E SE A GENTE GANHAR A GUERRA

FICHA TÉCNICA

CRÍTICA

CRÍTICA

 

Sátira política revela seu autor
O Estado de S. Paulo, 8/10/77
Anatol Rosenfeld

Mario Prata, jovem mineiro, pertence a boa safra de novos dramaturgos brasileiros que, em número alentado, surgiram depois da revelação de Plínio Marcos. Os aficionados do teatro ainda devem estar lembrados do seu Cordão Umbilical que, no ano passado, obteve êxito considerável.

E Se a Gente Ganhar a Guerra? baseia-se num fato acontecido no Estado do Espírito Santo. Ali, certo dia, um cidadão penetrou no Palácio do Governo afirmando ser o novo governador. "Vim assumir!" Consta que, depois de iniciar os primeiros despachos, foi levado, com toda a cordialidade, ao Manicômio Judicial, graças à armadilha de um dos encarregados do dispositivo de segurança.

A' base deste incidente pouco significativo — cerca de dez linhas no noticiário dos jornais — a imaginação fértil e fervilhante do jovem autor produziu uma comédia de dois atos extensos, socorrendo-se ainda de uma piada famosa que, dialogada, espichada e posta em cena, fornece a matéria para o segundo ato.

IRREVERÊNCIA

Com tão pouca substância, Mario Prata conseguiu escrever uma sátira política hilariante e irreverente, com um diálogo saboroso; salpicado de chistes ás vezes ferinos, eivado de alusões não raro espirituosas. As situações e falas provocam gargalhadas incessantes de um público que não resiste àquele toque gostoso de autogozação tipicamente brasileira, na qual, no fundo, se exprime muito mais confiança e auto-afirmação nacional do que no ufanismo exaltado.

A comicidade da peça não se nutre de recursos particularmente requintados. Joga com o robusto contraste de personagens da mais alta hierarquia política falando, surpreendentememte, uma linguagem drasticamente popular, através de múltiplos telefones coloridos que ligam o governador com o presidente, o papa e outras autoridades. e obtém belos resultados, magnificando, à maneira pop, os clichês políticos para, deste modo, pô-los entre aspas e expô-los à vista mesmo dos míopes.

Enquanto o primeiro ato, baseado na notícia mencionada mantém certa continuidade, tensão e verossimilhança dramáticas o segundo parte, se não para a ignorância, ao menos para a farsa deflagrada. Despedindo-se dos mínimos resquícios do verossímil, invade triunfalmente o reino do absurdo e acaba se dissociando numa série de "achados". Mario Prata é decididamente um autor de primeiros atos. Também em «O cordão umbilical" o segundo ato se desmorona.

DIREÇÃO SALVA

O que salva a situação é a direção de Celso Nunes (A Longa noite de Cristal, O interrogatório), que nunca deixa esmorecer o espetáculo e que, sobre as piadas e principalmente sobre os buracos do texto, faz erguer-se uma nova dimensão cômica, mercê de marcações burlescas e gags quase sempre felizes, embora nem sempre originais No resultado jocoso colaboram de um modo eficaz os cenários, figurinos, invenções ceno-técnicas, painéis e fotos (com a face de Miriam Muniz) de Luiz e Bia Parreiras e de Jarbas Lotto. No elenco há um equilíbrio perfeito. Todos estão à vontade, desde Paulo Goulart, que compõe um governador, presidente e imperador originalíssimo, e Yolanda Cardoso, mariposa do tipo já conhecido da peça anterior de Mario Prata, até Sylvio Zilber, como chefe de gabinete, Regina Braga, como secretaria saltitante, em crescente estado de gravidez, e João Acaiabe, em crescente estado de decrescimento.

Apesar de a peça revelar de novo um autor inteligente, de inspiração cômica fácil e espontânea, e apesar de se dever supor que o texto irreverente tenha sofrido cortes prejudiciais não se pode deixar de esperar que Mario Prata no futuro trabalhe as suas obras com mais rigor e se imponha critérios e aspirações artísticas mais severas.