PILATOS, VIDA E OBRA (inédita)

CRÍTICA

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All that Hollywood

Os dois estão sentados na praia, na areia. Céu nublado.

TUBAÍNA - Nascer de sol fraquinho, hein?

DOS PASSOS - As nuvens, não é mesmo? Atrapalharam. Se a viração soprasse pra lá e limpasse o sol, a gente ia ver o sol pular ali mesmo, naquela linha. Perto daquela ilha, ó.

Entram, estabanadamente, um grupo de pessoas. O pessoal do cinema. Assim divididos:

DIRETOR

PRODUTOR

PRIMEIRO ATOR - um barbudo maquiado, vestido de SENADOR

SEGUNDO ATOR - uma bichinha histérica, vestida de PEDRO ÁLVARES CABRAL

PRIMEIRA ATRIZ - ATRIZ PRINCIPAL do filme e VIRGEM I

SEGUNDA ATRIZ - FILHA de um operário torturado e VIRGEM II

Entram com holofotes, câmeras, cadeira de diretor e tudo o mais.

DIRETOR - Cadê o sol? Cadê o sol, porra?!

PRODUTOR - Calma, o sol vai pintar. Sol pinta...

DIRETOR - Vai pintar, o cacête!

TUBAÍNA - (levanta-se) Vamos embora que eu quero ver se consigo o tal do emprego no bar que eu te falei. Do gringo.

DOS PASSOS - Vamos ficar aqui que vai ser mais divertido. Pode ser muito interessante.

DIRETOR - (gritando para o Produtor, referindo-se a um holofote) Tirem essa coisa daqui! Não vai haver filmagem nenhuma!

CABRAL - (que começara a ficar na posição de Pedro Álvares Cabral) Que ingratidão, meu Deus! Nunca mais faço cinema. Estou ou não estou um Pedro Álvares Cabral perfeito? E agora vem me dizer que não vai ter filmagens, santo Deus?

SENADOR - Tou maquiada desde ontem...

DIRETOR - Não vai ter filmagens e fim de papo. Onde está o sol, cacete?

TUBAÍNA - Vamos embora...

PRODUTOR - Tem que filmar de qualquer maneira. (ergue as mãos para o céu) O aluguel da máquina, o preço disso aqui, a complementação da Embra que ainda não saiu...

DIRETOR - Diz que sai na semana que vem... Falta só umas assinaturas.

PRODUTOR - (prosseguindo)... o dinheiro que foi gasto, todos esses figurinos... A gente tem que filmar o nascer do sol de qualquer maneira.

DIRETOR - Mas se não tem sol, cacete! Onde é que eu vou arrumar um sol, agora?

PRODUTOR - A gente bota um holofote aqui, tapeia, quebra o galho... Vai parecer que é o sol nascendo... Tem que filmar! Aqui e agora!

CABRAL - Que ingratidão com os atores, meu Deus!

PRIMEIRA ATRIZ - Afinal, vai filmar ou não vai filmar?

SEGUNDA ATRIZ - Quinta ou sexta manhã que a gente vem aqui toda manhà... Vou dar um toque no sindicato. A gente acorda às quatro da manhã, fica horas na Lurdinha, maquinando, vem pra cá numa kombe cheirando a querosene, com essa puta roupa ridícula... Vou dar um toque no sindicato. (chora muito)

PRIMEIRA ATRIZ - Se fosse novela da globo, aposto que o sol pintava

SEGUNDA ATRIZ - (ainda chorando) Nem diga...

SENADOR - Meu Deus, maquiada desde ontem... Dormi olhando para o teto, imobilizada, para não borrar. E nada...

O Produtor, enquanto os atores falavam, andava de um lado para o outro, Dos Passos percebe oproblema dele e vai até lá. Segura ele pelo braço. Começa a falar no ouvido dele. Tubaína se preocupa porque percebe que, de vez em quando, o Produtor olha para ele.

SENADOR - Porisso que eu gosto mais de teatro. Colocam logo um bom dum sol de isopor e não se fala mais nisso. Passa uma tintinha...

PRIMEIRA ATRIZ - Esse filme não vai acabar nunca!

CABRAL - O pior é que eu não entendi o roteiro até hoje. A parte política, meu Deus... Tão careta. A visão que ele (do Diretor) tem do Pedro Alvares Cabral é tão careta. Imaginem vocês que ele parte do principio que Colombo era português também...

SEGUNDA ATRIZ - (para o Diretor) O que você acha?

DIRETOR - Quero um sol. Sem, sol eu não pinto.

Produtor se apresenta.

PRODUTOR - Pronto, vamos filmar. Tive uma idéia! Uma idéia do cacete!

Close em Tubaína.

DIRETOR - Não vim filmar idéias. Vim filmar o nascer do sol! Exijo o nascer do sol!

PRODUTOR - Posso explicar? Posso? Temos uma grande oportunidade de filmar uma cena genial. Surgiu uma opção!

DIRETOR 0 Opção... Opção... Não filmo opção! Cinema é açao. Quero o sol!

PRODUTOR - Por favor, Paulo José, uma opção! É do cacete!

Close em Tubaina

DIRETOR - E o sol? Cadê o dol? Me arranja um sol, que eu topo!

PRODUTOR - Nao tem sol nenhum. Não tá vendo que eu não posso parir um sol para você dirigir?

DIRETOR - Fabrica um. Crie um. "Seje" criativo!

OPRODUTOR - Quem tem que fabricar é você! É seja.

DIRETOR - Eu, uma ova! O que é que é seja?

PRODUTOR - Pois vamos filmar assim mesmo. Não tenho sol, mas arrumei uma coisa melhor.

DIRETOR - Eu quero o sol! Tá escrito aqui, no meu roteiro: cena 27, exterior, dia, praia, nascer do sol. O que você tem que colocar na cabeça, meu filho é que o filme se chama  A ADORAÇÃO DO SOL!

DOS PASSOS - (que, a essa altura, já estava entre os dois, seguindo a discussão) Não há sol, mas há uma idéia!

DIRETOR - E você que vá para o caralho!

DOS PASSOS - Exatamente. É isso que eu proponho!

PRODUTOR - Está entendendo, Paulo José? Um caralho no lugar do sol! Genial!

Enquanto eles vão levando esse papo, Tubaína percebe o que se passa. Vai se mandando com o embrulho. Mas o Produtor vai até ele.

PRODUTOR - O senhor vai ficar aqui. A idéia é mesmo genial!

DOS PASSOS - (à parte, para Tubaína) Vamos ganhar um dinheirinho fácil! A idéia foi minha, o Pilatos é seu, a gente racha. Rachid. Meio a meio. De hoje em diante eu sou empresário do seu... pênis! Eu tenho idéias: um pau na mão é uma idéia na cabeça.

DIRETOR - Mas você não acha que isso muda um pouco a história? A idéia original?

PRODUTOR - Em absoluto! Em absoluto! Cinema é isso: criatividade!

DIRETOR - Pode ser... Pode ser. Pode ser!

PRODUTOR - (para Tubaína) A cena é o seguinte: são duas virgens púberes que vão adorar o sol, sol este que entra na campanha política de um velho senador corrupto que se uniu aos latifundiários e aos generais que querem vender a Amazônia ao capital estrangeiro. Uma destas virgens é filha de um operário barbaramentre torturado.

DIRETOR - Entenderam a mensagem? É um filme de esquerda, uma filme de resistência, mora!

TUBAINA - (para Dos Passos) Mas você não disse que é radical de direita?

DOS PASSOS - Até certo ponto. Quando falam em contra-cultura, eu sempre penso no meu contra-cheque!

PRODUTOR - Acho ele (Pilatos), melhor que o sol.

SENADOR - Nem diga! Nem diga!

TUBAINA - Tem uma coisa: dentro do vidro!

DIRETOR - Não, não! É fora do vidro. Vou fazer um close desse tamanho!

Tubaina ameaça reagir, mas leva um cutucão de Dos Passos. Tubaina

abre o embrulho. Todos em volta, curiosos. O Diretor destampa e o

pega, de cabeca para baixo.

DIRETOR - Que maravilha! Isso vai fazer um sucesso desgraçado! O Império dos Sentidos vai ser pinto!Obrigado, Arruda. Obrigado, pela idéia! Cinema é isso, idéia! Quero ver o que a crítica reacionária vai dizer.

PRODUTOR - E os engajados, então?

A Primeira Atriz vem ver. Está toda vestida com as cores da bandeira nacional. Ela fica olhando para aquele pau de cabeça (literalmente) para baixo.

PRIMEIRA ATRIZ - De cabeça para baixo, não. Me recuso ficar ajoelhada diante disso!

TUBAÍNA - Disso?

O Diretor tenta colocar Pilatos de cabeça para cima, sem conseguir.

DOS PASSOS - Quem tem um arame, aí?

TUBAINA - (sentindo a dor) Não, arame, não.

O Produtor aparece com um arame. O Diretor enfia o arame em Pilatos  e ele fica em pé, bonito. Doi no Tubaina.

DIRETOR - Um pouco de maquiagem que ele está um pouco pálido.

PRODUTOR - (enquanto o Diretor maquia Pilatos) Atenção, câmera, atenção todo mundo! Cena da adoração!

Luz vai caindo em resistência com as duas atrizes, de joelhos, se aproximando de Pilatos.

DIRETOR - Luzes, câmera, ação!

ATRIZES - Aleluia! Aleluia! Aleluia!