PILATOS, VIDA E OBRA (inédita)

CRÍTICA

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Exercício para andar (e dormir)

Andando pela rua, Tubaína conversa com Pilatos sobre o desiquilíbrio de não ter mais aquelas partes. Pilatos está dentro do vidro, natural mente, boiando..

TUBAÍNA - O pior, Pilatos, é que tudo isso é verdade. No começo, eu imagina que ia acordar do sonho, do pesadelo... Imagine, um homem sem pau. Mas, dia a dia, tudo foi se tornando realidade. Quatro meses naquele hospital de merda! O problema é andar. Falta assim... física de você eu não sinto. Afinal, ninguém sente o próprio pau o dia inteiro. Quando você estava mole então, praticamente não existia. Ninguém se lembra de pau mole. Ficava lá, quieto. Já os culhões, as bolas, Pilatos, embora não possa parecer, são muito importantes. Sem elas, a gente sente a falta delas. A gente sente um buraco, sobra cueca na região. É como quando arrancam um dente da gente. E o pior: a gente perde o equilíbrio. Como se o homem tivesse uma espécie de eixo dentro dele. Os culhões são o centro gravitacional do homem. Desde que eu perdi os meus, fico imaginando como é que as mulheres fazem para ficar em pé com tanta tranquilidade. Sem nada ali no meio para reger o equilíbrio. Eu sei que estou parecendo um bêbado, tentando me manter em pé desde que deixei o Hospital, com você debaixo do braço. Vou indo devagar, muito devagar, as pernas bem abertas, só um pensamento na cabeça: ir em frente, se possível, em linha reta. Tenho que chegar na pensão.

Chega diante de uma escada com uma porta lá em cima. Escrito em uma placa bem fuleira:

ALUGA-SE VAGAS PARA RAPAZES DE FINO

(a palavra "trato" caiu)

Ele sobe a escada com dificuldade.

Certifica-se que não tem mais a chave. Bate. O vizinho aparece.

VIZINHO - Mas não é que é o Tubaína?

TUBAÍNA - Eu mesmo! Tubaína!

VIZINHO - Engordou, hein?

TUBAÍNA - É...

VIZINHO - Ih, rapaz... Sumiu, né?, o seu quarto foi alugado pra outro cara.

TUBAÍNA - É?...

VIZINHO - Um argentino que vende baralho pornográfico.

TUBAÍNA - Sei... (os dois em silêncio) E você? Não vai me perguntar onde foi que eu estive esses meses todos, se estou legal, se eu estava doente, se eu estava preso, se eu ainda tenho os meus culhões, por exemplo...

VIZINHO - (ri muito) Imagina...

TUBAÍNA - Nada? (lembra-se) Você é ajudante de protético, não é?

VIZINHO - Desempregado, mas protético... Dos melhores. Me lembro da última prótese que eu fiz, para uma madame que...

TUBAÍNA - Pensando bem, acho que você poderia me fazer um bom serviço de...

VIZINHO - Não vai me dizer que perdeu mais um dente?

TUBAÍNA - Não é bem o dente... (desiste) Não, ainda não está na hora de pensar (diz isso para ele mesmo) num artificial. E, mesmo que fosse, não seria legal. Esse negócio é como mãe: só se tem uma!

VIZINHO - Como?

Entra a dona da pensão e começa a colocar as coisas dele a seus pés: duas malas pequenas e velhas, um cinzeiro, um pequeno abajur de cabeceira, um guarda-chuva todo rasgado, algumas peças de cama, cuecas, um par de sapatos e um quadro com três andorinhas voando simetricamente em cima de um telhado.

DONA - O senhor me deve cinco meses. Só leva o material, pagando!

TUBAÍNA - Tive problemas.

DONA - Posso imaginar...

TUBAINA - Pode não, dona Augusta. Pode não...

DONA - Não quero imaginar e nem saber. O senhor sumiu na época da Copa do Mundo. São quase cinco meses já. Só leva o material se pagar o atrasado.

TUBAINA - Mas dona Augusta, se a senhora soubesse o que aconteceu...

DONA - Vou vender as suas coisas e tudo que o senhor deixou. Se é que alguém vai se interessar por esses trastes... Tá pensando o que? Que só porque o Brasil foi tri-campeao do mundo, vale tudo? Não estou aqui para sustentar vagabundos.

TUBAINA - Mas dona Augusta, a senhora tem que levar em conta que...

DONA - Esse embrulho aí, o que é?

O vidro (com o negócio dentro) está debaixo do sovaco dele.

TUBAINA - (passando um jornal em volta) Isso aqui?

DONA - É. Isso aí. Alguma coisa de valor?

TUBAINA - Valor nenhum. Nenhum, nenhum, nenhum... Já teve valor, mas hoje em dia... (olha o quadro com as andorinhas) Pelo menos o quadro, dona Augusta.

DONA - Só quando pagar. Cinco meses.

VIZINHO - (de olho do vidro desde a chegada de Tubaina) Posso ver? (investe)

TUBAINA - Não, pelo amor de Deus! Dona Augusta, por favor, só o quadro. Foi um tio do Paraná que pintou. Posso vender na feira hippie...

DONA - Cinco meses.

VIZINHO - Deixa eu ver, porra!

TUBAINA - Não enche, cara!

O vizinho tenta olhar meio na marra. Tubaina desce a escada meio correndo, meio desiquilibrado. Abre a braguilha, fica de costas para a plateia e de frente para o Vizinho e a Dona que estão lá em cima. Tira a torneirinha para fora e dá uma espetacular mijada que molha os dois que saem correndo. Em seguida ele, rindo, vira para a platéia e dá uma mijada nela. O esguicho é bem forte, vai até a fila M, mais ou menos. Longo e fino. Desembrulha Pilatos e fala com ele.

TUBAINA - Você agora vai ser uma espécie de filho.Mas que um filho... Um amuleto, sei lá... Você é mais meu agora, do que antes... Você depende de mim e eu vou te tratar como se você fosse o meu passarinho. Um passarinho machucado... sem os olhos e sem as asas, que não pode voar sozinho, mas que teima em viver e ser meu...

Vai saindo de cena, na mesma lenta velocidade que a luz também vai saindo.