O
Cordão Umbilical no Vereda
A GAZETA 11/05/1970
Regina Helena
Um diálogo vivo,
atual. Uma carpintaria descompromissada com os esquemas tradicionais. Bastante humor nos
diálogos e nas situações. E um ótimo desenho dos personagens, revelando boa
observação (a observação do repórter que o autor já foi). Tudo isso a gente pode
encontrar na peça de Mario Alberto Prata "O Cordão Umbilical"
que está sendo levada no Teatro Vereda.
É extraordinário o número de autores
de teatro que têm surgido em São Paulo. Isto aqui, de uns tempos para cá, parece um
verdadeiro celeiro de dramaturgos. As causas merecem ser estudadas em comentário à
parte. Por que aparecem em São Paulo autores às dúzias alguns ótimos e
isso não acontece nem no Rio de Janeiro nem em outra capital?
Mario Alberto Prata, que já tem um
romance cuja primeira edição se esgotou em 14 dias e que é muito jovem (20 e
poucos anos). começou bem em teatro. O que mais nos impressionou em sua peça foi a sua
capacidade de bem delinear os personagens. O estudante reacionário e falso puritano foi
muito bem apanhado pelo autor. A prostituta grávida que já foi Testemunha de
Jeová é um tipo maravilhoso. Ficam mais apagados, como tipos, o intelectual e a
atriz. Talvez fosse preciso destacar melhor o sub-desenvolvimento mental da atrizinha. A
gente percebe que o autor, se entusiasmou mais com os dois primeiros tipos, relaxando um
pouco nas características dos outros dois.
Outra coisa boa é o seu diálogo, que
flui naturalmente. E bem feita a sutil diferença do diálogo no 2.o ato, quando os quatro
personagens passam a representar a peça escrita para eles pelo intelectual: sente-se a
preocupação do autor em forjar um diálogo menos vivo, já que a peça dentro da peça
não é sua, é do seu personagem.
A direção de José Rubens Siqueira é
inteligente e os quatro atores estão bastante integrados nos seus personagens. Cacilda
Lanuza tem um excelente desempenho engraçado, descontraído, vivíssimo. Enio
Carvalho faz com muitíssima graça e boa técnica o estudante, Carlos Strazzer também
está bem no intelectual. Quem destoa um pouco dos outros é Julia Miranda. Na verdade, a
atriz está prejudicada pelo papel, bem menos marcada do que os outros três.
O que poderia ser: plenamente
dispensável é a estória inicial, tentando enquadrar os personagens e as situações
numa estorinha infantil. Também não entendemos o que dizia a música entre uma cena e
outra, e portanto desconhecemos a intenção do autor em usá-la.
Mario Alberto Prata é um autor que
surge com um texto bastante promissor. Vamos esperar pela sua próxima peça, com muita
curiosidade.