CRÍTICA
Antes foi o
Cordão Umbilical, uma comédia a revelar um autor jovem. Embora não saibamos
especificamente quais suas raízes, eram claros nela os elementos autobiográficos: uma
atriz, uma prostituta grávida, um estudante de medicina e um jovem autor premiado e
desconhecido moram juntos durante algum tempo. O humor do primeiro ato era irresistível.
O segundo, saindo do terreno das gags e entrando pelo campo mais sério do problema
"família", perdia o encanto. Agora o autor toma por base uma notícia verídica
para criar o segundo texto: um bombeiro louco entrou no Palácio do Governo do Espírito
Santo e declarou-se o novo governador. Tomou cafezinho, chegou a despachar e finalmente
foi encaminhado ao manicômio. O autor indagou-se: e se o louco tivesse permanecido no
poder? O resultado é E Se a Gente Ganhar a Guerra? Mario Prata é o autor, um excelente
humorista. Suas gags são verdadeiros achados em matéria de sátira e corrosão. Desde
que a situação do mundo é absurda, que fazer senão rir? Já foi dito que nos momentos
de crise é que surgem os grandes humoristas. E Prata tem estofo. Pertence à extensa
família de humoristas brasileiros que denunciam através do riso. Não é irônico, é
feroz, corrosivo, violento. Destrói as instituições a golpes de porrete. Seu estilo vem
melhorando e evoluindo. Por certo não se pode considerar o texto definitivo ou perfeito.
Novamente um segundo ato irregular e mal estruturado se contrapõe a um 1° ato de
excelente humor. Será Prata um autor de 1°s atos? Não cremos. Entre o 2° ato do
Cordão e o da Guerra existe infinita diferença. Naquela peça era inexistente, aqui há
excelentes idéias mal executadas, mal alinhavadas. Falta pouco para que Prata produza um
bom trabalho. E o espetáculo de Celso Nunes é uma surpresa. Celso é um dos diretores
mais criativos que trabalham hoje no Brasil. Tanto em seus espetáculos profissionais
quanto em seus trabalhos realizados na Escola de Arte Dramática sua presença forte era
marcada de forma indelével. Nesta peça Celso percebeu que não havia lugar para um
espetáculo "de diretor". O importante era o humor, o importante eram os atores.
E a estes foram oferecidos os meios de dar vida aos estranhos habitantes do universo de
Prata. Paulo Goulart joga o bombeiro Dionísio ao palco com força, uma loucura tão
grande e sóbria que perigosamente se aproxima da realidade; Yolanda Cardoso é Norma
Tunel Velho, uma explosão de vitalidade e ingenuidade, a encarnação do lugar comum, o
palavrão sem malícia, a grossura natural; Silvio Zilber, o chefe de gabinete de rosto
tolo, subserviente, servil, capacho, apagado, exigindo dos menores a mesma deferência que
oferece aos grandes; Regina Braga, uma personagem criada a partir de pouquíssimos dados e
que atinge a perfeição, uma secretária idiota, de riso alvo mas cujas pernas são
fantásticas, embora nem ao menos tenha consciência disso. É o elenco quem ocupa o lugar
de destaque nesta montagem. No entanto, se a direção de Celso Nunes não ocupa o
primeiro plano do espetáculo, nem por isso desaparece. A inteligência das marcações,
dos jogos de luz, da utilização das músicas marcam sua presença, aproveitando e
descobrindo formas insólitas no sóbrio cenário de Luiz Parreiras. O texto de Prata,
partindo de uma situação absolutamente normal, caminha em direção ao absurdo. O mesmo
acontece com o espetáculo, que acompanha com exatidão essa trajetória. Um grande
espetáculo? Não, de forma alguma. Mas um espetáculo bem feito, bem elaborado, um
trabalho sem maiores pretensões, onde tudo que pretende é divertir. E isso se consegue.