O TEATRO SEM MEDO DA TORTURA
Jornal do Brasil 12/04/1980
O caldeirão lambuzado, chocolate fervendo e derramando sua cor escura pelas
bordas, a imagem da fábrica visitada quando era criança levaram Mario Prata a
chamar Fábrica de Chocolate a peça que escreveu sobre torturadores. A mesma
massa de cheiro acre sai em tabletes perfeitos, em embalagens coloridas, vendida
aos milhares, saborosa e cara. No Teatro Dulcina, o texto premiado com o segundo
lugar no concurso de dramaturgia do SNT de 1979 ganhou direção de Ruy Guerra e
um grupo de seis torturadores liderados pela também produtora Ruth Escobar. São
eles Francisco Milani, João José Pompeo, José Dumont Mauro de Almeida e Luís
Carlos Laborda.
Cinco anos de experiência ensinaram baseado a bater sem deixar marcas. Por Cr$
45 mil mensais às vezes chega a matar, "mas só quando o cara é frouxo". Os
acidentes de trabalho devem ser resolvidos por Piedade, a portuguesa que
pertenceu ao gabinete de Marcelo Caetano e que recebe Cr$ 120 mil "para dar
solução às besteiras de seus subalternos". Rosemary, beirando a debilidade
mental, é um paraíba de 22 anos recém-chegado a São Paulo. Para cometer
imprudências e servir de bode expiatório recebe Cr$ 30 mil mensais, sempre com
medo de Herrera, o chefe que não se compromete, nem com o dono da fábrica, o
industrial que distribui chocolates e leva um operário à morte. Resta Dodói,
marginalizado depois que fica louco. São esses personagens que transitam pela
sala de espera de um local de tortura. Representam, sucessivamente, as seis
fases pelas quais passa o torturador. Durante uma hora e 15 minutos, vêem-se às
voltas com um cadáver, um cliente assasinado e procura a maneira de divulgar o
seu suicídio.
— Tive a preocupação de
não colocá-los como doentes mentais nem como inocentes úteis —
observa Mario Prata
Foi durante o velório do
jornalista Wladimir Herzog, em 1975, que o autor começou a se
questionar, "vendo que tudo havia sido tão bem-feito, o suicídio, a
pericia técnica, o laudo médico". Na hora, uma peça começou a
nascer, Fotografia, seria seu nome, mas ele desistiu porque era
doloroso demais escrever naquele momento:
— E montá-la, então, era
impossível. Como não tenho vocação para ser escritor de gaveta,
desisti.
Quando começou a
trabalhar em Fábrica de Chocolate, seu estado emocional já era
outro, e o ano, 1979, janeiro. Não pretendeu denunciar, mas
registrar um momento histórico recente:
— Desvinculado de
qualquer partidarismo político. Fábrica de Chocolate mostra a
transformação do ser humano nesse final de século. É dedicada à
minha filha, que estava nascendo na ocasião em que escrevi
Dois produtores não
tiveram coragem de montá-la e três atores desistiram de seus papéis
em meio aos ensaios. Quando encenada em São Paulo, o elenco recebeu
ameaças, pelo telefone, do tipo "vamos jogar uma bomba no teatro".
Mas a polícia, sempre imediatamente chamada, nunca se negou a dar
cobertura ao grupo. O DOPS chegou a emprestar xícaras de café com
suas iniciais para serem utilizadas em cena. Mas não há instrumentos
de tortura, torturado ou violência. O autor, interrogado certa vez,
não chegou a passar pelas mãos dos, agora, seus personagens. E nem
se preocupou, ao escrever, em conversar com torturados:
— Sei que escrevi com
muito vigor, pois tinha certeza de que não seria encenada.
Mas Mario contou com um
subsídio bastante interessante. Um amigo apresentou-o a um jovem
médico que incluía em sua folha de serviço clientes sui-generis:
torturadores. Psiquiatra, foi convocado pelo Exército para servir às
autoridades como tal, podendo orientar o autor e, mais tarde, o
diretor:
— O psiquiatra serviu
como base de informação, do ponto-de-vista analítico, do padrão do
torturador — diz Ruy Guerra. Ou um quadro de neuroses o torna um
torturador, ou acaba neurótico de tanto torturar. O que se configura
é que sempre tem uma carga neurótica muito forte.
Por outro lado, Ruy
Guerra não estava interessado em abordar seus personagens sob o
ponto-de-vista psicanalítico:
— Não estou ali para
justificar nem para entender. A ajuda do psiquiatra nos levou a
compreender os tipos, como alerta para evitar o quadro psicológico.
Procuraram considerar a
tortura como uma questão normal, "embora seja uma coisa anormal".
Isto para evitar um posicionamento puramente ético e óbvio:
— Evidentemente, ninguém
defende a tortura ou o torturador — explica Ruy. O fundamental é, a
partir da pseudonormalidade da situação, mostrar como as coisas se
processam Constatar como os personagens são capazes de agir diante
de uma coisa aparentemente simples.
Controvertidamente, a
peça tem muito humor, provocando risos da platéia que, segundo o
diretor, se manifestam em dois níveis: pelo engraçado mesmo e também
por dessacralizar a tortura, obrigando o espectador a encará-la como
real e presente:
— O riso não só agüenta
a tensão nervosa que está ligada à temática, como obriga a refletir
sobre o riso de uma coisa que você não aprova. E os atores nunca
compactuaram com o riso da platéia.
A EXPLICAÇÃO DO
PSIQUIATRA DOS T0RTURADORES
SÃO Paulo—"O perfil da
personalidade e o tipo de comportamento nas situações criadas pelo
dramaturgo Mario Prata mereceram uma orientação técnica de um
especialista em clínica psiquiátrica. E foi neste aspecto que
prestamos alguma colaboração a nível de assessoria". Assim o
psiquiatra Edson Engels definiu a sua participação na elaboração da
peça Fábrica de Chocolate.
Com mais de cinco anos
de experiência profissional no Manicômio Judiciário, na clínica
psiquiátrica e no estudo aprofundado do comportamento agressivo,
Edson Engels salientou que houve necessidade de orientar os atores
quanto à forma de se conduzir na interpretação dos difíceis papéis
da história criada por Mario Prata, na montagem da antecâmara de uma
sala de torturas.
Muito embora haja a
ilação entre o que pretende o autor da Fábrica de Chocolate e os
episódios envolvendo o jornalista Wladimir Herzog e o operário
Manuel Fiel Filho, o psiquiatra Edson Engels destacou que, ao
prestar a sua colaboração no trabalho de Mario Prata "não visou
fixar nacionalidades. Tais fatos poderiam ocorrer na Alemanha
nazista como na Nicarágua de Somoza ou no Irã de Reza Pahlevi.
Preocupa-me, tão-somente, uma visão universal desse clima de
violência na repressão, como crime contra a humanidade".
O psiquiatra teve uma
reunião preliminar com os atores, diretores e o autor da peça,
definindo o perfil de cada um dos personagens, dando uma
interpretação do comportamento psicopatológico dos agentes
agressores. Por outro lado, ajudou em parte do trabalho de
laboratório, de acordo com as características que o autor
estabeleceu, sem alterar a criação artística do conhecido
dramaturgo, mas norteando como deveriam agir e reagir os atores
diante das situações previstas na história.
Cada personagem da
Fábrica de Chocolate mereceu por parte de Engels um tratamento
especial, na forma de como se conduzir o ator em cena. A Piedade,
por exemplo, ex-agente da Pide portuguesa, a mais inteligente de
todos e a mais culta, tinha uma especialização: a de resolver
problemas como o que propôs Mario Prata, transformando um crime
político em acidente de trabalho. Ela mesma não trabalha diretamente
com a tortura, mas age em posto de comando e orientação,
mostrando-se fria de sentimentos e muito objetiva.
O Herrera, por sua vez,
tem uma dose significativa de agressividade, portador de
inteligência média e com grau de cultura também nessa proporção.
Dois personagens, encarregados da ação violenta, têm dose muito
grande de agressividade e são os menos dotados
intelectualmente,"faltando-lhes a visão do outro", sendo portanto
insensíveis e atuando mecanicamente".
Outro personagem, Dodói,
representa "o fim de um indivíduo que, disse o psiquiatra, "realiza
esse tipo de trabalho. Perdeu o contato com a realidade. E fixou
tanto a agressividade, que só consegue na satisfação na agressão.
Trata-se do personagem que se revelou deteriorado pela dinâmica da
prática da tortura.