A
descrição dos monstros
Movimento 17 a 23/12/79
Fernando Peixoto
Texto corajoso de Mario Prata, encenado
com meticulosa precisão por Ruy Guerra, no Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, Fábrica
de Chocolate recoloca em questão o próprio significado do teatro como instrumento capaz
de instaurar uma reflexão crítica mais ampla e contraditória, renovada e conseqüente.
E isso no instante em que o teatro profissional parece debater-se incerto entre a
superficial euforia de uma liberdade relativa recém-conquistada (ainda que incerta e
insegura: os integrantes do Teatro Oficina, por exemplo, continuam arbitrariamente
suspensos) e a irrecusável confusão de redefinição de seu projeto ideológico.
O espetáculo possui uma série de virtudes raras. Retoma, sem
medo, a discussão sobre a tortura e a violência sangrenta do sistema, sem recusar entrar
dentro do corpo vivo das carrascos. Ao contrário, o texto de Mario Prata assume o risco
de dissecar as vísceras dos torturadores.
Carrascos e vítimas
Fábrica de Chocolate descreve;monstros. E mostra-os
implicados numa ação monstruosa. Mas sem deixar de levar em conta o mais trágico:os
monstros são homens que um determinado sistema de produção, em determinado estágio de
sua crise, cria para defender-se das forças progressistas que, sufocadas, se empenham sem
medo na construção da justiça.
Sem dúvida, uma visão complexa, que recusa o fácil e o
já conhecido. Seria possível afirmar que Fábrica de Chocolate acaba mostrando carrascos
que, ao mesmo tempo, são vítimas que têm sua origem num modelo econômico preciso O
tema é lançado para o espectador de forma clara: é preciso buscar as origens da tortura
e o texto evidencia, talvez pela primeira vez em nossa dramaturgia, que o aparelho
do Estado é "municiado"- pelo acordo e pelas verbas das classes econômicas
dirigentes O fascismo é uma etapa extrema do capitalismo Neste sentido, a aparente
simplificação de tudo em apenas cinco personagens, acaba-funcionando não como pobreza
de dramaturgia, mas como rigor didático: cada repressor tem seu papel, sua função, na
tentativa de recolher e inutilizar aquilo que chamam de "o lixo da sociedade".
No caso do texto, um militante comunista.
Não há invenção de estrutura ou linguagem na peça de
Mario Prata. Chega mesmo a ser um texto tradicional de teatro realista psicológico,
apesar de certa liberdade de organização dos personagens. O que há no espetáculo, de
profundamente saudável para o teatro brasileiro é a encenação de Ruy Guerra. Ele
consegue realizar um realismo seco, contido, expositivo. Com extrema consciência dos
perigos da abordagem política proposta, principalmente se enveredasse para o
melodramático ou a auto-piedade. Ruy Guerra realiza, com tranqüila segurança, uma
direção rara no teatro brasileiro: tudo é exposto de forma lúcida e racionaL Cada
gesto ou movimento, cada pausa ou cada instante de ação estática, possuem um
significado nítido, que se revela e se desdobra, ao espectador, como elemento de
pesquisa.
Assistir Fábrica de Chocolate, neste sentido, é
reconfirmar todas as teorias que insistem em que, além da emoção e da paixão, o debate
político e ideológico, em cena, precisa ser conduzido com uma firmeza que não deixa de
ser aberta. E de forma límpida. Difícil encontrar na dramaturgia brasileira hoje, um
texto mais agressivo, em nível de diálogos e em exposição de uma situação da mais
concreta crueldade e igualmente polêmico, como esse de Mario Prata.
Silêncio e vazios
Igualmente difícil no teatro brasileiro de hoje, um
encenador que, trabalhando com palavras fortes, tenha escolhido tratá-las como
matéria-prima cênica que não reflete exclusivamente conturbados movimentos interiores
de cérebros destruídos e porcos, mas como trechos de pensamento a serem examinados, por
mais terríveis e sórdidos, com cuidado e atenção, desconfiança e surpresa. O que mais
impressiona em nível de linguagem cênica, neste doloroso espetáculo que, sem dúvida,
provocará uma polêmica viva, é que Ruy Guerra realizou uma encenação de silêncio e
de significativos movimentos vazios Justamente para ressaltar o que é dito. Nos coloca
diante da repressão em ação. Para não calar diante de crimes políticos recentes, que
podem recomeçar a qualquer instante.