Mario
Prata falando da doença do sistema na peça Fábrica de Chocolate
DIARIO DO POVO 16/03/1980
Célia Búrigo
Novelista, autor de teatro, jornalista,
entre outras coisas. Mario Prata fala nesta entrevista a Célia Búrigo, do começo de sua
carreira, de televisão, de suas experiências, faz uma pequena análise política da
atual situação brasileira, e comenta a peça que está hoje, no seu último dia, em
Campinas. "Fábrica de Chocolate, diz Mario Prata, foi para a censura, graças ao
incentivo de Ruth Escobar, que lutou até o último momento para apresentar o espetáculo.
Mario Prata, quando era jornalista, já fazia teatro. Escreve profissionalmente desde
1960, quando tinha 14 anos. Agora ele diz que não é um cara de televisão, nem de
teatro, nem de cinema, nem jornalista; faz as quatro coisas à medida que dá.
O autor de "Fábrica de Chocolate" trabalha muito, sugerindo que seu
profissionalismo é maior que a criatividade Com escritório fora de casa, escreve todas
as tardes; sem ponto, mas com método. Algo do bancário que foi em Lins, sua cidade
natal. Ele definiu-se como um "profissional do ato de escrever" e quando não
tem serviço, escreve cartas.
Mas ele tem tido muito serviço. Após escrever duas peças de teatro, "O Cordão
Umbilical" e "Fábrica de Chocolate" que o está consagrando, já tem outra
em andamento, "O Badaró de Cabelinho". Também terminou o roteiro de
"Fábrica de Chocolate" para cinema e um desenho animado para crianças, chamado
"Circo". Já está com convite para outro filme, e também para outra novela,
mas ainda não sabe se vai aceitar...
Afinal, foi com novelas que seu nome ficou famoso. Quem não ouviu falar do-
"Estúpido Cupido"? Mario Prata já pensou até em fazer um filme com os noventa
por cento de coisas que não disse naquela novela. Mas, pelo sim, pelo não, foi com o
dinheiro desta novela que ele pode ficar seis meses escrevendo a "Fábrica de
Chocolate", que hoje é sucesso reconhecido.
O
começo
Fiz o "Estúpido Cupido" numa preocupação muito grande de querer dar
recados, de contribuir politicamente, fazer a cabeça das pessoas e foi um erro. Acho que
novela das sete não derrubava governo, mas... pode manter. (Ele riu).
Quando entrou para televisão, nunca havia assistido uma novela, preconceito que ele
dividia contra a própria televisão. E explicou:
Eu não tinha o aparelho, o móvel (eu acho que televisão não é aparelho, é um
móvel igual a um criado-mudo, e esse é um outro debate). Agora vejo de tudo, Hebe, O
Homem do Sapato Branco, só não vejo mais por causa das crianças (tem dois filhos). Mas
a gente, assim como no casamento, tem que fazer e assumir; por isso não tenho nada contra
ser taxado de autor de novela. Já tive, não tenho mais.
Televisão
Como novelista, Mario Prata disse que a televisão brasileira vai crescer no dia em que
descentralizarem a produção. "Embora utópico, esse é o caminho: criar pólos em
cada região". Para completar, falta criar linguagem para ela:
Mais jovem do que eu a tevê não formou uma equipe do próprio veículo. O pessoal
veio do rádio. adaptado, e agora é que está entrando numa nova mentalidade a nível de
criação. A novela de cinco anos atrás é completamente diferente. Não digo que a
novela agora fala da realidade brasileira, longe de mim
(Como disse o assessor do ministro da Justiça, Ibrahim Abi Ackel, em Brasília,
reclamando que a televisão brasileira não retrata a realidade do País eu quieto
ouvindo o cara falaraí ele disse "só tem um programa que retrata a realidade
brasileira, que mostra o Brasil, é Amaral Neto. O Repórter").
Mario Prata acredita no veículo, não neste ou naquele canal. "Sempre que eu for
chamado, eu traço; inclusive pelo salário: é bom ganhar dinheiro, não tenho nada
contra, já tive". Citou Mario Vargas Lhosa que sonha em escrever para tevê e disse
que na Alemanha, viu os maiores escritores trabalhando para a televisão.
Experiência
Foi lá, entre os alemães, que Mário Prata viu como era utilizada a televisão
financiando o cinema. Tanto é que, se de um lado os cinemas são todos
"pequenininhos", os filmes passam seis meses antes em algum canal e depois no
cinema. O que agradou Prata, e o fez produzir filmes de Herzog para a televisão daquele
país.
Justificou a idéia julgando "idiota a gente sair de casa, pegar um carro, uma fila e
depois entrar numa sala imensa com milhares de pessoas, onde às vezes o som não é bom,
enfim, gastar dinheiro:" Mario Prata acha, inclusive, que a nossa televisão tende a
enveredar por este caminho: financiar cinema!
Política
Se a fase negra já passou no teatro, com autores deixando as entrelinhas e metáforas, o
sistemas político, econômico e social continua o mesmo, segundo o jovem escritor.
"O sistema continua nas mãos das mesmas pessoas que torturavam em 1975, só que
figuras do mesmo Ministério estão agora disfarçadas de democratas.
Prata também comentou que é um horror o que o governo vem aprontando para aliciar
adeptos ao PDS. "Estava ouvindo o rádio, o PT tem um senador. E o PT e o único
partido que vem da oposição, eu só acredito no que vem de baixo para cima. Ao PT,
saudações", concluiu a idéia. Ruth Escobar, a seu lado, retrucou que esta era uma
longa discussão, que ela não via nenhum partido de oposição por enquanto .
O espetáculo
O embrião de "Fábrica de Chocolate" veio de indagações, reflexões durante o
velório do jornalista Wladimir Herzog . A recordação surge sem embaraço:
Estava eu o o cunhado do Wlado, João Ribeiro
Chaves, que escreveu uma peça sobre tortura, "Patética", que também ganhou
prêmio do SNT, dois anos atrás. Era uma noite fria no Alberto Einsten e eu fiquei
sentado ali, imaginando... Tinha fotografia do Wlado pendurado, foto do sulco no pescoço,
a língua de fora, todos detalhes, e eu comecei a imaginar quem é que fazia aquele
serviço, alguém tinha que ter idéia de que corda por no pescoço, idéia de rasgar o
papel.
Na impossibilidade de escrever diretamente a peça, que não seria contada naqueles anos,
a história foi crescendo apenas na cabeça do autor. Este processo tornou-se importante
porque Mario Prata tomou cuidado ao escrever; partiu do princípio de não conversar, não
pegar depoimentos pessoais de quem tinha sido torturado. Tanto é que nem tortura nem
torturado aparecem em cena.
Como diz Ruth Escobar, a peça só tem o lado de lá, o lado de cá é a platéia...
Sorte ou perspicácia, Mario Prata descobriu um analista de torturadores, uma figura
importante no seu processo de criação.
O psiquiatra
Imaginem que eu consegui descobrir um sujeito que era psiquiatra de torturador. E
esse sujeito me deu muita informação, eu mostrava o texto para ele e ele ma dava
orientação do lado psicológico dos torturadores explicou o escritor.
O tal médico, cujo nome não vai ser revelado nunca, acompanhou o elenco durante ensaios,
e fez toda a equipe mais consciente e próxima da realidade. O trabalho,
conseqüentemente, é história pura, dos anos de obscurantismo no Brasil.
O dramaturgo confessou sua preocupação em não mostrar o torturador nem como doente
mental porque aí estaria justificando "ele faz isso porque é anormal" nem como
um inocente na mão do sistema. E disse mais:
Dami Trioni, por exemplo, veio para o Brasil ensinar tortura em Belo Horizonte, depois foi
para o Uruguai onde foi assassinado. Ele morava no interior dos Estados Unidos e veio para
o Brasil simplesmente porque o salário era bom. Era um funcionário casado, rotaryano,
pertencia à Igreja Presbiteriana, com filhos, .tudo direitinho. O trabalho dele era
tortura.
O que a peça denuncia, portanto, não é a doença do torturador, é a doença do
sistema. "Também não estou defendendo nenhum torturador", esclareceu Prata.
O mais chapante e o mais dolorido é ver que as pessoas que estão ali podiam ser
seus parentes, e vivem como se trabalhassem nas caixas dos Correios e Telégrafos.
Medo
Mario Prata não imaginava que a peça seria montada. Se soubesse, não saia isso.
"Essa peça não teve medo nenhum porque achei que não seria montada, se soubesse,
teria dado tantas curvas... Escrevi para minha filha que tinha acabado de nascer!" E
disse isso num bilhete para a Ruth, que após a leitura do texto quis montá-lo imediato.
Prata achou loucura. Era maio do ano passado, não tinha saído a anistia, ninguém sabia
se ia sair. O presidente João Baptista Figueiredo estava acabando de tomar posse.
"Não queria colocar a cabecinha-de fora sozinho. E olha eu aqui dizendo coisas e
"fiu" (passou o dedo indicador de lado a lado na garganta). Aí a gente começou
a sentir a barra e achou que estava na hora de soltar a peça.
Mesmo assim, Mario Prata disse que foi um ato de muita coragem de Ruth Escobar. E dos
artistas que estão no palco...
Ao lado da empresária, ele falou da dificuldade para a montagem do elenco e citou várias
vezes o ato corajosíssimo da grande atriz e empresária.
Ruth Escobar
Mario Prata assim como a crítica paulista, também sente
Ruth desempenhando seu melhor papel, no texto que o autor considera o melhor produzido
até o momento em sua carreira literária. Contou ainda que chegou a pensar em Ruth
durante os escritos, ,pois a atriz, como a personagem é uma portuguesa.
Foi ela quem conseguiu incentivá-lo a mandar o texto para a censura (da qual saiu ileso
felizmente) e quem lutou até o último momento para apresentar o espetáculo. O novelista
mostra-se satisfeito com tal atitude, e não esconde isso de ninguém.
O mesmo esquema que Ruth Escobar fez na "Revista do Henfil" ela pretende
realizar com "Fábrica de Chocolate". Após pagar a produção, que não foi das
maiores, a empresária vai levar o espetáculo para dois ou três sindicatos do Estado de
São Paulo.
Após meses de apresentações em São Paulo, a peça
cumpre seu último dia de temporada hoje em Campinas, partindo para Santos, depois Rio, e
finalmente Brasília. No Rio, eles pretendem dedicar parte da renda da estréia para o
Movimento Sindical Primeiro de Maio. Isso porque autor e diretor abrem mão de sua parte
nos lucros, incentivando a popularização do teatro
Premiada pelo MEC, através do Concurso do Serviço
Nacional do Teatro, "Fábrica de Chocolate" vai ser a segunda peça que
Guarulhos assiste nos últimos quinze anos.