NÃO
PERCA
ISTOÉ 19/12/1979
Ilka M. de Andrade Zanotto
De Mario Prata.
Direção de Ruy Guerra Cenários de José de Anchieta. Com Rolando Boldrin, Ruth Escobar,
José Dumont, João José Pompeo, Mauro Almeida e Luís Carlos Laborda. Teatro Ruth
Escobar, São Paulo
Fábrica de Chocolate não é apenas o
retrato fiel, doloroso e repugnante de um período negro de nossa história. Vai além do
registro jornalístico e lança no ar indagações de natureza psicológica, sociológica,
política e, principalmente, ética, ao expor cruamente o comportamento anômalo de seres
humanos que se prestam ao papel de torturadores. Ambientado nos porões da ditadura,
aqueles desvãos de lixo que garantem a permanência das fachadas das sociedades injustas,
o texto não economiza detalhes de um horror que às vezes resvala para o humor negro. Ao
mesmo tempo em que nos constrange esse humor extemporâneo é impossível esquecer
um só momento que se trata da soma de acontecimentos reais , compreende-se a
necessidade teatral das "brechas", para que o público possa suportar o
espetáculo.
Ruy Guerra dirige com a exatidão de um
cronômetro o entrecruzar de atos e falas dos personagens sinistros, tão à vontade na
sua tarefa "higienizadora" quanto o seriam funcionários burocráticos de uma
repartição pública qualquer. José de Anchieta traduz ao pé da letra a expressão
"porões da ditadura" nos cenários lúridos e deprimentes, toca de ratos
eficientemente aparelhada para quebrar resistências, sufocar gemidos, abafar suspeitas e
fabricar álibis. Pompeo, Boldrin e Dumont desenham com perfeição o perfil psicológico
de seus personagens, tendo em comum a normalidade aparente e a selvageria contida. Ruth
Escobar é excelente na interpretação maquiavélica da lésbica "mestra de quebrar
galhos". Mauro de Almeida é convincente como o industrial que sustenta
economicamente a repressão. Luís Carlos Laborda, espectral como "Dodói",
revela na avidez de vampiro a verdade hedionda comum a todos: a esqualidez de indivíduos
treinados para esmagar outros indivíduos em nome das razões de Estado...
Mario Prata, com Fábrica de Chocolate,
realiza o melhor texto de sua carreira e propõe uma reflexão amarga não somente sobre a
realidade brasileira como também sobre o deterioramento da qualidade do humanismo nesse
fim de século, evidenciado pelos números e dados insuspeitos da Anistia Internacional,
os quais apontam o aviltamento, as prisões e as torturas a que são submetidos os
cidadãos de dezenas de países.