História
recente
Visão 21/01/1980
Carlos Ernesto de Godoy
Fábrica de
chocolate, de Mario Prata; direção de Rui Guerra; cenários e figurinos de José de
Anchieta. Elenco: Ruth Escobar, Rolando Boldrim, João José Pompeo, José Dumont, Luís
Carlos Laborda, Mauro de Almeida. Teatro Ruth Escobar, São Paulo.
Obra de um autor que viveu de
perto o problema, sabendo sobretudo digerir com calma os fatos impostos ao país, Fábrica
de chocolate apresenta sutilezas da melhor tessitura dramática, a credenciá-la como um
dos textos mais importantes do ano. Não bastasse a paciência dos verdadeiros criadores,
Prata consegue fazer dessa abordagem de nossa história recente um libelo definitivo
contra os regimes de força, justamente por apresentar a tortura pelo seu ângulo menos
conhecido: o do torturador. No crescendo de informes que se juntam sob nossos olhos, os
personagens se vão delineando pouco a pouco para avultar, a certa altura, em toda a
riqueza dos perfis. É quando percebemos a presença de monstros e inocentes,
mediocridades oficiais e oportunistas se somando em nome de um sistema que não admite
contestação e forja verdades de acordo com as necessidades do dia-a-dia.
A leitura de Ruy Guerra, densa, amplia
os traços e dá dimensão ao painel, a resultar em algo sórdido mas elegante, como
expressão do sangue-frio com que se conduziu o jogo (a música de Vivaldi, por exemplo,
num dos momentos cruciais da ação; o convite de Piedade ao industrial para uma reunião
em sua casa momentos antes do sacrifício de outra vítima).-A excelência da
direção reflete-se sobre todo o elenco, ernbora algumas atuações se destaquem: a de
Rolando Boldrim, como o diligente Herrera; a de Ruth Escobar, como a chefe de toda a
estratégia policial; a de João José Pompeo, na pele do
executor-chefe das torturas. Uma iluminação bem dosada e dinâmica
ajuda a compor o background sufocante sugerido pelo cenário de José
de Anchieta, a lembrar as masmorras medievais. Um ritmo perfeito, em
suas pausas lancinantes, faz do espetáculo, afinal, uma das mostras
maiores da temporada e o transforma, sem dúvida, num dos arautos do
novo teatro brasileiro.