Quando o
PRATA me propôs escrever uma peça baseada no meu livro
"Conversando sobre Sexo", eu achei que ele estava louco.
Como fazer uma peça de um livro didático, de depoimentos?
Ele me respondeu: "Por isso mesmo: cada carta é um drama
em si mesmo." Na hora percebi a possibilidade que ele se
referia, mas também me veio forte a responsabilidade que
tenho por esses testemunhos.
Lidar com isso de maneira digna e, ao mesmo tempo, que
propusesse reflexões sobre o tema me pareceu
extremamente difícil e impossível de transferir essa
responsabilidade a outro. Disse então que poderia pensar
sobre o assunto, mas somente em base de co-autoria.
Começamos a conversar. PRATA passou dias no meu
escritório lendo centenas de cartas, ficando cada vez
mais impressionado com o que descobria. O que no livro
aparece como uma carta, assinada por uma pessoa (nome
trocado, obviamente), corresponde a centenas de cartas
muito parecidas. A imensidão dos problemas, da angústia
e ignorância da nossa população o invadiram de forma a
repensar a proposta.
Drama ia
ficar demais. A situação, os depoimentos são um drama em
si mesmos.
Eu até hoje sempre falei de sexo de maneira muito séria.
Não dava para ser de outra forma quando você está
quebrando tabus e preconceitos seculares. Entretanto,
sempre achei que se aprende muito com o riso e com a
possibilidade de se rir das próprias besteiras. É uma
forma de conscientização. Daí a peça se transformar numa
comédia foi um pulo. PRATA conhecia o Dagomir e Rogério
que são jovens e extremamente criativos e poderiam fazer
músicas no espírito que queríamos: virou comédia
musical.
Minha
intenção? Que a peça divirta muito e faça pensar sobre
os valores sexuais e inspire um sexo sem grilos.
Ivone e Jorge, nossos personagens principais, são um
casal de meia idade que me escreveu para dar testemunho
de seu encontro nessa idade. Sua carta, publicada na
pág. 956 do "Conversando sobre Sexo", fala de uma vida
sexual cheia de problemas e tabus. A descoberta do amor
e dos prazeres sexuais veio aos 50 anos. É um testemunho
de esperança.
Utilizamos centenas de depoimentos de adolescentes e
pessoas de idades variadas para montar as dificuldades
que imaginamos Jorge e Ivone, como dois brasileiros,
viveram no desenvolvimento de sua sexualidade.
De novo, digo, há esperança mas não é preciso tanto
sofrimento.
Marta Suplicy