O
teatro de Mario Prata na primeira linha da dramaturgia brasileira
O Estado de S. Paulo 12/12/79
Sábato Magaldi
Como não deve ter sido fácil para Mario
Prata escrever nem para Ruy Guerra dirigir Fábrica de Chocolate, não é simples comentar
o espetáculo da Sala Gil Vicente do Teatro Ruth Escobar. Sugestões contraditórias
chocam-se, na análise do problema da tortura sob o prisma do torturador, restando uma
terrível perplexidade, como se se tratasse de um pesadelo em que não se deseja
acreditar.
Numa coisa andaram logo certos
dramaturgo e encenador: eles encararam a situação com a maior naturalidade, sem
emprestar-lhe a violência suplementar do grotesco ou da caricatura. Tudo se passa em
clima normal de cotidiano, o que aumenta a carga de crueldade. Houve, numa sessão de
tortura, um acidente de trabalho, que é preciso corrigir a todo custo, para não
comprometer a imagem do sistema. O menos inverossímil é transformar a morte em
suicídio, depois de uni-lo a um novo assassínio, para que o quadro adquira outras
características de veracidade.
Os episódios se sucedem com lógica implacável
dir-se-ia um quase rigor cientifico. A eficiência se desdobra nas mais variadas medidas,
desde a utilização de tipos diferentes de máquinas para o comunicado à imprensa e a
redação do laudo médico, até a lembrança de um pormenor anatômico dos suicidas. As
providências se encadeiam com o objetivo de não deixar aberta nenhuma dúvida suspeita.
Excetuado o erro de se fabricar um "material irrecuperável", tudo o mais se
torna perfeito.
Mario Prata revela uma lucidez surpreendente, em todas as
implicações de sua trama. Do psicológico ao social e ao político, Fábrica de
Chocolate não deixa desguarnecida nenhuma frente. Ele evitou pintar monstros
patológicos, às voltas com taras incontroláveis. Se foi lamentável o acidente,
inclusive porque impediu o responsável de assistir à partida decisiva de futebol, a
máquina repressora é acionada para restabelecer a ordem. Os funcionários exemplares
dominam a ciência de oferecer uma versão oficial indiscutível, assegurando até a
cumplicidade do industrial, de quem, aliás, se definem como os delegados práticos nas
tarefas menos nobres. Denuncia-se a completa solidariedade dos vários segmentos da
população opressora, quando o poder se sustenta pela força e pelo arbítrio.
O desenrolar inexorável da história se interrompe
antiilusionisticamente, em alguns pontos, para que um ator, fora das vestes da personagem,
forneça uma biografia sumária de outra personagem. O procedimento funciona para inocular
informações que, de outra forma demandariam maior tempo e
outro gênero de estrutura dramática. E, no final, o
operário da Fábrica de Chocolates Bem-Me-Quer é definido também como jornalista,
estudante, advogado, militartodos empenhados na obtenção de um aumento de salário
e de um pouco de paz para o País.
O realismo escolhido pelo autor provoca reações
inesperadas que talvez desconcertem o elenco
Por mais que seja dramático ou trágIco o episódio, os
diálogos provocam inevitáveis reações de riso. É o humor negro instalado no diálogo,
a farsa macabra dos acontecimentos exigindo o alívio da carga.
lhada. Sem essa reação, o espetáculo, talvez,se
tornasse insuportável.
É muito agradável reconhecer essas qualidades em
Fábrica de Chocolate. Mario Prata volta ao palco depois de oito anos de silêncio. Ele
havia escrito Cordão Umbilical e E Se Gente Ganhar a Guerra?, que tinham méritos
evidentes, mas estavam longe de um resulta do satisfatório. As falhas das duas obra .
eram, sobretudo, de fatura. Fábrica de Chocolate amadureceu formalmente e já atingiu um
nível muito bom. Mario Prata figura, agora, n primeira linha da dramaturgia brasileira.
O espetáculo de Ruy Guerra observa total fidelidade ao
texto, explorando-o nos múltiplos caminhos. Às vezes, ele parece um pouco lento, mas
esse ritmo comprova apenas que se vive uma rotina e não um momento excepcional. A
violência surge exatamente dessa burocratização da tortura. Torná-la prosaica e
"normal" aumenta-lhe o horror. A feiúra do ambiente desenhado por José de
Anchieta, com altas paredes que lembram masmorras medievais, ajuda a criar a atmosfera
rigorosa da ante-sala de torturas.
Todo o elenco entende e transmite muito bem os papéis.
Ruth Escobar, seca, objetiva, científica, está na melhor criação de sua carreira.
Rolando Boldrin, a princípio com inflexões estranhas, domina paulatinamente Herrera e
convence pela força interpretativa João José Pompeo (Baseado) partiu para uma
composição, eficaz e inteligente. José Dumont (Rosemary) tem a vantagem do físico já
indicado para a personagem. Mauro de Almeida (Doutor) reúne as várias facetas do
industrial. E Luiz Carlos Laborda (Dodói) cria com extrema síntese o paranóico
assassino.
Temia-se que o abrandamento da Censura liberasse muitas
peças frouxas e inexpressivas. Na verdade, diversos textos só se tornaram notórios
graças a uma estúpida interdição. Fábrica de Chocolate alinha entre as exceções que
emprestam magnitude à abertura que está repondo o País na sua trajetória de grandeza
histórica.