Teatro
vê o outro lado de uma fábrica de torturas
Folha de S. Paulo 07/12/1979
Sérgio Pinto de Almeida
Depois de oito anos sem ter uma nova peça
encenada, Mario Prata escreveu no início do ano um novo texto, Fábrica de Chocolate, que
recebeu o segundo lugar no concurso de dramaturgia promovido pelo Serviço Nacional de
Teatro. Hoje a peça estréia na sala Gil Vicente do Teatro Ruth Escobar, e Prata espera
que assim possa dedicar-se exclusivamente a um trabalho muito mais cansativo: escrever os
últimos capítulos da novela Dinheiro Vivo, apresentada diariamente às 19 horas, na Rede
Tupi.
Não sou escritor de novela, ou
escritor de teatro. Sou escritor.
Cansado pelo ritmo acelerado em que esta envolvido, ele
evita falar mais detalhadamente sobre Fábrica de Chocolate e seu tema, a tortura e o
comportamento do torturador, ou segundo o diretor do espetáculo, Ruy Guerra, "a
gênese do torturador".
Eu gosto de falar sobre o que faço, mas Fábrica
é um negócio diferente, muito sério. Prefiro agora falar sobre algumas coisas da peça,
mas não sobre tudo que ela envolve, porque estou realmente muito cansado. Ainda mais que
fiquei ontem conversando com o Ruy Guerra até as 4 da manhã, e aquele português bebe
muito vinho...
Cordão Umbilical foi a primeira peça encenada de Prata,
em 70, e em 71 E se a gente ganhar a guerra?. Agora ele retorna com Fábrica de Chocolate,
porque acha que o momento é o ideal para esse tipo de espetáculo. Com o abrandamento da
censura e a liberação de algumas criações artísticas, determinados assuntos estão
podendo ser analisados, e entre eles está a tortura.
Quando escrevi o texto, não mandei direto para a
censura porque sabia que não passaria. Depois, quando liberaram algumas coisas. resolvi
aguardar a lei de anistia, a volta de alguns exilados, e aí sim, senti que dava para
levar a coisa para o palco. Mostrei o texto para várias pessoas, e quem primeiro se
interessou foi a Ruth Escobar, que já queria montar a peça antes.
Antes mesmo da estréia o espetáculo já está incluído
no Festival Internacional de Teatro de Sevilha, em março, e em fevereiro fará uma curta
temporada no Teatro São Luís, em Lisboa. Segundo Prata, o que Fábrica de Chocolate tem
de original, é. o fato de mostrar a tortura não do lado do torturado, mas sim do
torturador, ao contrário do que é geralmente feito.
Eu tenho mais dó dos torturadores do que dos que
foram torturados. Conheço torturados, tenho amigos, parentes, todo mundo no Brasil tem
uma pessoa conhecida que já foi torturada, e eu conheço como os torturados se comportam
ou agem. Mas não conheço nenhum torturador.
Segundo Prata, na maioria das vezes o torturado sabia
porque estava sofrendo a repressão, mas o torturador, na verdade, não sabia porque
praticava tal ação. Ele é um funcionário, como tantos outros, que simplesmente cumpre
as ordens que lhe são dadas. Mas ele acha que o torturador não é um ser doente.
Ele é, isto sim, fruto de uma sociedade doente,
de um poder doente. E a peça, no fundo, é um compêndio da história do Brasil.