VIZINHO - Ih, rapaz... Sumiu, né?, o seu
quarto foi alugado pra outro cara.
TUBAÍNA - É?...
VIZINHO - Um argentino que vende baralho
pornográfico.
TUBAÍNA - Sei... (os dois em silêncio)
E você? Não vai me perguntar onde foi que eu estive esses
meses todos, se estou legal, se eu estava doente, se eu estava
preso, se eu ainda tenho os meus culhões, por exemplo...
VIZINHO - (ri muito) Imagina...
TUBAÍNA - Nada? (lembra-se) Você é
ajudante de protético, não é?
VIZINHO - Desempregado, mas protético...
Dos melhores. Me lembro da última prótese que eu fiz, para
uma madame que...
TUBAÍNA - Pensando bem, acho que você
poderia me fazer um bom serviço de...
VIZINHO - Não vai me dizer que perdeu
mais um dente?
TUBAÍNA - Não é bem o dente...
(desiste) Não, ainda não está na hora de pensar (diz isso
para ele mesmo) num artificial. E, mesmo que fosse, não seria
legal. Esse negócio é como mãe: só se tem uma!
VIZINHO - Como?
Entra a dona da pensão e começa a
colocar as coisas dele a seus pés: duas malas pequenas e
velhas, um cinzeiro, um pequeno abajur de cabeceira, um
guarda-chuva todo rasgado, algumas peças de cama, cuecas, um
par de sapatos e um quadro com três andorinhas voando
simetricamente em cima de um telhado.
DONA - O senhor me deve cinco meses. Só
leva o material, pagando!
TUBAÍNA - Tive problemas.
DONA - Posso imaginar...
TUBAINA - Pode não, dona Augusta. Pode não...
DONA - Não quero imaginar e nem saber. O
senhor sumiu na época da Copa do Mundo. São quase cinco
meses já. Só leva o material se pagar o atrasado.
TUBAINA - Mas dona Augusta, se a senhora
soubesse o que aconteceu...
DONA - Vou vender as suas coisas e tudo
que o senhor deixou. Se é que alguém vai se interessar por
esses trastes... Tá pensando o que? Que só porque o Brasil
foi tri-campeao do mundo, vale tudo? Não estou aqui para
sustentar vagabundos.
TUBAINA - Mas dona Augusta, a senhora tem
que levar em conta que...
DONA - Esse embrulho aí, o que é?
O vidro (com o negócio dentro) está
debaixo do sovaco dele.
TUBAINA - (passando um jornal em volta)
Isso aqui?
DONA - É. Isso aí. Alguma coisa de
valor?
TUBAINA - Valor nenhum. Nenhum, nenhum,
nenhum... Já teve valor, mas hoje em dia... (olha o quadro
com as andorinhas) Pelo menos o quadro, dona Augusta.
DONA - Só quando pagar. Cinco meses.
VIZINHO - (de olho do vidro desde a
chegada de Tubaina) Posso ver? (investe)
TUBAINA - Não, pelo amor de Deus! Dona
Augusta, por favor, só o quadro. Foi um tio do Paraná que
pintou. Posso vender na feira hippie...
DONA - Cinco meses.
VIZINHO - Deixa eu ver, porra!
TUBAINA - Não enche, cara!
O vizinho tenta olhar meio na marra.
Tubaina desce a escada meio correndo, meio desiquilibrado.
Abre a braguilha, fica de costas para a plateia e de frente
para o Vizinho e a Dona que estão lá em cima. Tira a
torneirinha para fora e dá uma espetacular mijada que molha
os dois que saem correndo. Em seguida ele, rindo, vira para a
platéia e dá uma mijada nela. O esguicho é bem forte, vai
até a fila M, mais ou menos. Longo e fino. Desembrulha
Pilatos e fala com ele.
TUBAINA - Você agora vai ser uma espécie
de filho.Mas que um filho... Um amuleto, sei lá... Você é
mais meu agora, do que antes... Você depende de mim e eu vou
te tratar como se você fosse o meu passarinho. Um passarinho
machucado... sem os olhos e sem as asas, que não pode voar
sozinho, mas que teima em viver e ser meu...
Vai saindo de cena, na mesma lenta
velocidade que a luz também vai saindo.