O CORDÃO UMBILICAL

CRÍTICA

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CRÍTICA

 


Quatro quartos em dois
JORNAL DO BRASIL  03/10/1972
Yan Michalski

Um crítico disse certa vez que as melhores peças são aquelas cujo enredo pode ser resumido numa frase, e citou o exemplo da obra-prima de Tchecov, na qual três irmãs querem ir a Moscou e não vão a Moscou. Por este critério, O Cordão Umbilical mereceria grau 10: trata-se de quatro personagens que se encontram num mesmo apartamento e ali convivem durante alguns meses; e é só. Entretanto, Tchecov fez da história das três irmãs que querem ir a Moscou um drama pungente, onde acontece muito pouca coisa na superfície, mas uma infinidade de coisas transcendentalmente importantes por baixo dela. Já Mario Prata não sabe manejar dramaticamente a convivência dos seus quatro jovens personagens: a peça limita-se a estudar as características individuais de cada um deles, e as características dos seus relacionamentos recíprocos, mas esse estudo esgota-se em si mesmo, não se constitui em ponto de partida para um conflito, para um impulso dramático. Com um pouco de rigor, poderíamos dizer que O Cordão Umbilical é uma série de bate papos soltos, mais do que uma peça propriamente dita.

Mas o talento do jovem autor salta aos olhos. Os personagens são gente em carne e osso; seus anseios, suas hesitações e suas frustrações levam o selo da autenticidade; sua mediocridade e falta de grandeza os torna, nos melhores momentos da peça, quase patéticos; seu diálogo chega a ser brilhante dentro da sua espontaneidade e crueza coloquial; e, sobretudo, o autor os envolve num clima de ternura e compreensão que confere à peça um certo impacto emocional. E esse impacto é sensivelmente valorizado pela visão crítica humorística que Mario Prata tem do pequeno mundo que coloca em cena. Embora a seleção do material revele certa auto-complacência, embora várias piadas tenham a marca da apelação e da facilidade, o humor de Prata possui, no seu conjunto, uma virulência e uma lucidez que nos permitem conceder ao jovem dramaturgo um amplo crédito de confiança.

A direção do quase estreante Aderbal Junior é uma revelação muito estimulante. Com sensibilidade e inteligência, .ele deu uma convincente forma cênica à atmosfera de ternura sem pieguice dentro da qual o autor situou os seus personagens. A maior qualidade da direção é, sem dúvida, a condução dos atores, a dimensão exata dada através dessa condução a cada um das personagens, a definição precisa de um clima de convivência muito especial, onde cada um dos quatro está na sua, fundamentalmente isolado dos outros, por maior que seja a promíscua intimidade que reina entre eles. Mas também a marcação, tanto quanto a direção de atores, revela o talento de Aderbal Jr., que transformou num trunfo, com muita habilidade, o desafio do difícil — porque extraordinariamente entulhado — espaço de ação proposto pelo cenógrafo Mixel. O cenário, aliás, ,é muito atraente, na medida em que brinca simpaticamente com os seus próprios excessos de naturalismo.

Muito bom e muito equilibrado o trabalho dos quatro intérpretes. Íris Bruzzi choca no início pela sua presença quase caricata, decorrente menos da sua própria composição do que dos excessos da maquilagem e do vestuário (o menos feliz dos bons figurinos de Colmar Dinis); mas, absorvido o primeiro choque, a atriz constrói a sua Cátia Porreta com muita força e apreciável dose de intuição. Marco Nanini, num trabalho de bonitas nuanças, estabelece inteligentemente a posição que o seu personagem — que seria o próprio autor da peça — ocupa no esquema das forças em jogo. Vencendo as deficiências do menos autêntico dos quatro papéis, Débora Duarte enche o palco com a sua presença encantadora, e em algumas bruscas mudanças de tom dá uma expressiva amostra dos seus recursos de atriz. E Nélson Caruso, embora num desempenho ligeiramente mais quadrado que os outros, revela simpática alegria de representar e espontaneidade.