Uma
nova peça com muita coragem
Folha da Tarde 04/05/70
Paulo Lara
Um autor que estréia, um jovem diretor de cinema que volta para o
teatro e duas atrizes: uma otimista, alegre extrovertida. A outra tem um olhar triste
melancólico. Eles fazem parte de um espetáculo que está no Teatro Vereda há uma
semana: O Cordão Umbilical Saiba aqui, o que os quatro pensam da vida, de
si mesmos, como e porque a peça foi escrita e dirigida. A carreira de cada um.
Conheça-os mais intamamente. Mario Alberto Prata, é um jovem que veio de Lins e que
agora estréia como autor. Zé Rubens Siqueira, o diretor. Barba cerrada cheio de vontade
de fazer um teatro puro. Cacilda Lanuzza, a atriz que começou como apresentadora de
televisão e Julia Miranda, a moça que veio de Sorocaba e sofreu muito para encontrar uma
oportunidade, mas com perseverança só no ano passado, participou de seis filmes como
atriz, entre eles, Profeta da Fome, filme de Cappovilla que estará no
próximo Festival de Berlim. Mas há no elenco dois outros nomes conhecidos. Um é Carlos
Augusto Strazzer que fez Escola de Arte Dramática, esteve em Agamemnon,
de Sófocles e Romeu e Julieta, de Shakespeare. O outro é Enio Carvalho,
um ator da nova geração que se destaca de espetáculo para espetáculo.
O Cordão Umbilical é
um convite à coragem, coerência pessoal, um estímulo à busca do homem absoluto contido
em você e que você nem sabe. Quem diz isso é Zé Rubens Siqueira, que começou em arte
pintando, fez teatro depois cinema e agora voltou ao teatro para dirigir esta peça que
enfoca choques emocionais entre quatro personagens.
Meus interesses culturais
básicos perderam muito cedo para a filosofia. Depois procurei atingir uma penetração
cada vez maior em termos de mundo real. E consegui achar uma realidade que prá todo mundo
é irreal mas que na verdade é a fantasia contida na irrealidade.
Zé Rubens conhece o texto de Mario Alberto Prata há, algum tempo. Animou-se
ante a possibilidade da montagem e depois de feita uma seleção prévia de todo o
material que ambos desejavam incluir na peça começaram a colocar a coisa em prática.
0 resultado foi realmente
valioso mas me recuso avaliar dentro de qualquer estilo ou categoria. Não se pode
espremer o ser humano em categorias tão pequenas. Quanto ao elenco foi escolhido não só
pelas qualidades artísticas mas levando-se em conta a capacidade de amor que cada um dos
artistas pudesse conter.
O Cordão Umbilical, para
Zé Rubens, não é um texto teatral, é um gesto. Porém teatro, como qualquer outra
arte, ele define como sendo "uma experiência de vida, humana, que envolve entre
outras coisas o que se costuma chamar de Comunicação.
Meu objetivo ern teatro não é
pregar idéias novas ou já existentes, mas procurar com que as pessoas percebam novas
possibilidades, novos movimentos, uma nova vida integral, pura. Sobre o cotidiano, este
deve ser vivido com religiosidade e respeito com a magia que merece. E me confesso um
homem de ação, nunca um teórico.
Zé Rubens considera os autores que
estão surgindo como "um surto de nova gente" muito mais valiosa do que o surto
pseudo-político, de anos atrás. Ele também declara que não se interessa pelas pessoas
de mais de trinta anos. Seu interesse está na juventude, nos que nasceram há pouco e mesmo ainda aqueles que estão por
nascer.