FOLHA DE S.PAULO 13/05/1970
Abrindo um hiato de
descontração e bom humor no clima tenso que caracteriza a nova dramaturgia brasileira,
Mario Alberto Prata oferece, em "O Cordão Umbilical ", a espontaneidade
e irreverência de uma juventude que está aí para o que der e vier, apanhando a vida
pelas pontas e dando o testemunho do seu tempo Dono de uma linguagem fluente; viva,
carregada de uma vibração que se extravasa em contínuos trocadilhos e achados
humorísticos, o autor faz um primeiro ato de risadas, mostrando sua gente, cinco
criaturas, quatro adultas e um feto que se manifesta apenas no fim, inesperadamente, dando
um tranco violento na platéia.
Introduzidos na simpática
desorganização de um apartamento de solteiro, participamos do quotidiano de um estudante
de medicina, uma prostituta grávida, um escritor e uma atriz iniciantes. O que pensam, o
que fazem, sonham e o que sofrem estão nos
diálogos irresponsáveis, pequenos atritos e na permanente confraternização final. O
estudante é quadrado e persegue os mais rançosos objetivos da classe média. O escritor
tenta sair de uma crise de opção e firmar sua própria vontade. 4 atriz faz tristes concessões em busca da fama e a prostituta
enfrenta a sua vida como ela é, sem rebuços e sem considerações metafísicas,cedendo
à emoção só quando pensa nos filhos. O ato se encerra com a voz do feto expondo suas
primeiras considerações sobre um mundo que compra sua mãe "por trinta
dinheiros".
A segunda parte da história se
desenvolve em dois planos. O escritor escreve uma peça-sobre a vida das pessoas que vivem
naquele apartamento. É a técnica da peça dentro da peça, uma das características da
obra de Pirandelo. Na versão original, Mario Alberto Prata se perdia um pouco em
diálogos aparentemente profundos (na peça do escritor) mas a revisão final, em
companhia do diretor, deu mais consistência ao texto. 0 2 o ato é dedicado a soluções
ideais dos personagens, suas racionalizações quase em termos de chavões, etc, Tudo
representado pois o menor toque da realidade desfaz a convenção e cada um reassume sua
verdadeira personalidade.
Mario Alberto Prata deixou um ponto
vulnerável em sua obra ao dar apenas o testemunho do seu tempo sem uma aresta de
agressividade, uma marca de discordância (embora ela esteja implícita em vários
momentos). De um modo geraL quando o espetáculo termina, há uma leve sensação de não
se saber direito o que ele quis dizer. Não lhe faria mal um pouco mais de engajamento,
justamente o que, às vezes, põe a perder o trabalho de um artista.
São restrições mínimas diante da
criatividade deste autêntico escritor que em sua estréia construiu uma história com
quatro personagens, fugindo ao esquema de duas pessoas em conflito e sabendo
caracterizá-las com habilidade de bom observador. Se Pirandelo já fez o mesmo, com a
perfeição do gênio, não faz mal e Prata não tem nada com isto. Que o Prêmio
Nobel descanse em paz e os novos dramaturgos do Brasil escrevam o seu teatro, do jeito que
o sentem.
"O Cordão Umbilical" revela,
ainda, em José Rubens Siqueira, um diretor de imaginação que ajudou o autor a apurar a
teatralidade do texto e lhe deu o tratamento ágil e malicioso que atrai a cumplicidade da
platéia. Deveria, apenas, ter evitado certas gratuidades e concessões em busca do riso
(e cena de cama no escuro etc). A gravação da história infantil também é
dispensável, pois não enriquece o espetáculo ao ponto de justificá-la.
José Rubens confirma sua competência
com o ótimo rendimento do elenco. Cacilda Lanuza realiza uma das mais vigorosas,
cativantes e humanas interpretações do teatro paulista na atual temporada. Ela é dona
da cena, do personagem, conquistando a simpatia geral do público. Carlos Augusto Strazzer
é um dos melhores atores de sua geração, um artista que se impõe pela espontaneidade e
força interior que irradia a cada gesto. Enio Carvalho faz o seu melhor trabalho nos
últimos tempos, na composição precisa do estudante. Julia Miranda explora seriamente um
papel delicado por ser o menos delineado e colorido neste conjunto de personalidades
fortes.
Os cenários e figurinos de Maria
Helena Grembecki fornecem o suporte que a direção necessita para o desenvolvimento da
ação.
"O Cordão Umbilical" é
explosão de vitalidade, esta densa, ainda imperfeita e entusiasmante vitalidade que se
derrama sobre o teatro brasileiro .Deve ser visto.
FOLHA DE S.PAULO 13/05/1970
Jefferson Del Rios