FÁBRICA DE CHOCOLATE

FICHA TÉCNICA

CRÍTICA

CRÍTICA

 

Sangue e chocolate, receita do terror
ISTOÉ 21/11/1979
Fernando Pacheco Jordão

Uma peça de Mario Prata leva a tortura ao palco

É um homem de seus 40 anos, forte, sozinho em uma sala de poucos móveis, à vontade, descansando em cima da mesa os pés calçados num par de botas reluzentes. "Aí foi demais", ele está contando a um amigo no telefone. "Aí eu não agüentei. Vi que não tinha jeito mesmo. Desci do animal, tirei as esporas — eu sempre uso esporas, você sabe, me dão mais segurança -, tirei as esporas e 'esporrei' o bicho. Isso mesmo. 'Esporrei'. Primeiro na barriga, com força, pra ele aprender. Com força mesmo, até o meu braço ficar todo sujo de sangue. E o pior é que aquele sangue quente me deu mais força. Dei um, dois, três murros no pescoço dele. Sem muita força, que eu não queria matar o bicho logo de cara. E ele não se tocava, acredita? Como se não fosse com ele. Mas eu pensei com os meus botões: isso não vai ficar assim, não, f.d.p. Não vai ficar, não. Sabe o que eu fiz? Olha a loucura. Dei uma dentada no pescoço dele. Enchi a boca de pêlo, e você acredita que nem assim o f.d.p. se tocou? Aí eu não tive outro jeito. Tava mesmo com a espora na mão, meti no olho dele. Aí, finalmente, o f.d.p. sacou com quem estava tratando."

Com quem estava tratando aquele f.d.p.? Quem é este homem, chamado Herrera, com as botas sobre a mesa, contando suas sanguinárias façanhas pelo telefone?

Na verdade, a cena é invenção do escritor Mario Prata, o autor de Cordão Umbilical, no teatro, e de Estúpido Cupido e Dinheiro Vivo, na televisão, em sua nova peça, Fábrica de Chocolate, que estréia dia 5 de dezembro em São Paulo. Herrera é personagem da peça e abre o espetáculo com essa fala, mas, ao contrário da ressalva das narrativas de ficção, qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas não é mera coincidência. Especialmente com pessoas vivas, pois Fábrica de Chocolate trata da questão da tortura pelo lado dos torturadores, que permanecem em seus postos, impunes e prontos para a ação. E a semelhança com pessoas mortas está no f.d.p., no animal, no bicho que Herrera esporeou e mordeu no pescoço e que pode ser bem o comunista, o líder sindical, o jornalista, o político, o sacerdote e o estudante presos, espancados, torturados e mortos pelos Herreras, em nome da segurança nacional.

Simpatias do público. Mas vamos com calma, que o espetáculo começa agora a sair da mesa de leitura para as primeiras marcações no palco do Teatro Ruth Escobar, ainda sem cenário. Cinco horas de ensaio toda noite, coordenado pelo diretor Ruy Guerra, que interrompeu seu trabalho de cinema em Moçambique com planos de ficar por aqui mais um ano, fazendo teatro, cinema, música. Teatro é a segunda vez em sua carreira. A primeira foi com o Trivial Simples, de Nélson Xavier, que a censura não deu tempo de esquentar. Guerra não deixa nenhum detalhe de lado, é exigente e minucioso na construção de cada personagem da Fábrica de Chocolate. "Especialmente nesta peça", diz ele, "onde há momentos de humor, um humor trágico, mas que fará a platéia rir, sem dúvida, e que por isso mesmo exige um trabalho redobrado para que não corramos o menor risco de tornar qualquer desses personagens simpático ao público. Se isto acontecer, fracassamos".

Podem ser simpáticos ao público personagens cujo cotidiano é o interrogatório, a prática da tortura e, tantas vezes, a morte do preso? Tanto o diretor como o autor, Mario Prata, sabem que sim. Carregar nas tintas de monstruosidade aquele trabalho levaria o espectador a concluir, equivocadamente, que a tortura está nas mãos de um bando de desequilibrados mentais, cuja conduta indigna seus chefes desconheceriam — versão, aliás, costumeiramente divulgada quando se fala de "excessos" da repressão. Por outro lado, ignorar as nuanças psicopáticas presentes em cada torturador, limitando sua representação à normalidade de um trabalho a serviço de um sistema político, cairia no perigo, senão de justificar a tortura, pelo menos de dar contornos até aceitáveis à figura do torturador. "É o problema mais importante a resolver nesta montagem", admite Ruy Guerra.

Versão de morte. Foi por causa disso que os ensaios de Fábrica de Chocolate ganharam, no domingo passado, dia 11, uma personagem nova. Dr. P. - é assim que vamos chamá-lo, porque a ética médica obriga ao sigilo - não terá seu nome nesta reportagem nem ganhará os tradicionais agradecimentos no programa do espetáculo. É um jovem psiquiatra paulista que, na condição de recém-formado em medicina cumpriu seu tempo de serviço militar no Hospital Militar do Cambuci, em São Paulo. Ficou por lá um ano, justamente 1975, época em que, em outra dependência do II Exército - no DOI-CODI -, morreram José Ferreira de Almeida, da Polícia Militar, e o jornalista Vladimir Herzog. Ano de muitos presos, torturados e "desaparecidos". Dr. P. leu o texto e se familiarizou com cada personagem da peça, que é em resumo a descrição do comportamento dos envolvidos na morte - por "excesso" - de um operário que estava sendo interrogado: dois subalternos, seu superior imediato (o Herrera que mordeu o pescoço do cavalo), uma portuguesa importada que é especialista em repressão, um industrial dono de uma fábrica de chocolate, financiador do órgão repressor e patrão do morto, e mais um torturador subalterno, um veterano no serviço, agora na fronteira da demência total. O problema – portanto o conflito que se coloca em cena – é montar uma versão plausível da morte do operário.

Sob a certeza da impunidade. “Dr. P., o senhor acha que Baseado (João José Pompeu) e o Rosemary (apelidos dos dois subalternos) iriam ficar com medo? Como está o texto, fica um acusando o outro. Seria assim mesmo?” O ensaio se transforma numa entrevista com o psiquiatra. A dúvida é de José Dumont, o ator que interpreta Rosemary, um jovem recruta inexperiente.

Durante seu estágio no Hospital Militar o psiquiatra tratou vários casos de torturadores em crise. “Eles têm razão de ter medo”, ele opina, porque, afinal, cometeram um erro: “Não era para matar o cara, e eles mataram. Agora, o medo deles se dá em nível puramente interno. Quer dizer, é o medo de ser prejudicado dentro do departamento”.

Rolando Boldrin (Herrera) e Ruth Escobar ( a portuguesa Piedade) procuram saber que tipo de pessoa é um torturador. O médico, pela experiência que teve no Hospital Militar, acha que são indivíduos, que já demonstravam alguma tendência agressiva, alguma anormalidade, que é então estimulada e levada a extremos na própria prática da tortura.

  Quem são os doentes. Segundo Dr.P., respondendo a uma pergunta de Pompeu, seria errado compor um torturador no palco procurando dar-lhe tiques nervosos, como piscar os olhos, repuxar a boca etc. “O torturador”, diz o psiquiatra, “não tem em geral essas manifestações, porque esses tiques são característicos de quem vive com ansiedades. E, vejam bem, o torturador não tem ansiedades, na medida em que ele coloca pra fora, na tortura, toda a sua tendência agressiva anormal, a força do instinto de destruição que todos nós temos, mas que no caso dele, aparece em grau muito mais elevado. Essa carga agressiva toda ele usa sob controle, como acontece na peça e como aconteceu, provavelmente, no caso de Vlado”.

“Foi justamente no dia do enterro do Vlado” conta Mario Prata, “que me veio a idéia da peça, a partir dessas perguntas: quem são esses caras, como é que eles se comportam entre eles numa hora dessas em que têm de montar toda uma encenação para produzir um suicídio?” “Então” – dr.P.está concluindo seu debate com Ruy Guerra e o elenco da Fábrica de Chocolate – “o torturador é um homem que podemos classificar como doente, mas um doente a serviço de um sistema também profundamente doente, que o sustenta e que o acoberta. Isso é que é importante salientar”.