O CORDÃO UMBILICAL

CRÍTICA

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CRÍTICA

 

O cordão de prata
Gilberto Tumscitz

Com todas as características dos jovens autores de poucos personagens, boa dose de projeção pessoal e certa inexperiência dramática, lançados mais em S. Paulo do que no Rio em 69-70, Mario Prata mostra recursos que com toda a certeza o levarão a um salto em direção à dramaturgia mais madura. 

O Cordão Umbilical junta o intelectual porta-voz do autor a seu antagonista, um estudante de Medicina cheio de contradições, uma candidata a atriz comovente e uma jovem prostituta de tiradas tão brilhantes quanto é gritante sua falta de autenticidade.

Nossa reação, durante as duas horas de ação corrida, vai do leve entusiasmo, que desperta a inteligência e o espírito, ao tédio que sempre provoca o blá-blá-blá dessa turma-empenhada, a quem o crítico deve muito mais do que o elogio fácil e paternalista.

Alguns furos acima de "A flor da pele", de Consuelo de Castro, ou "Gildinha Saraiva", de Bivar-Aquino, mas muitos, por exemplo, abaixo de "As moças", de Isabel Câmara, tenho dúvidas quanto à oportunidade desse lançamento carioca de O Cordão Umbilical, dois anos depois da estréia paulista, lá recebida com tanto entusiasmo. Nesses dois anos, o próprio Mario Prata poderá ter sido levado, a partir do saldo da primeira produção, a dar o salto de que falei acima. É bem verdade que o espetáculo do Senac marca a estréia de um jovem diretor de quem, apesar de algumas arestas, temos muito o que esperar.

Amparado por um belo cenário realista de Mixel, talvez um pouco animado demais para o clima dos personagens mas teatralmente delicioso, Aderbal Júnior mostra-se, antes de mais nada, um ótimo diretor de atores, conseguindo de seus quatro intérpretes um entrosamento louvável. Débora Duarte e Marco Nanini podem, nos melhores personagens da peça (o intelectual visivelmente auto-biográfico e a atrizinha), aparecer com naturalidade e alegria de representar animadores, Iris Bruzzi luta contra a inconsistência de sua prostituta (que fala em seu "coronel" e outras pequenas provas de que seu criador sempre esteve mais próximo do teatro do que da calçada), com a força que lhe conhecemos, chegando a entusiasmar aqui e ali, como numa cena em que fala de boca cheia. Contra ela, uma caracterização pesadíssima à la Fellini dessa última fase, contra-senso penoso num espetáculo que se quer, extremamente realista, com fogão acendendo em cena e água corrente no proscênio.Nelson Caruso descontraído e às vezes até convincente é a surpresa mais desagradável da noite.

A direção peca apenas por levar às ultimas conseqüências certas vulgaridades do texto que não convém relembrar aqui. Já os figurinos de Colmar, à exceção do equívoco de que Iris é vítima, são gostosamente verdadeiros e inventivos.