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DONA BEJA

APRESENTAÇÃO

 

DONABEJA.jpg (17629 bytes)Para a Fundação Clóvis Salgado, de Belo Horizonte, o teatro mineiro andava sisudo demais, precisando de uma boa sacudida. Assim, encomendou ao teatrólogo Mario Prata, um mineiro radicado em São Paulo, uma peça sobre a figura de dona Beja, um dos grandes mitos da história de Minas Gerais. O espetáculo, apresentado de 8 a 19 de outubro no Palácio das Artes e que no dia 30 estreará em Brasília, seguindo depois para Goiânia e São Paulo, foi bem mais que uma sacudidela. Além das 5 000 pessoas que passaram pela bilheteria— um recorde para produções mineiras—, a peça transformou-se num escândalo local pelas liberdades que Prata tomou com a figura de dona Beja.

Nascida Ana Jacinta de São José, o personagem teria vivido em Araxá, no Triângulo Mineiro, no século XIX. Segundo alguns historiadores, foi graças a seu poder de sedução sobre o ouvidor de Goiás que Minas arrancou do Estado vizinho 94.500 quilômetros quadrados de território —uma façanha discutível, como aliás é discutível a própria existência de dona Beja.

Mário Prata, autor das peças "Cordão Umbilical", "Fábrica de Chocolates" e das novelas "Estúpido Cupido" e "Dinheiro Vivo", recebeu a incumbência de dar vida ao personagem, ganhando 350.000 cruzeiros como adiantamento dos 10% de direitos autorais: "Depois de ouvir historiadores e ler livros sobre ela, concluí que quase tudo escrito a respeito de dona Beja era folclore. Assim, imaginei a peça como um conto de fadas".

DEBOCHES E PSICÓLOGO—Recheado de palavrões e cenas de sexo, trata-se de um conto de fadas bastante peculiar: nele, dona Beja (interpretada por três atrizes, Branca Luiza, Bete Coelho é Wilma Henriques) é apresentada como uma prostituta bem-sucedida, um hábil produto de propaganda para atrair turistas à estância hidromineral de Araxá. "Estou sendo cobrada em meu círculo de relações por fazer a peça", desabafa a experiente Wilma Henriques, mais de vinte anos de palco.

Problemas piores enfrentou Branca Luiza, 20 de idade: sua família abandonou o Palácio das Artes durante a estréia, protestando contra os deboches, e queria que ela deixasse a peça, ameaçando chamar um psicólogo para examiná-la. A Censura mandou cortar apenas uma alusão ao Hino da Independência e o superintendente do Palácio das Artes, Nestor Santana, está satisfeito com a iniciativa de contratar um autor e pagar adiantado: "'Dona Beja' deu certo e esse pode ser um novo caminho"

Veja, 29 de outubro de 1980