E SE A GENTE GANHAR A GUERRA

FICHA TÉCNICA

CRÍTICA

CRÍTICA

 

CRÍTICA

guerra1.jpg (10050 bytes)Antes foi o Cordão Umbilical, uma comédia a revelar um autor jovem. Embora não saibamos especificamente quais suas raízes, eram claros nela os elementos autobiográficos: uma atriz, uma prostituta grávida, um estudante de medicina e um jovem autor premiado e desconhecido moram juntos durante algum tempo. O humor do primeiro ato era irresistível. O segundo, saindo do terreno das gags e entrando pelo campo mais sério do problema "família", perdia o encanto. Agora o autor toma por base uma notícia verídica para criar o segundo texto: um bombeiro louco entrou no Palácio do Governo do Espírito Santo e declarou-se o novo governador. Tomou cafezinho, chegou a despachar e finalmente foi encaminhado ao manicômio. O autor indagou-se: e se o louco tivesse permanecido no poder? O resultado é E Se a Gente Ganhar a Guerra? Mario Prata é o autor, um excelente humorista. Suas gags são verdadeiros achados em matéria de sátira e corrosão. Desde que a situação do mundo é absurda, que fazer senão rir? Já foi dito que nos momentos de crise é que surgem os grandes humoristas. E Prata tem estofo. Pertence à extensa família de humoristas brasileiros que denunciam através do riso. Não é irônico, é feroz, corrosivo, violento. Destrói as instituições a golpes de porrete. Seu estilo vem melhorando e evoluindo. Por certo não se pode considerar o texto definitivo ou perfeito. Novamente um segundo ato irregular e mal estruturado se contrapõe a um 1° ato de excelente humor. Será Prata um autor de 1°s atos? Não cremos. Entre o 2° ato do Cordão e o da Guerra existe infinita diferença. Naquela peça era inexistente, aqui há excelentes idéias mal executadas, mal alinhavadas. Falta pouco para que Prata produza um bom trabalho. E o espetáculo de Celso Nunes é uma surpresa. Celso é um dos diretores mais criativos que trabalham hoje no Brasil. Tanto em seus espetáculos profissionais quanto em seus trabalhos realizados na Escola de Arte Dramática sua presença forte era marcada de forma indelével. Nesta peça Celso percebeu que não havia lugar para um espetáculo "de diretor". O importante era o humor, o importante eram os atores. E a estes foram oferecidos os meios de dar vida aos estranhos habitantes do universo de Prata. Paulo Goulart joga o bombeiro Dionísio ao palco com força, uma loucura tão grande e sóbria que perigosamente se aproxima da realidade; Yolanda Cardoso é Norma Tunel Velho, uma explosão de vitalidade e ingenuidade, a encarnação do lugar comum, o palavrão sem malícia, a grossura natural; Silvio Zilber, o chefe de gabinete de rosto tolo, subserviente, servil, capacho, apagado, exigindo dos menores a mesma deferência que oferece aos grandes; Regina Braga, uma personagem criada a partir de pouquíssimos dados e que atinge a perfeição, uma secretária idiota, de riso alvo mas cujas pernas são fantásticas, embora nem ao menos tenha consciência disso. É o elenco quem ocupa o lugar de destaque nesta montagem. No entanto, se a direção de Celso Nunes não ocupa o primeiro plano do espetáculo, nem por isso desaparece. A inteligência das marcações, dos jogos de luz, da utilização das músicas marcam sua presença, aproveitando e descobrindo formas insólitas no sóbrio cenário de Luiz Parreiras. O texto de Prata, partindo de uma situação absolutamente normal, caminha em direção ao absurdo. O mesmo acontece com o espetáculo, que acompanha com exatidão essa trajetória. Um grande espetáculo? Não, de forma alguma. Mas um espetáculo bem feito, bem elaborado, um trabalho sem maiores pretensões, onde tudo que pretende é divertir. E isso se consegue.