FÁBRICA DE CHOCOLATE

FICHA TÉCNICA

CRÍTICA

CRÍTICA

 

Fábrica de Chocolate - nasce com a história
Folha de S. Paulo 14/12/1979
Jefferson Del Rios

Salvo engano, "Fábrica de Chocolate", de Mario Prata, já é um texto/espetáculo histórico: porque é o primeiro teatro sem metáforas inúteis que se apresenta no País após anos de mordaça. A obra não esconde um só instante, está focalizando os subterrâneos da repressão no Brasil. Nem é preciso dizer explicitamente o nome de pessoas e locais para que tudo seja inteiramente claro: é ali o inferno brasileiro recente e — como todos sabemos — apenas momentaneamente desativado.

Os palcos viveram durante muito tempo de migalhas de realidade, uma intrincada rede de subentendidos, meias palavras e alusões oblíquas que, em alguns casos, se transformaram em uma espécie de código, ao alcance, do elenco e de uns tantos e isolados espectadores. A nação sangrava e a boca de cena emitia só um arremedo do verdadeiro grito que dever ia varar a consciência das pessoas. Mais não era possível.

"Fábrica de Chocolate" mostra por dentro, em diabólica rotina, o aparelho policial-militar encarregado de anular qualquer cidadão suspeito de incompatibilidade ativa com o regime. O autor construiu a peça a partir de um dado: um homem morreu durante a tortura e o órgão repressor precisa simular um acidente Que não se assustem os sensíveis: não há violência direta em cena. Tudo já aconteceu e ação consiste nos preparativos para provar que o morto, operário de uma fábrica de chocolate, suicidou-se. Já ouvimos esta história em algum lugar, não é mesmo? Ou várias.

Mario Prata recolhe na memória geral uma das inúmeras tragédias políticas que vivemos ou tomamos conhecimento, acompanhamos e choramos nas pequenas notícias, conversas semi-sigilosas, por meio de fatos verdadeiros mas difíceis de provar. E nos protestos que aumentaram à medida que a sociedade civil pode articular um mínimo de resistência ao arbítrio. Generosa contribuição da dramaturgia ao esforço geral de coragem e desentorpecimento. O escritor quis retratar o brasileiro que tortura o semelhante como alguém que tem família, se confunde na rua com a multidão, e gosta de futebol. O burocrata da morte. A peça registra .diversos escalões do aparato repressivo, do carcereiro-torturador, passando pelas chefias intermediárias, aos escalões superiores (não se vai, claro, às grandes eminências. Que condições?).

Mario Prata passou por um fio do tratamento psicologizante e bom mocista do tema. Por um triz não tratou estes criminosos em nome da lei como quase vítimas de uma engrenagem (em Nuremberg todos também disseram cumprir ordens); ou como psicopatas necessitando de tratamento. A versão final da obra chega, felizmente, à mostragem verossímil dos grupos encarregados de lidar com presos políticos. A peça evidencia em Prata a capacidade de concisão literária, cortes bem feitos na ação, humor no momento adequado e traços seguros na construção dos personagens. Um trabalho do qual, por todos motivos, pode-se orgulhar.

A gravidade do assunto, a rara oportunidade ao palco — e porque sempre se espera mais do teatro — pediam um espetáculo com grandeza e total homogeneidade na concepção cênica e interpretativa. Ruy Guerra realiza uma montagem sóbria, eficiente de certa forma, mas necessitando de um forte toque final, da severidade orgânica e devastadora que o tema propicia (e que se notava, por exemplo, em "O Interrogatório", de Peter Weiss/Celso Nunes, para lembrar de assunto semelhante). Nem todo elenco está adequado aos papéis e Ruth Escobar sublinha demais o caráter pérfido do personagem, incorrendo em didatismo direta e desnecessariamente atirados à platéia João José Pompeo é o ator que encarna perfeitamente o tipo humano pretendido, o policial tal como o encontramos freqüentemente por aí: aquela dosagem ambígua de cafajestice e tensão interior, o território psicológico onde o bom humor e a violência não têm fronteira definida. Pompeo transmite este clima a partir do porte físico, olhar carregado e, fundamentalmente, da maneira de se deslocar em cena.

"Fábrica de Chocolate" é. em todo caso, um espetáculo de Ruy Guerra, artista com a compreensão social e política do mundo, um nome que garante a seriedade do empreendimento. As pequenas falhas apontadas (e outras) talvez sejam corrigidas pelo diretor. Como a cena inicial, com Rolando Boldrin ao telefone, importantíssima mas quase inaudível dada a marcação desfavorável. Mas é, com grandes acertos e pequenos defeitos, uma encenação importante que resgata a dignidade duramente atingida do teatro e a memória de tantas vítimas.