O teatro ilumina os porões mais sórdidos da violência
O Estado de São Paulo 12/12/1979
Mariangela Alves de Lima
Uma vez mais a
comunicação artística recupera a dimensão de foro social, criando um espaço onde
estamos todos, direta ou indiretamente, representados. Por um lado dignificados pelo
direito de saber e por outro lado responsabilizados porque nos foi dado o acesso à
árvore da ciência. Estamos todos nós, espectadores, numa situação análoga à dos
artistas que se empenharam na execução do espetáculo A Fábrica de
Chocolate, de Mario Prata, com direção de Ruy Guerra. Apenas, vale a pena
observar, eles já iniciaram uma ação transformadora no momento em que tornaram público
o conhecimento a que tiveram acesso. Seu trabalho torna mais difícil, ligeiramente mais
difícil, a perpetuacão desse estado de violência que não pertence aos anais do
passado, mas integra ainda o nosso cotidiano.
Como um trabalho que se propõe a
iluminar os porões mais recônditos e mais sórdidos, o espetáculo é organizado para o
máximo de clareza e precisão. A limpeza cristalina das imagens, a ênfase correta nos
pontos em que se esclarecem as causas, corrigem a ótica do espectador para poder
assimilar a extensão da violência, sem perder a perspectiva dos mecanismos que a tornam
possível. A revolta e a emoção não têm nada a ver com recursos cênicos. São a
conseqüência natural do contato que esse teatro nos obriga a retomar com uma história
que está indissoluvelmente imbricada no cotidiano.
Com atraso, e ainda com muita
dificuldade, o teatro começa a recuperar uma função que lhe foi interditada: a de
contar para os espectadores os fatos mais urgentes e terríveis da nossa história
presente. Nesse sentido a peça de Mario Prata não é a primeira que os espectadores
paulistas viram este ano. Mas é, sem dúvida, a mais nítida, a mais profunda e é
provavelmente o passo mais largo em direção a um teatro renovado, a um teatro que cumpre
até o limite máximo toda a sua potencialidade.
Os fatos que estão em A
fábrica de de chocolate não são totalmente ignorados pela opinião pública. E
não são porque a parte mais ativa e corajosa da imprensa do País assumiu (e pagou caro)
a ousadia de levar ao público o que esse público tinha o direito e o dever de conhecer.
O que o teatro faz agora é ampliar o limite desse bloqueio parcialmente furado até o
ponto de não permitir ao cidadão o desconhecimento voluntário dos fatos.
Por natureza, o teatro estabelece uma
sintonia direta entre o estado anímico do público e a intensidade original do fato. O
que está em cena é uma verdade, mas é ainda verdade e outra vez verdade. A ficção em
cena cria uma ligação direta e insofismável entre o acontecimento e o espectador
formalmente passivo diante desse acontecimento.