tubaína fica olhando para o seu pênis, chorando. Todos os outros doen-

tes cantam:

DOENTES - Pra frente, Brasil... (vão cantando toda

a música da Copa de 70)

FREIRA 1 - Foi Deus quem quis...

 

B.O.

 

Quando volta a luz, já se passou um tempo. Tubaína está mais conforma-

do (se é que isso é possível) e já enturmado com os colegas de infor-

túnio. Ele está admirando o seu pênis dentro do vidro. Entram as Frei-

ras, pegam o vidro e o colocam na cabeceira da cama.

TUBAÍNA - Cuidado com o Pilatos! Cuidado com o Pilatos!

FREIRA 1 - O quê? Pilatos? Mas será o benedito, irmã?

TUBAÍNA - O nome dele! Pilatos! Pilatos!

O Doente 2 vai se arrastando até a cabeceira dele. Ao passar pelas

freiras:

DOENTE 2 - Vai me dizer que a sua coisinha não tem nome?

FREIRA 1 - A minha o que?

FREIRA 2 - Não pergunta, Irmã Anunciacón!

DOENTE 2 - Coisinha! Coisinha, coisinha, coisinha, coisa, coisona!

As duas freiras fazem o sinal da cruz.

FREIRA 1 - Não me faltava mais nada.

FREIRA 2 - E o senhor volte imediatamente para a sua cama!

DOENTE 2 - A senhora não me respondeu. A sua coisinha não tem nome, não?

TUBAÍNA - (absorto) Pilatos... (olhando o vidro, para si mesmo) Grande Pilatos...

DOENTE 1 - Eu estou aqui nesta posição ridícula, mas posso te garantir: vou sair daqui com um futuro bem melhor. Sem o meu velho e companheiro câncer no reto.

TUBAÍNA - É... mas o meu, pelo menos está aqui. Onde é que está o seu câncer?

DOENTE 2 - Taí. Uma boa pergunta.

DOENTE 1 - É isso mesmo! Exijo a presença da autoridade competente. Quero o meu câncer!

   DOENTE 3 - E os meus culhões? Onde é que estão os meus culhões?

DOENTE 1 - Exijo o meu câncer!

TUBAÍNA - É isso aí! O Pilatos tá aqui...

DOENTE 2 - Quero a minha próstata.

O Doente 4 aponta para a falta de língua, como quem esté querendo

ela também. Tubaína está admirando Pilatos, agora de pe, com o vidro   

nas mãos.

  TUBAÍNA - Era assim que ele ficava depois de uma... função. Mais pra lá que pra cá, um pouco curvado sobre ele mesmo, igual ao Padre, na missa, dizendo "dominus vobiscum"...

DOENTE 1 - E como é que a senhora pode garantir que aquele negócio (a Freira 1 se benze) é o negócio (a Freira 2 se benze) dele?

TUBAÍNA - Essa não! Vamos com calma! Muita calma! Todos eles se parecem, é verdade! Mas esse é o meu. Conheço. Convivo com ele há tanto tempo... Conheço o jeitão dele. Olha aí.

DOENTE 3 - Os sacanas cortaram os meus culhões! Quero os meus culhões! Exijo! É o mínimo que eu posso pedir: os meus culhões! Escrotos sim, mas meus!

TUBAÍNA - Muito bem falado, companheiro! O meu pau está aqui. Mas onde andarão os meus culhões a esta altura do campeonato? Não vou andar por aí com o Pilatos sem culhão. Uma coisa faz parte da outra.

FREIRA 1 - Seus culhões...

FREIRA 2 - Irmã!!!

FREIRA 2 - Perdão... Suas gônodas...

DOENTE 3 - Gônodas?!

FREIRA 1 - Suas gônodas foram jogadas no balde que fica ao lado da sala de cirurgia. Este balde é levado aos gatos no fim do expediente...

FREIRA 2 - (olhando uns papeis) Segundo está anotado aqui no livro de registros, no dia da sua operação, foram jogados ali dois fetos, dois quistos uterinos do tamanho de uma bola de futebol, quatro quistos sebáceos, 18 metros de instetino grosso, 13 do delgado, pedaços de uma bunda de cor, cinco dúzias de apêndices supostamente suporados, dois baços enbaçados, dois piloros, um olho ruim, um olho bom, quatro placentas, oito dedos pequenos e uma glande, o seu câncer, a sua próstata, a sua gônoda e as suas gônodas. E dois chicletes. Fora a sua língua, é claro!

O Doente 4 sai correndo pela enfermaria, na direção da janela e se

atira por ela, arrastando consigo, com seu vulto branco, envolto em

lençois, todo amarrado por esparadrapos, plasma sanguíneo, soro fi

siológico, fios e plástico. Atira-se pela janela. Ouve-se a queda

lá embaixo. As freiras correm até a janela.

FREIRA 1 - Foi Deus quem quis...

FREIRA 2 - Que Ele o tenha...

O Doente 1 se aproxima de Tubaína.

DOENTE 1 - Se me permite, já fui escrevente juramentado e te garanto que você pode mover uma ação contra o Estado, por perdas e danos. No caso, mais por perdas que por danos...

TUBAÍNA - Não vou fazer nada!

DOENTE 2 - Tá certo que, para ganhar o processo, você vai ter que provar coisas, exibir a juizes e juradas, certas partes, certas virilhas vazias... Os jornais vão se interessar...

TUBAÍNA - Esqueça... E, além do mais, posso dizer até com certo orgulho: pau não tem preço!

Entra o médico.

MÉDICO - O que não é a Medicina, senhores! E senhoras! O que não é a Medicina, senhoras! E senhores. Vejam! Um tubinho de plástico para trazer a urina da sua bexiga. E essa torneirinha na ponta. Não é maravilhoso? Cem por cento nacional! Quando a bexiga encher e começar a te incomodar, pronto, você abre a torneirinha em cima do urinol. Quanto ao seu pênis...

DOENTE 2 - (cortando) Pênis não, doutor! Pênis, não! Tudo, menos pênis. Pênis é demais! Vocês já notaram que só médico diz pênis! Só médicos têm pênis! Órgão, também não. Me lembra Igreja. Membro me lembra os membros da Câmara dos deputados, os senadores e os membros do clube. Vara, só se for Vara da Família. Não pega bem! Pilatos... Pilatos, por favor.

MÉDICO - Pilatos?

TUBAÍNA - Pilatos!

DOENTE 2 - Isso: Pilatos! A seu dispor.

MÉDICO - Eu dizia que, quanto à higiene, seu... seu... Pilatos... está substiuído até com vantagem. É muito mais limpa essa torneirinha...

TUBAÍNA  - Grande vantagem...