O CORDÃO UMBILICAL

CRÍTICA

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CRÍTICA

 

O Cordão Umbilical-Primeira crítica
Yan Michalski

De todos os jovens autores que aparecem na trilha de Plínio Marcos, talvez nenhum tenha afinidade tão profunda com o autor de Dois Perdidos como Mario Prata: o mesmo dom de observação, a mesma autenticidade na coleta de amostras representativas da vida como ela é, a mesma linguagem saudavelmente desbocada, a mesma máscula ternura pelos personagens que se debatem corajosamente em condições de extrema miséria. Constatadas as afinidades, é preciso ressaltar também as diferenças: a visão de Mario Prata é a de um intelectual de classe média, bem diferente da visão proletária de Plínio; e se o seu talento salta aos olhos, o seu métier de dramaturgo é por enquanto ainda menos amadurecido, a sua seleção de material mais desigual, a sua noção de dosagem mais hesitante.

Por isso, O Cordão Umbilical vai um pouco menos longe do que poderia, limitando-se a uma sucessão de cenas que criam uma atmosfera densa e retratam com notável vitalidade um quadro de costumes, mas não conseguem encadear-se de modo a formar um.a verdadeira ação dramática que dê à obra uma dimensão à altura da evidente sensibilidade e do tocante humanismo do autor.

Se a peça é uma estimulante amostra de talento, o espetáculo é uma surpresa agradabilíssima em todos os sentidos. A começar pelo cenário de Mixel, bonitinho e simpático nas suas minúcias naturalistas, mas à primeira vista tão apertado que parece impossível quatro personagens conseguirem circular dentro dele — receio este que na prática se revela infundado. E se revela infundado porque o diretor estreante Aderbal Jr. soube movimentar esses personagens com uma habilidade de veterano. 0 que é bem mais importante, ele soube levar os quatro atores a preencherem esses personagens com composições detalhadíssimas, sinceras, assumidas em profundidade. 0 trabalho do elenco é o mais homogêneo e eficiente possível, e revela claramente a seriedade da direção. Íris Bruzzi. esplendidamente solta e autêntica (depois de superar alguns excessos de composição nos momentos iniciais); Débora Duarte, uma jovem atriz luminosa; Marco Nanini, num desempenho exemplarmente dosado e interiorizado; e Nélson Caruso, espontâneo e divertido, compõem um quarteto que valoriza O Cordão Umbilical até as últimas conseqüências.

Apesar de algumas redundâncias e repetições, a gente agüenta as duas horas e 10 minutos de ato único sem um momento de cansaço: prova definitiva do talento do autor, do diretor, do cenógrafo e do elenco.