PREFÁCIO
DE RUY GUERRA
FÁBRICA DE CHOCOLATE é um desafio para
todos.
É um desafio porque nos obriga a encarar frontalmente um tema que até há bem pouco
tempo era tabu em letra de forma e se falava apenas a meia voz, olhando em volta pelo
canto dos olhos: a tortura. Um fato oficialmente desmentido e que ironicamente às vezes
se comprovava, praticado por aqueles que o negavam, naqueles que afirmavam a sua
existência.
FÁBRICA DE CHOCOLATE é um desafio, sob o ponto de vista de dramaturgia, porque o autor,
recusando a emoção que poderia criar a partir da condição da vitima emoção
amplamente justificada , optou por aprofundar a sua perplexidade, buscando entender
os valores e a mecânica daqueles que exercem essa função degradante.
Este posicionamento é resultado de uma postura política e humana clara. A de assumir a
responsabilidade, de forma total, pelos valores da sociedade a que se pertence, mesmo
quando se luta contra eles. Assumir a sua responsabilidade, como cidadão e ser humano, do
mesmo modo como se assume o orgulho do homem que põe o pé na lua ou isola o vírus da
poliomielite.
Quando um homem se avilta, aviltando um outro homem, todos nós somos esses dois homens. E
para recusarmos essas duas faces, para cunharmos uma nova moeda, Mario Prata procurou
compreender e mostrar o lado mais infamante. O lado do torturador.
FÁBRICA DE CHOCOLATE é apenas um breve episódio do longo processo repressivo dos
últimos anos. Um episódio anônimo, sem eco, feito de personagens desconhecidos, mas
terrivelmente presentes, criados e estimulados por um sistema em crise. Do outro lado,
apenas um morto. Um nome. Os personagens são homens e mulheres, no exercício da sua
profissão, uma profissão tão distante e inadmissível e que, no entanto, por vezes nos
surpreendem pela sua proximidade. Porque têm duas pernas, dois braços, uma cabeça,
idéias, emoções nem sempre claramente diferenciadas das de qualquer um de nós.
Mas não existe margem para qualquer mal-entendido. A sua função é clara, definida. A
sua ação, no quadro da história que nos é contada uma história já sabida
é cheia de surpresas e distâncias, de prazeres e ansiedades que não nos
pertencem. A lucidez crítica do texto é que nos permite compreendê-las. E dessa
compreensão retiramos a certeza que não é no homem isolado, nem no pequeno grupo de
torturadores, que se encontra o núcleo do problema.
Embora o grau de capacidade profissional e de responsabilidade de cada um seja distinto,
dentro de competências e hierarquias bem definidas, como bem distinto é o grau
patológico se o analisarmos sob um ponto de vista psicanalítico (resultante de um
processo de desumanização ou partindo de indivíduos já providos de uma carga
neurótica para melhor exercerem uma tarefa em que a afetividade é violentamente
questionada), e embora essa responsabilidade seja um fato também individual, é no Estado
que os arregimenta, treina, paga regiamente, lhes fornece um estatuto de impunidade e
falsos valores cívicos para se estruturarem psicologicamente nessa função, que está
aquilo que deve ser combatido.
O torturador é um resultado, não um ponto de partida. A discussão deve-se situar no
plano mais amplo do sistema que o utiliza, como um dos instrumentos para salvaguardar os
privilégios de uma minoria. A discussão sobre a patologia desses funcionários
públicos, é relevante, mas secundária. Mario Prata teve a sabedoria de procurar não
abrir o debate sobre o tema, para não cobrir de poeira uma proposta mais significativa. O
sadismo é um dado de cada personagem, faz parte do seu equipamento, como um alicate ou um
cinto.
Ë mostrando seres humanos complexos, usando uma linguagem estimulante e verdadeira, que
por vezes os aproxima de nós, que esse texto nos desafia agudamente, sem maniqueísmos.
Mario Prata sentiu a necessidade deste questionamento, durante o velório de Wlado Herzog.
Porque a tortura, não sendo uma inovação do regime militarista dos últimos quinze anos
(basta lembrar os horrores da polícia política do falecido senador Filinto Müller,
quando chefe de polícia da ditadura Vargas), conseguiu uma proletarização, de baixo
para cima na escala social, na qual o caso Wlado é um exemplo marcante.
Mas Mario Prata não deixou que a forte emoção pessoal o desviasse de um questionamento
que julgou mais urgente, talvez porque menos visível. E para isso, teve a preocupação
de acrescentar um dado fundamental nesta terrível história que nos é contada sem pudor,
com um humor irreverente que, por vezes, rompe a crueza da situação: a de transformar a
sua mais direta ligação com o jornalista e intelectual barbaramente assassinado, num
operário, mais revelador do processo repressivo no corpo social.
Foi também escolhendo, dentro do grupo de torturadores, o menos preparado para a sua
missão, o menos formado ideologicamente, o que vem da rebeldia do povo sem forma de
expressão política organizada e levado a uma função inversa, para nos dar alguém a
quem talvez ainda a gente se sinta com o direito de olhar com alguma simpatia
talvez porque o olhamos mais longamente como Flaubert define o amor , que Mario
Prata, lucidamente, nos dá um chão para respirarmos, numa situação emocionalmente
insustentável. Mas para logo nos dividir, obrigando a repensar a nossa necessidade de
solidariedade não exercida, como se num final de campeonato, descobríssemos no torcedor
do lado um torturador-corintiano ou um torturador-flamenguista.
A memória nacional dos povos é sempre omissa em registrar a história dos oprimidos.
Este é um texto sobre o escravo, contado do lado do chicote.
Por acreditarmos que o homem e a sociedade só se transformam se os olharmos de frente,
podendo falar, não nos sentimos no direito de ficar calados.
RUY GUERRA
São Paulo, nov 1979
PS. Por vezes o verbo torturar tem
tendência a ser conjugado no passado. É importante lembrar que é no presente, agora
mais vitimando prisioneiros do direito comum do que prisioneiros políticos, que ele se
conjuga cotidianamente. Com a mesma violência e o mesmo significado.