O CORDÃO UMBILICAL

CRÍTICA

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Todos por um
Revista Veja 18/10/1972
J. M. P.

A ternura tem seus pudores. Mas Mario Prata não acredita nisso e descarrega despudoradamente a sua nos quatro personagens de sua peça O CORDÃO UMBILICAL (Teatro Senac, Rio). E, como essa oferta é tão grande quanto a procura, o público deixa o teatro recompensado.

A história é simples. Em um pequeno apartamento do Rio moram juntos um estudante de medicina, uma prostituta grávida, uma atriz e um jovem escritor. Este é o começo, o meio e o fim da história. O trabalho do autor foi derrubar as paredes do cenário que imaginou e franquear à platéia o espetáculo de quatro seres humanos surpreendidos em sua intimidade.

Assim, como "voyeurs", os espectadores ingressam naquela pequena comunidade e sem esforço se deixam ficar, pois o palco virou espelho. E, como os atores pensam, falam e agem como gente comum; conviver com eles é agradável tarefa, nas duas horas de espetáculo.

Solidariedade — Quem conseguiu essa naturalidade do elenco (Débora Duarte, Marco Nanini, Íris Bruzzi e Nélson Caruso) foi o diretor Aderbal Júnior, principiante e talentoso como o autor. Ele também soube criar uma ação ágil como os diálogos. Seus pecados são veniais: deveria ter resistido a todas as tentações de complicar a encenação. Nas poucas cenas em que cedeu, atrapalhou.

O cenógrafo conseguiu transformar o palco minúsculo em apartamento de dois quartos, sala, cozinha, banheiro e área de serviço. Contagiado talvez pelo trabalho dos colegas, enriqueceu-o: distribuiu sua cota de ternura pelos objetos de cena.

Em nenhum momento, ternura e lirismo podem ser batizados de sentimentalismo e pieguice. Os artistas de "O Cordão" sabem que uma tênue fronteira separa a comoção forte da lágrima fácil. E fincam decididamente o pé no território do bom gosto e da contenção.

Com dignidade se conta que o filho da prostituta Kátia Porreta vai nascer. Didi, o estudante, e Marco, o escritor, reservarão espaço no varal para as fraldas do bebê. A atriz Gladys Regina terá de decorar capítulos de novela em voz baixa para não acordá-lo. A mãe pedirá um mês de licença na boate. Mas um dia terá que voltar. Ela e todos retomarão a roda-viva. A peça apenas sugere esse dia em que o cordão umbilical do menino se desprenderá dos quatros ventres. Mas é justamente aí, no presságio de um fato corriqueiro, que a banalidade pode virar arte e agora, com uma vantagem extra. "O Cordão Umbilical", que foi montado de maneira mais modesta em São Paulo, dois anos atrás, pode estar começando a viver seus grandes momentos junto ao público, no Rio, se seguir a tradição recente de espetáculos produzidos por Carlos Imperial.