Para a Fundação Clóvis Salgado, de Belo Horizonte, o
teatro mineiro andava sisudo demais, precisando de uma boa sacudida. Assim, encomendou ao
teatrólogo Mario Prata, um mineiro radicado em São Paulo, uma peça sobre a figura de
dona Beja, um dos grandes mitos da história de Minas Gerais. O espetáculo, apresentado
de 8 a 19 de outubro no Palácio das Artes e que no dia 30 estreará em Brasília,
seguindo depois para Goiânia e São Paulo, foi bem mais que uma sacudidela. Além das 5
000 pessoas que passaram pela bilheteria um recorde para produções mineiras,
a peça transformou-se num escândalo local pelas liberdades que Prata tomou com a figura
de dona Beja.
Nascida Ana Jacinta de São José, o personagem teria vivido em Araxá, no Triângulo
Mineiro, no século XIX. Segundo alguns historiadores, foi graças a seu poder de
sedução sobre o ouvidor de Goiás que Minas arrancou do Estado vizinho 94.500
quilômetros quadrados de território uma façanha discutível, como aliás é
discutível a própria existência de dona Beja.
Mário Prata, autor das peças "Cordão Umbilical", "Fábrica de
Chocolates" e das novelas "Estúpido Cupido" e "Dinheiro Vivo",
recebeu a incumbência de dar vida ao personagem, ganhando 350.000 cruzeiros como
adiantamento dos 10% de direitos autorais: "Depois de ouvir historiadores e ler
livros sobre ela, concluí que quase tudo escrito a respeito de dona Beja era folclore.
Assim, imaginei a peça como um conto de fadas".
DEBOCHES E PSICÓLOGORecheado de palavrões e cenas de sexo, trata-se de um conto de
fadas bastante peculiar: nele, dona Beja (interpretada por três atrizes, Branca Luiza,
Bete Coelho é Wilma Henriques) é apresentada como uma prostituta bem-sucedida, um hábil
produto de propaganda para atrair turistas à estância hidromineral de Araxá.
"Estou sendo cobrada em meu círculo de relações por fazer a peça", desabafa
a experiente Wilma Henriques, mais de vinte anos de palco.
Problemas piores enfrentou
Branca Luiza, 20 de idade: sua família abandonou o Palácio das Artes durante a estréia,
protestando contra os deboches, e queria que ela deixasse a peça, ameaçando chamar um
psicólogo para examiná-la. A Censura mandou cortar apenas uma alusão ao Hino da
Independência e o superintendente do Palácio das Artes, Nestor Santana, está satisfeito
com a iniciativa de contratar um autor e pagar adiantado: "'Dona Beja' deu certo e
esse pode ser um novo caminho"
Veja, 29
de outubro de 1980