PILATOS, VIDA E OBRA (inédita)

CRÍTICA

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CRÍTICAS

 
 

Mario da Silva Brito

Para as pessoas preconceituosas, Pilatos é, sem dúvida, o texto mais insólito e agressivo que Carlos Heitor Cony produziu até agora.

Cony, ninguém o ignora, sempre fecundou seus escritos - de ficção ou não - se substancial conteúdo crítico e polêmico, questionando o homem, as idéias, as sociedades e instituições.

Pois assim continua sendo em Pilatos. Aqui, pela via do escatológico, narra uma terrível história dos tempos modernos - história em que coloca, antes de mais anda, o drama do indivíduo e o da liberdade. O personagem castrado desse romance é um símbolo. Também são símbolos outras figuras que o povoam.

Nada de introspecções abissais, de sutis análises psicológicas, de fatigantes abordagens psicoanalíticas. O que ao ficcionista importa é a história em si mesma. São os fatos, episódios, pormenores, o acúmulo de acontecimentos, tal como ocorre em Petrôpnio, Boccaccio, Rabelais e Cervantes - para lembrar algumas balizas ilustres, à semelhança desses mestres, o escritor brasileiro valeu-se de toda desibinição de linguagem - a mesma desibinição que está em Gil Vicente, nas anedotas que o povo conta, nas façanhas de Bocage ou Malazarte.

Por tudo isso, Pilatos não é leitura para pessoas de mentalidade acanhada, de vôo curto e rasteiro, amarradas à letra do texto. Pelo contrário, esse romance pede inteligências abertas, capazes de descobrirem, em meio à falação desabrida, ao grotesco à la Goya ou à mordacidade à Daumier o quanto há de humano, sofrido e pungente nessa parábola escrita antes com sangue e lágrimos que com riso.

Mas Pilatos não é romance de derrota e amargor. É antes - e principalmente - uma advertência. Uma advertência aos que, julgando-se felizes, são apenas desinformados.